Um papo com Bruno Nunes "El Conejo"

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Bruno Nunes Coelho é o que podemos chamar de artista, mesmo que não aja como tal. Explicando melhor, você pode ouvir ou ver a arte dele e não saber quem ele é, seja ouvindo os diversos discos da Constantina, banda instrumental que ele fundou com irmãos e amigos em Belo Horizonte ou lendo livros e vendo capas ilustradas por ele. Conheci ambos os trabalhos de Bruno com o primeiro disco do Constantina, grupo pelo qual nutro uma admiração desde quase seu início.

Ano passado duas coisas aconteceram ao mesmo tempo na vida do Bruno. Sua banda deu uma pausa e ele se mudou para São Paulo. Estas mudanças foram o início de um novo momento, não apenas na vida pessoal, como na vida musical. Assim nasceu o projeto El Conejo, que neste ano lançou seu primeiro disco (baixe aqui). Tudo feito no apartamento do camarada em São Paulo, um processo solitário e diferente do que ele já tinha feito antes.

Após ouvir o belo trabalho do El Conejo, resolvemos bater um papo com o Bruno sobre música, arte, objetivos e o que mais viesse à tona.

Cara, pra começar. Qual objetivo do El Conejo? O que você pretende com ele? Já que a Constantina não acabou.

Acredito que o objetivo com o El Conejo seja o mesmo de quando era um moleque, e no antigo violão que pertencia a meu avô, comecei a procurar pelos meus primeiros acordes…tudo unicamente pela vontade e anseio em poder criar músicas. Simples assim.

Quando comecei o processo de composição e gravação, fiz também um acordo de não alimentar quaisquer intenções mercadológicas ou expectativas sobre como o disco seria recebido pelas pessoas, ou até mesmo, se alguém iria se interessar em escutá-lo. Queria focar somente nas composições e curtir o processo.

Lembro de me pegar refletindo sobre estas questões e este pensamento me veio como um estalo. Foi algo libertador saber que nesta autonomia ninguém poderia interferir. Que no fim das contas, era uma pessoa de muita sorte em poder seguir fazendo música, e que com o El Conejo agora, posso seguir até onde a mente e os dedos permitirem.

Ao ouvir o som do projeto, me lembro da Constantina em diversos momentos. Claro que isso passa por uma identidade sonora sua. Por que lançar este novo projeto e não um novo disco da Constantina?

O processo todo começou há pouco mais de 1 ano. Foi um período de várias mudanças na minha vida, entre elas uma nova morada em uma nova cidade, e neste turbilhão todo veio também uma pausa no Constantina.

Vínhamos há 11 anos depositando muita energia e tempo na banda, e como em todo processo que perdura, há também um desgaste. Esta pausa veio como algo necessário para respirarmos um pouco, e com isto, mantermos também o processo saudável.

Acontece que as ideias não cessaram, e com o tempo os dedos começaram a "coçar" para retornar às músicas. A vontade de fazer algo sozinho vinha crescendo há alguns anos, mas sempre era adiada. Foi necessário o encontro de todos estes momentos de vida para ganhar a coragem que me faltava e assim, poder tirar do imaginário e colocar em prática o que sonhava ser o El Conejo.

Tenho consciência que há muito do Constantina por ali, nas margens e detalhes, mas acredito também que pela primeira vez, consegui imprimir um lado de mais calmaria e sutilezas, muitas referências autobiográficas e um tom quase nostálgico, e acredito que muito disto se deu pelas diferenças naturais de processos e criações. Pude sentir na prática, a diferença de uma criação coletiva e uma solo.

Agora com o Constantina, já adianto que voltamos a ensaiar e estou bem animado com os novos caminhos que estão surgindo. Acredito que em breve teremos novidades para mostrar!

Li que uma dificuldade sua em compor sozinho era não ter com quem discutir as composições. Eu queria saber se você precisa se isolar pra compor?

Acredito que todos que vivem em meio a processos de criação, acabam se adaptando ou buscando um ambiente que inspire. No meu caso eu acabei me adaptando. A maior parte das músicas foram criadas e gravadas em casa, no apartamento onde moro hoje em São Paulo.

Sempre fui uma pessoa mais de "silêncios", mas me vi naquele momento vivendo de frente para uma avenida de constante movimento de carros. No começo tive muitas dificuldades com o barulho interno, principalmente na hora de gravar os violões, o que me forçou a inverter os horários de gravação para as madrugadas, onde a energia do lado de fora se acalmava um pouco.

Acredito que esta adversidade acabou gerando algo positivo, pois pelo horário seria impossível criar algo muito alto ou catártico. Com isto, o disco acabou ganhando esta unidade e se configurando em um tom mais sutil e calmo... canções despertinas.


Você é um grande ilustrador, além de músico autodidata. Sei que você cresceu cercado por música, o Daniel disse isso em uma entrevista pra nós. O que veio primeiro, o som ou o traço?

O traço veio primeiro, mas a música chegou como um tsunami! Os desenhos fazem parte do meu universo desde bem pequeno. Se bobear, acredito que até comecei a rabiscar antes mesmo de ter dado os primeiros passos!

A música também sempre esteve presente. Meus pais adoravam o ato de escutar música, de realmente parar para colocar um disco e curtir o som que saía da vitrola. Com isto, cresci com muitas notas ao pé do ouvido, porém a ideia mesmo de saber e acreditar que também poderia fazer isto veio mesmo na minha pré adolescência…lá pelos meus 11, 12 anos. Acredito que muito por influência de um tio nosso que era baterista e viveu a época de ouro da saudosa Cogumelo Records em Belo Horizonte e a cena do metal mineiro nos anos 80/90.

Começamos a acompanhar alguns ensaios de sua banda e aquilo tudo era mágico aos nossos olhos. Em casa, improvisávamos nossa própria banda. Uma bateria com latas velhas para o Dani, eu arriscava meus primeiros acordes em um antigo violão banguela de meu avô e Leo, nosso irmão mais velho, já ficava a orquestrar as idéias que surgiam.

Hoje, acredito ter chegado a uma fórmula que me serve bem para continuar exercendo estas duas atividades. A ilustração é o meu "trabalho oficial". É dela que pago minhas contas e a música continua, não em segundo plano mas em paralelo, porém sem este "peso" de ser uma profissão, de ter responsabilidades contratuais ou a necessidade de se fazer algo vendável…mantenho esta parte livre de qualquer amarra e sem regras para criação.

Você se considera experimental? Por quê?

Difícil responder esta. Acredito que muitas destas definições partem de um ponto de vista, e nisto, não sei se me encaixo no que geralmente se costuma classificar como "experimental".

O que posso dizer, é que nunca havia me dado esta liberdade para experimentar tanto como fiz agora neste disco. A minha proposta era focar nas seis cordas…fazer um disco mais vazio, mas sem que soasse monótono ou sem graça.

Boa parte deste tempo de gravação foi usada para pensar texturas e loops. Até mesmo baquetas e cerdas de pincel foram usadas para tocar as cordas. Tudo isto para tentar extrair, tanto do violão quanto da guitarra, novas formas de sonoridade que não soassem tão óbvias aos ouvidos.

Tentei também pensar estruturas musicais que não fossem tão próximas do esquema pop, e sim, algo mais próximo de paisagens sonoras. Agora, se realmente soam como experimental não sei dizer. Prefiro deixar esta decisão para os possíveis ouvidos que irão passear por estes sons!

O nome El conejo tem alguma ligação direta com o som do projeto ou apenas com seu sobrenome?

Acredito que tentar resumir toda a ideia de um projeto em apenas um nome não é algo fácil de se fazer. Imagino que a concepção da maioria dos artistas que se aventuram em projetos solos é a de usar o próprio nome. Eu porém não me empolgava muito com a ideia de assinar como Bruno… sei lá, me soava muito como um "cartão de vista" e não como um projeto musical.

Coelho é o sobrenome que herdei de meu pai. Lembro que achava surreal de legal ter um nome animal quando pequeno. Achava aquilo tudo muito divertido!

A ideia de usar o sobrenome me veio durante uma das viagens que fiz com o Constantina pelo SXSW (leia o diário de bordo da Constantina no SXSW). Durante uma compra que estava fazendo, a atendente pegou o cartão de crédito e foi conferir o nome…quando ela chegou na palavra Coelho se embolou toda para pronunciar. Vendo aquele engasgo, resolvi contextualizar e comentei que Coelho era a palavra em português para Rabbit. Ela abriu um sorriso e disse…"woow…what a cool name"…foi aí que me peguei pensando…"é verdade, havia me esquecido de como é bacana mesmo esse nome animalesco".

A opção pela palavra em espanhol foi simplesmente pela sonoridade, que acho linda…uma mania que tenho de ficar testando os sons de cada palavra em outras línguas…vai saber (risos).

Se você pudesse escolher cinco discos primordiais para te fazer ser o que você é hoje. Quais seriam e por que?

Difícil vai ser escolher só cinco, mas vamos lá:

Neil Young - On The Beach (1974) - Muito do que pensava sobre a música mudou desde o dia em que meu pai me entregou este disco nas mãos e disse: "você deveria escutar isto aqui, vai mudar seu mundo"…e mudou mesmo. Os timbres, todo o clima daquele disco, sem comentar aquela capa incrível com um cadillac enterrado na praia…aquilo me fascinou de um modo que desde então carrego este disco comigo. E quando me mudei para SP, uma das poucas coisas que trouxe comigo foi este disco, direto da coleção de meu pai e que guardo com carinho aqui comigo agora.

Robbie Basho - Visions of the Country (1978) - Desde que comprei este disco, alguns anos atrás, ele não me sai da vitrola. Juro que é uma das coisas mais lindas que já escutei na vida. Adoro músicas que são visuais, e Robbie Basho, com todas as suas particularidades no dedilhado e sua voz com um vibrato surreal fazem este disco ser muito especial.

Nick Drake - Pink Moon (1972) - Acho que nem preciso dizer muito sobre este disco. Acredito que deve estar na lista de muitos, como um dos discos da vida. Para mim, este clima vazio e a calmaria que ele transmite, são um dos principais motivos para recorrer sempre a este disco… sem comentar o som deste violão e sua voz. Simplesmente perfeito! Como dizer muito com pouco.

Fugazi - In on the Kill Taker (1993) - Tenho certeza que muitos vão se assustar com este disco aqui na lista. Talvez por não conseguirem encontrar uma similaridade sonora, tanto com o Constantina quanto com o El Conejo, mas para mim Fugazi sempre será uma referência. Foi talvez o primeiro show de uma banda gringa que assisti, durante o festival Bhrif que aconteceu em 1994 em Belo Horizonte, e fez minha cabeça girar. Todo aquele sentimento de idealismo e porque não dizer, utopia, na maneira de se fazer e se ter uma banda me influenciou de tal maneira que carrego isto até hoje. Posso dizer, por mim e pelo Dani, com certeza temos muito dessa época ainda no Constantina e agora no El Conejo também.

Quinteto Armorial - Do Romance ao Galope Nordestino (1974) - O Quinteto Armorial surgiu durante o Movimento Armorial que teve Ariano Suassuna como um dos responsáveis. Me encanta muito toda forma de música que possui esse lado folclórico, no sentido real da palavra, e não este que usamos hoje como "folk", configurando-se geralmente por uma pessoa e um violão. Este disco é lindo e uma mistura perfeita do erudito com o popular, com interpretações de grandes mestres como Guerra Peixe e Capiba. Sem mais palavra.

Vendo os discos citados por você, somente um deles é instrumental. Por que não usar o canto então? Você já tentou compor letras?

Já pensei sim, porém, tenho que admitir que cantar é algo que não nasci para fazer...definitivamente (risos)! As minhas pequenas experiências tocando em bandas com vocalistas foram incríveis, é um outro universo, mas confesso que prefiro a composição instrumental. Gosto da ideia de contar uma história somente através das notas.

Mas agora uma coisa é fato, nada nessa vida é definitivo. E pensando bem, com o Constantina, que é uma banda genuinamente instrumental, lançamos em 2012 um disco inteiro com vozes que foi o Pacífico. Então, vai que um dia ainda me arrisco a cantarolar algo..ou convidar alguém, que seria melhor... (risos)

Capa_El Conejo

A arte do trabalho é incrível. Queria que você falasse um pouco da arte, tentando explicar a ideia no todo. Eu sei por que o coelho está ali, mas e as laterais?

Obrigado! Fico feliz que a capa do disco tenha chamado a atenção. Sempre procurei ter um cuidado especial para esta parte do trabalho, talvez pelo fato de transitar nestes dois universos. Acredito que um disco, para ser especial, tem de ser pensado como um todo e nisto a capa, ao meu ver, tem um papel fundamental.

Muitas das minhas referências visuais vieram depois que comecei a acompanhar Ana, minha namorada, em seu projeto de pesquisa que se chama Andarilha. Vinha alimentando a vontade de fazer algo que passasse pelo artesanal e que fugisse da ilustração tradicional, no lápis e papel. Passamos por Cuiabá e também pelo sertão de Alagoas durante estas pesquisas e além dos vários artesãos, pude também acompanhar o trabalho de algumas rendeiras e bordadeiras.

Acredito que o que mais me chamou a atenção nestas viagens, foi ver de perto o trabalho destas pessoas que buscam no imaginário folclórico referências para criar. Um pouco do que havia comentado sobre o disco do Quinteto Armorial.

Desde então fiquei com esta ideia fixa de fazer um bordado para a capa. A questão é que nunca havia bordado na minha vida e não sabia por onde começar. A princípio procurei por pessoas que pudessem fazer este bordado, mas acabei sendo incentivado por Ana a fazer eu mesmo. No meu aniversário ela me deu um kit com linhas e agulhas e dali comecei a pesquisar um pouco sobre as técnicas. Levei pouco mais de duas semanas entre agulhadas nos dedos e pontos errados até conseguir chegar neste bordado final.

A capa nada mais é do que aquilo que acredito ser a representação visual do que estas músicas me passam. Uma trama que vai se costurando e se fazendo a cada ponto, sem pressa ou preocupação de se fazer entender e sim de valorizar o processo pelo qual é feito.

Com a pergunta da arte, questiono: Em qual formato o El Conejo será lançado? Porque daria um belo vinil.

Sim... adoraria ter este disco em vinil também! Infelizmente o custo para se fazer esta produção no Brasil ainda é bem alto e com isso este sonho está sendo adiado no momento. Na realidade, esta “dança dos formatos físicos” é quase uma pegadinha. Por um bom tempo se falava na “morte” dos discos físicos, o formato CD começava a esfriar e cair em desuso e de repente o vinil retorna quase como uma febre e vem logo seguido das fitas k7. Eu que cresci sem ter deixado de lado o vinil acho lindo este retorno, porém, não tão feliz para o bolso quando se tem de pensar em produzir/prensar o próprio disco.

Você tocou ao vivo com o El Conejo no Pequenas Sessões desse ano. Como foi essa experiência? O que precisa mudar/melhorar para realmente chegar na ideia da concepção do disco/projeto? Já existem outros shows?

Sim! Foi incrível. Pude dividir o espaço com mais três artistas que admiro muito: Dom Pedro, Jonathan Tadeu e Nobat. Tudo isto dentro da concepção de um show quadrifônico, que foi uma proposta feita pelo Dani, que é o grande responsável pelo festival existir hoje.

Fico imaginando que o ato de se apresentar ao vivo é como seguir um caminho que não possui fim...tem sempre algo a ser melhorado, ou algo para se mudar, sem falar nos imprevistos que sempre podem surgir. Você pode fazer isto por 5, 10 ou 20 anos e parece que ainda assim, sempre vai haver uma energia te chamando para seguir e buscar por algo ainda melhor ou novo... e eu lá, seguindo feliz este caminho!

O que percebi com o show do Pequenas é que provavelmente vou ter de pensar em lugares que sejam mais tranquilos. As músicas, por serem tão sutis, são quase que engolidas quando apresentadas em lugares muito agitados.

Quero fechar este ano com pelo menos mais um show e correr atrás de uma agenda mais cheia para ano que vem. Vamos ver como isto se desenrola.

Você falou em querer contemplar o silêncio no projeto. Isto tem relação com o barulho de São Paulo? Cage diz que o silêncio é parte da composição. Como você vê isso?

Lembro de um dos conselhos que recebi de um dos amigos que tocavam com este meu tio que comentei mais cedo. Ele me disse certa vez que “para haver o som, para que ele seja grande, antes deve haver o silêncio”. Eu era ainda um moleque que começava a se aventurar pelos sons e aquilo me soou quase como uma charada a ser resolvida. Passei então, a escutar as músicas e procurar entender as estruturas, como os climas eram criados e a procurar pelos silêncios entre as notas.

Talvez seja uma charada também quando Cage diz que “O que queremos é o silêncio; mas o que o silêncio quer é que eu continue falando”.  Acho que todo este mistério por traz destas metáforas ou pensamentos, seja unicamente para manter o nosso olhar poético e curioso. Acredito que conservar este olhar assim seja talvez o principal para mim no momento...e talvez este mistério todo seja primordial para que ele se mantenha assim.

Vejo que sua arte/traço tem muito sucesso e reconhecimento. Trata-se do seu ganha pão principal. Então pergunto: falta ambição no Bruno músico?

Não sei dizer se falta ambição. Pensando em tudo que já vivi com o Constantina por exemplo. Já fizemos tanto: seis discos lançados, tocamos já por vários lugares no Brasil além de três turnês fora do país, muitos encontros incríveis e a coisa simplesmente nunca aconteceu em termos financeiros, digamos assim. Na minha opinião, ganhamos muito mais do que dinheiro. Sei que parece clichê dizer assim, mas é fato...e talvez simplesmente não fosse para acontecer.

Fico me perguntando, se realmente há muitos músicos deste mercado “independente”, se é que posso dizer assim, que conseguem se manter somente da música que fazem? Penso que talvez seja mais um problema deste universo musical que estamos inseridos, onde a matemática de custos e despesas, nunca batem para se manter uma banda, circular e ainda assim, lucrar com isto.

Acho que vou viver uma vida inteira e ainda assim não ter uma resposta para isto. Gostaria muito de que nossa música pudesse chegar a mais e mais ouvidos espalhados pelo mundo, mas confesso não ter esta energia de que isso se torne uma realidade a todo custo sabe? Vou seguir fazendo e uma hora algo pode acontecer...ou não...vai saber.

Em tempo, falando das artes. Você já realizou alguma exposição/fez artes apenas pelo prazer da arte? Vejo que muito do seu portfólio é artes em trabalhos envolvendo outras artes (livros, por exemplo). Por isso fiz a pergunta.

Sim! Várias somente pelo prazer de produzir, mas exposição mesmo, nenhuma até o momento. Acaba que, muito do meu tempo dedicado à ilustração é preenchido por trabalhos diretamente. E quando digo isso, não quero dizer que seja algo ruim. Na verdade adoro o meu trabalho de ilustrar, principalmente quando saio um pouco do campo do design e vou para a literatura com as ilustrações para livros.

Espaço aberto para falar o que quiser ou simplesmente ficar em silêncio. A escolha é sua.

Gostaria de agradecer as linhas abertas para poder falar um pouco mais sobre o disco e meus trabalhos… são oportunidades raras e sempre muito bem vindas!

Sempre que me pego pensando sobre estas músicas, me lembro de uma história em especial. Durante a viagem pelo sertão de Alagoas que comentei mais cedo, tivemos vários encontros e um deles me marcou muito. Manoel da Costa Lima, o Costinha, é o poeta da região, carinhosamente chamada por ele de "Boca do Vento".

É um senhor já de idade e de mãos trêmulas e que naquele encontro compartilhou várias histórias com a gente. Ele passava por um momento frágil, em luto pela perda da esposa. Luto que adormeceu a paixão pela música."Tem dois anos que ele não toca mais o forró que tanto gosta" explicava Dedé, o nosso guia. Entre uma história e outra, ele falava para o poeta: "sabia que eles são músicos também?", se referindo a mim e ao Viquitor, músico que também nos acompanhava na viagem fazendo a filmagem.

O dia já estava escurecendo quando começamos a nos organizar para sair. O vento começou a soprar como nunca e Costinha entrou em sua casa. Minutos depois começamos a escutar o som dos oito baixos. Dedé deu um salto e entrou animado para buscar a zabumba e nos chamando para participar também. Um convite como este vale ouro! Poder compartilhar da música que Costinha tanto ama me fez lembrar da época em que começava, ao lado de meus irmãos, viver este universo musical. Acredito que a música é sobre estes encontros, sobre celebrar…

Para aqueles que possam se aventurar escutando este disco, espero que acrescente algo de positivo no universo de cada um. O disco foi feito de maneira bem simples e com poucos recursos, mas foi feito de coração.

Obrigado! Saravemos!

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