ZOMES ou um entorpecente musical sem contra-indicações

por - 15:20

Zomes

Repetição. Camadas de padrões. Variações minimalistas. Corpos cíclicos , sem fins e sem começos. Desde que Brian Eno se desprendeu do glam-rock de sua banda matriz, o Roxy Music, e nos presenteou com um novo conceito musical, entitulado - por motivos óbvios - de “ambient”, a música conseguiu uma façanha que há décadas já se formava teoricamente, mas que na prática não alcançava seu objetivo plenamente: a de se aproximar o máximo possível do conceito de arte plástica, algo quase físico, tateável, com forma e volume além de ondas invisíveis. Ali, na mão de Eno e de outros artistas como Philip Glass, Robert Fripp, Tangerine Dream e John Cage, a música entrou definitivamente pro panteão da arte-conceito.

Essa “ambient music” logo encontrou seu lar na música eletrônica, e dentro dessa casta ela se remodelou, mimetizou, se reinventou obsessivamente. Evoluia, sem dúvida, mas não conseguia se desprender do gênero matriz eletrônico.

É aí que entra a parte da história que eu vim abraçar: em 1994, o crítico musical Simon Reynolds, numa resenha pra The Wire sobre um disco do Bark Psychosis, se referiu ao som do disco como “instrumentação de rock pra fazer musica sem propósitos de rock exatamente, mas usando guitarras distorcidas como facilitadoras de timbres e texturas além dos usuais riffs e estruturas usuais do rock.”

Dentre uma posterior “avalanche” de bandas usando esses parâmetros pra construir uma hiper variada gama dentro do novo estilo, batizado de post rock, um banda em especial vindos de Baltimore, o Lungfish, cresceu num galho mutagênico meio que único: suas composições consistiam na repetição incessante de um riff de guitarra, num loop contínuo, minimalista e teoricamente infindável, seguido uníssono pela cozinha do baixo-bateria sobrepondo uma voz grave recitando letras xamânicas e com alto teor psicotrópico em sua essência. Em forma de linguagem: imagine um riff simples do Angus Young, carregado de peiote, repetido à exaustão até que ele atinja o nível de mantra tibetano: é por aí, você está chegando lá!

Depois de uns bons anos e dez trabalhos gravados, os integrantes do Lungfish se separaram em peças solos, mas sempre voltados pra temática hipnótica xamanesca: o vocal Daniel Higgs concentra seus trabalhos em banjo e jew harp, o baixista Nathan Bell se focou no violão folk e country music, e o guitarrista Asa Osborne criou o Zomes, que é provavelmente a face mais identificável com o que um dia foi o trabalho do Lungfish, com belas e minimalistas texturas de peças para guitarra e keyboards. A maioria dos temas parecem serem construídos em tom maior e inspirados numa sonoridade oriental; isso unido com uma constante repetição mântrica causa um efeito prazeroso, quase entorpecente no ouvinte.

O Zomes foi, de 2008 até 2012, somente as mãos e a cabeça de Asa Osborne como único integrante, que gravava seus trabalhos com beats pré-programados num deck de cassete. Em 2013, em turnê do disco Earth Grid, Asa apresentou seu trampo pela primeira vez por lados sulamericanos. Em tour do Variations Vol. 1, lançado por aqui pelo selo independente Desmonta e que será tocado pela primeira vez no Brasil em uma apresentação especial no dia 7.12, no Estudio Fita Crepe, em São Paulo, Osborne passava pela Suécia e conheceu a vocalista Hanna Olivegren, onde fizeram uma apresentação colaborativa e improvisada, completamente inspiradora. A colaboração mútua rendeu mais algumas apresentações numa galeria de arte em Estocolmo, e Asa a convidou Hanna pra repetir a parceria num show em Nova York. Como conseqüência dessa parceria casual, o Zomes acabou se tornando uma dupla e gravando um novo disco, Time Was, de 2013. Agora em 2015 o duo preparou novo material no album Near Unison pra somar com o repertório, e faz uma série de apresentações pelo Brasil com sua formação atualizada. Infelizmente, e por enquanto, as datas confirmadas são somente em São Paulo, Jundiaí, Mogi das Cruzes e Rio de Janeiro... mas dá uma sacada na agenda do selo Desmonta e fique atento nas apresentações, vale muito a pena.


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