A reorganização das escolas segue a mesma lógica do transporte público

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[caption id="attachment_27659" align="aligncenter" width="695"]Protesto escolas 2015 Foto por Marlene Bermago[/caption]
Na última terça-feira (1) o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, assinou um decreto que libera a reorganização das escolas do Estado de São Paulo, apesar de todos os protestos dos alunos. Para quem não sabe, estudantes do ensino fundamental e médio ocupam várias escolas em todo o estado, pois são contra essa reestruturação proposta pelo secretário da educação, Herman Voorwald.

Recentemente, uma chuva de protestos feita pelos próprios alunos tem parado a cidade, resultando em violência policial contra menores de idade. A ideia da proposta feita por Herman é a de que algumas escolas sejam fechadas e que outras recebam apenas um ciclo do ensino (só fundamental da 5ª a 9ª série ou só médio, do primeiro ao terceiro colegial). O argumento usado para fechar escolas pelo governador e o secretário é de que existem muitas escolas ociosas na cidade, que temos poucos alunos em algumas delas. Esse argumento usado pelo governo me lembrou bastante o que é falado na já famosa reestruturação das linhas de ônibus da cidade de São Paulo, ideia do secretário de transporte Jilmar Tatto e do prefeito Fernando Haddad.

No caso dos ônibus, usam a mesma lógica de Alckmin. “Tem muita linha que anda vazia, vamos tirar elas de circulação e colocar todo mundo dentro do mesmo carro”, tanto é que eles já avisaram que vão diminuir a frota com essa nova licitação. A ideia, no final das contas, é a mesma. Tentar fazer menos com mais, mesmo que a população, que é quem de fato usa esses serviços e entende, por conhecimento empírico, muito mais que os tais acadêmicos e especialistas, seja contra. Em uma entrevista para mim, a coordenadora da SPTrans, Ana Odila, disse algo como ônibus não é para andar vazio e que acabou essa história de você ir sentado da sua casa até o trabalho. Se eu fosse conversar com Herman, provavelmente ouviria que “escola não é para ter menos de 40 alunos por sala”. E bem, já é assim há muito tempo.

Protestos reorganização das escolas 2015

Eu estudei em escola pública durante toda a minha vida e a maioria dos meus amigos também. Quando estive lá. haviam 42 alunos na minha sala, apesar de termos várias salas fechadas, sem explicação alguma. As dos meus amigos, nunca tiveram menos de 40 também. E aí você pode chegar neste momento e me perguntar “ok, mas e quem não vai sofrer reorganização e está ocupando a escola?”. Bom, eles estão pedindo melhores condições do ensino, o que é justo. Na escola em que estudei, enfrentamos muitas dificuldades. Durante os primeiros meses no meu primeiro colegial, não tive aula de física, pois o professor quebrou o braço e ele já era idoso (e eu já tinha ficado 1 ano e meio sem matemática no ensino fundamental, logo na sétima e na oitava série). No segundo ano, uma licença tirou nossa professora de matemática e promoveu uma troca frenética de professores, com inúmeras aulas vagas no meio deste processo.

No lado da infraestrutura, a coisa era pior. Eu nunca vi em três anos lá dentro um rolo de papel higiênico no banheiro. Não havia nenhuma porta no banheiro masculino. O pátio principal era tomado por pombos e o que acontecia era que na maior parte do tempo, os bancos eram todos cheios de merda. As mesas eram todas sujas e em uma sala com 42 cadeiras, não era difícil ver que no mínimo dez estavam trincadas ou bambas. Recebíamos todo ano uma porção de livros velhos, usados por outros alunos nos anos anteriores, mesmo quando existia uma infinidade de materias novos. Quando a gente ganhava um livro que nunca foi usado, porque não havia mais espaço para colocar nome no velho, ficávamos felizes, nos sentíamos importantes. A biblioteca nunca abria. Eu fui lá cerca de três vezes e encontrei coisas do Bukowski, do John Fante, do Dostoieviski e os três volumes do O Capital, do Marx, mas não havia funcionário e ninguém nunca ligou. Vez ou outra a inspetora abria pra você, mas dependia muito da boa vontade dela. 90% dos alunos não sabiam que nós tínhamos uma biblioteca. Existia um laboratório de informática também. Quando ele era velho e usava um monte de computadores com Windwos 98, íamos lá às vezes com o professor de geografia e teve um dia que inclusive rolou treta, porque ele não podia usar o laboratório, algo do tipo, mas quando trocaram os computadores nós nunca íamos lá. Com os equipamentos novos, o laboratório abria de tarde apenas e não era qualquer um que podia entrar lá. Nossos professores nunca conseguiram nos levar. Reza a lenda que tinha um laboratório de química também, mas nunca vi. Era uma porta fechada, que ninguém sabia ao certo o que tinha lá dentro, mas meus amigos disseram que no primeiro dia de aula visitaram. Depois disso, nunca mais. As aulas de educação física nunca foram a minha praia, mas vez ou outra eu jogava um vôlei com uma bola totalmente fodida e uma rede rasgada. Achávamos que este era o material disponível, mas certo dia, um amigo meu entrou no quartinho em que os professores guardavam as coisas e viu rede nova, bola nova e um monte de artigos esportivos lacrados que nós nunca usamos.

Protestos reorganização das escolas 2015

Isso me fez crescer com a sensação de que eu era a pior pessoa para a sociedade, que eu não merecia papel higiênico, privada, o mínimo de higiene possível, acesso ao computador, livros bem conservados ou sequer uma bola nova, porque provavelmente tenho um instinto animal muito aguçado e destruiria tudo se me dessem algo bom ou novo. Você passa anos lá dentro sendo tratado como uma pessoa que não merece nada, que não pode ter algo porque vai quebrá-lo, que não cuida de nada. Provavelmente por isso muitos amigos meus foram pro crime e muitos conhecidos nem aqui estão mais.

E aí eu lembro da lógica do ônibus, de sempre ter carro velho na periferia, muitos vencidos (os veículos em São Paulo tem validade máxima de 10 anos), com baratas, bancos quebrados e completamente sujos. De no centro expandido ou linha que passa perto dele ter ar condicionado, wi-fi e busão sempre limpo. Me vem a mente também a licitação, o fazer mais com menos no transporte público, a lógica do Alckmin de fechar escolas para melhorar a educação, de superlotar mais ainda as salas de aula, de continuar entregando escolas em condições iguais ou piores que a que estudei durante minha adolescência. Leio as notícias e vejo um monte de aluno sendo criminalizado por lutar contra isso. Por querer ter estudo, papel higiênico, livro novo, bola, quadra com trave, carteiras limpas, mais professores e uma maior atenção na sala de aula, por querer se sentir inserido numa sociedade e não ser um peso para ela.

No final das contas, o ônibus e a escola são diferentes, mas se as novas propostas forem implantadas, a lógica para o funcionamento delas será a mesma: menos carros, mais superlotação, menor qualidade de vida para o pobre; menos salas, mais superlotação e uma pior qualidade do já péssimo ensino no estado. O governo disse estar em guerra com os estudantes, que vai até o fim para desestabilizar o movimento. E isso me lembrou de 2013, dos protetos contra o aumento na tarifa de ônibus em São Paulo, do prefeito e do governador na França e a polícia militar arrebentando todo mundo (inclusive eu). Os jovens que estão ocupando as escolas no estado cresceram vendo aquilo, uma vitória popular nas ruas e não é a toa que hoje, a Primavera Estudantil arde por todo o estado.



[caption id="attachment_27662" align="aligncenter" width="695"]estudantes fecham a marginal Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Fotocoletivo (retirada do site da VICE Brasil)[/caption]



*Todas as fotos, com excessão da última, feita por Jardiel Carvalho do R.U.A. Fotocoletivo e retirada do site da VICE Brasil, foram pegas na página "Não Fechem Minha Escola".

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