Fiz um faixa a faixa do meu próprio disco, "Dilúvio"

por - 12:18

Sentidor

Quem acompanha o Altnewspaper há mais tempo pode já ter visto alguma das minhas colaborações pro site. Apesar de pensar em me dedicar profissionalmente no futuro a esse caos-quebradeira que é o jornalismo, desde muito tempo eu sinto que sou um pouco mais envolvido com produção de música. Mesmo aqui no site, além das eventuais divagações sobe o cotidiano, eu sempre preferi as entrevistas musicais, divulgação de outros sons, e é claro, as maravilhosas listas de fim de ano. Cada vez que escrevia sobre uma banda nova me sentia muito orgulhoso e acabava pensando em como seria massa se um dia os meus sons pudessem estar aqui. E aqui estamos hoje, senhoras e senhores!

Mas como as coisas nunca acontecem de acordo com o planejado (o que pode ser uma droga, mas nesse caso é uma coisa bem divertida) o nosso querido site me propôs uma ideia um pouco diferente: escrever uma matéria sobre o meu próprio disco! Pra não soar mais egocêntrico do que já deve soar, optei por não fazer uma entrevista comigo mesmo – eu sei que escreveria um monte de perguntas que eu mesmo não saberia como responder -, então vocês acompanham, a seguir, uma espécie de faixa-a-faixa do Dilúvio, o disco novo do meu projeto Sentidor, que pode ser ouvido e baixado no Soundcloud e no Bandcamp. Eu quero, primeiramente, agradecer ao Paulo e ao Diego do Hominis, que sempre foram super solícitos comigo desde que começamos a trabalhar juntos, e que além do apoio no quesito jornalismo, sempre foram super abertos ao meu trampo e agora, com esse filhote musical que acabou de nascer. Espero que todos gostem do disco!


"Anima_Animus"


Foi quase que completamente construída a partir de samples. Ela foi uma das primeiras faixas do disco que surgiu dentro do conceito dele. Escrevi ela depois de umas noites muito agitadas em que, resultado de uma série longa de dias meditando e umas sessões particularmente pesadas de terapia, eu comecei a ter a sensação explícita de que estava ouvindo vozes na minha cabeça. Foi um momento marcante pra caramba, e é claro que eu pensei inicialmente que tava só ficando completamente maluco. Mas curiosamente, eu comecei a ler, poucos dias depois, uns livros de psicanálise jungiana, e esses livros trouxeram um monte de coisa importante pra minha vida, mas principalmente pra esse disco. Jung trata a espiritualidade e esse tipo de experiência transcendental de um jeito que me pareceu muito confortável e me permitiu lidar com essas experiências sem me assustar muito. "Anima_Animus" inclusive vem de uns conceitos dele – e vale ressaltar que o trabalho dele não é só coisa linda, tem uma série de conceitos bem machistas e desagradáveis, claro que relacionados com uma vivência social de outra época muito diferente da nossa – mas resumindo, as vozes todas dessa música, os samples acelerados e meio mântricos foram a tentativa de fazer uma representação sensorial mesmo de como eu me sentia em transe nesses dias.


"Cosmoleve"


Como eu cheguei a comentar quando lancei o single, é em boa parte baseada no coletivo de música que eu ajudei a criar. Eu pirava muito no som de todos os meninos que tocavam comigo, e eu me lembro que sempre tinha a sensação de não estar à altura deles. Era uma coisa engraçada de insegurança. Essa música nasceu no sentido de fazer uma homenagem ao som deles – principalmente o Tomodachi do Luís Israel e o Cloud Whale do Filipe Filgueiras foram MUITO importantes pro avanço do Sentidor, musicalmente falando. Me lembro que demorei uns dois dias pra compor toda a parte de bateria eletrônica dela, que acho que dá pra perceber que é uma coisa muito complexa e orgânica. Eu sempre procurei por essa sensação de quando você ouve uma bateria eletrônica que parece um organismo vivo, sabe? Os sons não são tão quadrados e tem umas texturas profundas e meio “aguadas”, você sente que a musica tá viva, ao mesmo tempo que identifica a pegada eletrônica. Eu me lembro de ouvir o Thom Yorke comentando sobre isso, sobre essa busca pelo equilíbrio perfeito entre máquina e organismo. E por último, os samples de uma reunião de amigos que eu usei ao longo da música. Esse disco é todo um pouco sobre saudade, memória e falta. Principalmente nessa época eu sentia muita saudade das pessoas que tinham saído da minha vida, pelos mais variados motivos. Então acho que essa música – e as outras também – guardam essa coisa de nostalgia melancólica, de lembrar de outros tempo e tal.


"Dilúvio"


É a faixa-título porque foi feita baseada numa das principais experiências espirituais que deu origem a esse álbum. Ela foi feita depois de um sonho que eu tive. Eu sonhei que estava numa ilha e que de repente, o mar estava se levantando e engolindo a ilha toda. Tinha uma aura meio profética nessa imagem, e ela ficou gravada na minha cabeça durante muito tempo. Foi um sonho lúcido, provavelmente resultado da época em que eu estudava e praticava técnicas sobre lucid dreaming e tal, e eu me lembro como se fosse hoje da sensação de horror que eu tinha enquanto enxergava aos poucos o mar me engolindo, ao mesmo tempo em que eu tinha noção de que era uma imagem muito bonita...meio ancestral, saca? As impressões desse sonho ficaram muito forte dentro de mim, e ele se revelou premonitório em vários outros momentos. Foi um sonho que disse muito sobre as coisas que vieram a acontecer na minha vida depois até os dias de hoje, inclusive o meu processo de depressão que rolou. De novo, é uma espécie de música-fotografia, uma representação direta e não verbal desses sentimentos todos.


"Gnosis"


O nome da faixa é outro termo que veio dos meus estudos/fuxicos sobre religião e psicologia. Os Gnósticos, pelo que eu li – peço perdão aos especialistas por qualquer bobagem dita – eram uma espécie de seita-cristã primitiva que lidava com a sabedoria e a experiência religiosa de um ponto de vista muito próximo. Eles desafiavam um pouco a noção de fé como “crença”, no sentido de ser algo isolado da experiência pessoal e individual e se aproximavam um pouco mais de uma religiosidade mais direta, sensorial. Gnosis seria essa “Luz do Conhecimento”, essa espécie de energia que poderia se comunicar diretamente com os seres humanos, sem nenhuma mediação. Foi na minha época de ler Jung e Philip K. Dick (o cara que escreveu Blade Runner, e que tem uma série de viagens muito interessantes sobre loucura, ficção científica e religião), e foram coisas que me deixaram uma impressão muito forte, ainda mais nesse período de experiências intensas. Essa música foi, de alguma forma como o resto do disco, uma forma de canalizar essa coisa toda que eu sentia e transformar isso numa experiência. As batidas são meio abstratas, e eu lembro de tentar não pensar muito durante o processo de composição dela e tentar deixar as coisas que eu tava sentindo fluírem mais livremente.


"Mantra do Caminho dos Sonhos"


Esse som é, pelo menos ao meu ver, literalmente um mantra. Eu já tinha trabalhado com esse tipo de composição antes, no Notícias do Nosso Mundo. Eu cheguei a comentar numa entrevista a pouco tempo atrás que as músicas religiosas e os mantras traziam essa questão da repetição de uma forma muito semelhante à música eletrônica. A própria música eletrônica cresceu de uma relação bem espiritual das pessoas com a Terra, naquele contexto das primeiras raves, e eu acho que sempre tinha vontade de trazer esses dois elementos juntos de novo. Criei então essa espécie de sample-mantra um pouco baseado de novo, nas minhas experiências com sonhos lúcidos. A música é bem pouco trabalhada, apesar de ter um monte de camadas. As melodias e os próprios samples são bem primários e eu acho que na verdade é isso que torna ela interessante.


"Porta"


Foi uma espécie de “sessão-jam” que veio junto com o “Mantra”. Eu acho que ela funciona como uma espécie de entrada pra segunda metade do disco, e eu acabei decidindo sobre ela somente nos últimos momentos. Ela tem essas baterias que são um misto desengonçado entre eletrônico e bateria acústica e que por mais que não pareça, foi intencional. O Sentidor sempre existiu pra ser um trabalho solo, dessa onda de banda de uma pessoa só, então eu quis preservar essa característica de música “programada”, mesmo que tivesse afim que soasse mais acústico. É o momento em que o disco começa a se distanciar um pouco da eletrônica e a funcionar como música instrumental ou post-rock-jazz, seja lá o que isso for (risos).


"Olívia"


Essa é uma música muito interessante. Eu compus dela a partir de um poema que a Olívia, minha ex-namorada me mostrou na época, da Marccelie Vegah. Era um poema muito bonito sobre uma pessoa que tinha uma fortaleza de gelo dentro dela e que, eventualmente derrete. Eu fiquei muito impressionado pelo poema e fui atrás da Marccelie pra pedir autorização dela pra usar o poema na música. Pra minha sorte, ela ficou feliz e autorizou o uso, e aí a partir daí eu fui desenvolvendo a música. É uma música longa porque ela acompanha o poema quase que inteiro, e ela evolui junto com ele até o momento em que entra a bateria e as guitarras – a parte que eu acho mais bonita e que eu encaro como uma homenagem ao Constantina – não sei, pra mim nessa música fica muito clara a influência do som deles (risos)!


"Música das Estrelas"


"Música das Estrelas" é uma das minhas favoritas. A primeira metade dela é uma pequena e simples peça de teclados e marimba e foi toda inspirada na sensação de estar olhando o céu. Por uns tempos pensei em usar ela como trilha sonora num trabalho que ia acontecer sobre a importância do céu na vida das pessoas, mas acabei decidindo utilizar ela no álbum. Ela tem de novo essa questão da repetição, que é derivada um pouco da ideia de arquétipo, desses símbolos que se repetem e se atualizam simultaneamente ao longo da história. Acho que ela se divide claramente entre dois momentos, como dois atos de uma peça ou coisa do tipo. As influências que me vem à cabeça são um misto de Uakti, Toe e Telefon Tel Aviv. Quando o som começa a ficar pesado, eu deixei o áudio distorcer e clipar completamente, e eu sinto que ela tem uma pegada de musica pesada que eu nunca conseguia trazer muito bem pra musica eletrônica. A maioria da música eletrônica que eu já conheci tem esse problema de ser sempre limpa, mesmo na hora dos glitches ou dos drops, tudo soa muito cristalino. Essa segunda metade da música funciona como um fantasma da máquina mesmo, uma tentativa de fazer um som pesado que contrapusesse a primeira metade quase cristalina dela.


"Valsa do Tempo Fantasma"


Eu acho essa uma música muito importante porque ela fica no limite entre o Dilúvio e os sons que eu comecei a escrever depois dele. Eu tenho me aproximado cada vez mais da musica “clássica” (será que a gente pode chamar assim?) e esse trabalho é uma intenção de fazer musica clássica contemporânea. Eu sei que o termo não faz muito sentido (risos). A questão é que foi provavelmente com essa música que eu comecei a testar uma coisa que vai se tornar mais presente nos trabalhos posteriores ao Dilúvio. "Valsa do Tempo Fantasma" tem esse nome porque ela não é marcada por tempo algum, no sentido de BPM. Eu compus e gravei ela por improviso, e eu acho muito interessante perceber como ela vai desenvolvendo um tempo próprio. Os instrumentos soam todos meio dessincronizados e aos poucos eles vão se equilibrando, mas mesmo esse equilíbrio é um processo muito diferente do que acontece quando você segue um metrônomo. Desde pequeno eu sempre me senti muito incomodado em tocar com tempos muito marcados. Fica a sensação de que você tá deixando a música presa e ao mesmo tempo, eu percebia que a marcação de tempo não era algo que você podia simplesmente ignorar. Quando isso acontecia, a musica soava só mal feita mesmo. Essa é a primeira vez que eu sinto que consegui fazer uma música sem tempo e que não soe desleixada. Eu sinto que o Tempo Fantasma é a metáfora perfeita. Ela flutua entre momentos quase não discerníveis de ordem e caos nesse aspecto, e eu acho que é esse o charme dela. É uma música também sobre morte e tempo.


"Os Alquimistas"


Sinto que esse som uma espécie de faixa título também. Ela e "Dilúvio" são as duas músicas que mais representam o conceito desse álbum. Na onda de ler Jung, eu comecei a me interessar pelas extensas pesquisas que ele fazia sobre alquimia. Ele acreditava que toda a questão da alquimia com os elementos e a transmutação e a pedra filosofal, eram uma metáfora muito bem elaborada para os processos de transformação que acontecem com a psique humana. Essa ideia me bateu muito forte, e esses conceitos de transformação, e principalmente dessa universalidade quase espiritual e dessa capacidade de transmutação quase infinita de todas as coisas, eu sempre achei isso muito bonito. E não só achei muito bonito, mas sinto que relacionei muito com o processo de composição de música eletrônica. Essa capacidade de criar algo completamente novo de samples que já existiam antes é algo básico pra cultura e pra música da nossa época, e que teve na base desse disco. Algo curioso e que eu acho que não comentei anteriormente, é o fato de que todas as músicas desse disco estão, em alguma medida, dentro umas das outras. Eu usei samples externos, claro, mas também usei trechos das próprias músicas dentro delas. A ideia era criar o conceito de algo fluído, um disco que viajava dentro dele próprio e que fosse a imagem dessa sensação de espiritualidade e transcendência que foi basicamente o que eu vivi nesse disco e nessa época. Por fim, a música desemboca nessa melodia triste que dói meu coração até hoje quando eu escuto. Pra mim, essas notas são a definição mais precisa que eu encontrei da sensação de melancolia. A música acaba com um trecho em off de uma entrevista do Jung em que ele fala sobre como as pessoas dedicam a sua existência inteira a algumas coisas, e conta o caso de uma cliente que tinha muitas dificuldades em avançar e superar algumas ilusões e questões psicológicas. Acho que talvez seja a parte mais depressiva do disco, mas é uma assinatura de como eu me sentia nessa época, e é uma assinatura necessária, uma lembrança necessária pra que eu também me lembre tudo que esse disco representou e tudo que ele me ajudou a superar.

Sentidor - Dilúvio

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