Jair Naves fala sobre "Trovões a Me Atingir", "Atirado ao Mar" e oLudovic

por - 13:48

[caption id="attachment_27755" align="aligncenter" width="695"]Jair Naves Jair Naves por Jaime Silveira[/caption]
Jair Naves dispensa apresentações. Ludovic, uma carreira solo com três álbuns, um single e dois EPs. Por sinal, dois desses lançamentos, foram colocados nas ruas em 2015, Trovões a Me Atingir e Atirado ao Mar, o primeiro, presente em diversas listas de melhores do ano.

Apesar de ser conhecido pelas letras extremamente fortes e colocadas por alguns como "depressivas", neste ano o músico resolveu fazer diferente. Trovões a Me Atingir é um álbum muito mais leve que os anteriores, repleto de participações. É sobre amor, mas no sentido mais amplo da palavra, sabe? Não só o relacionamento, mas todas as outras fitas que vêm com ele. Atirado Ao Mar segue a mesma onda. E falando sobre esse sentimento, lembremos de sua antiga banda. Vocês estão mais que ligados que este ano foi marcado por shows de reunião de umas das mais intensas bandas de rock que esse Brasil já teve.

Aproveitando este fim de ano, trocamos uma ideia com o Jair pra saber um pouco mais sobre os dois discos lançados esse ano, o futuro do Ludovic e o que esperar do músico em 2016.


Você falou em entrevistas que o Trovões a Me Atingir é um disco sobre amor, transformações e etc. Eu vejo aqui o amor num sentido muito amplo, não apenas em relacionamento. É isso mesmo?

Sim, certamente. Embora também aborde o amor nas relações interpessoais, o sentimento se manifesta também como um instinto de sobrevivência, o que não nos deixa desistir da vida apesar de todas as inúmeras dificuldades do cotidiano e do sistema social em que estamos incluídos. O apego aos princípios do que é certo e errado, enfim, na minha cabeça acaba sendo um conceito bem amplo, que não consigo traduzir muito bem em palavras, mas é meio por esse caminho que você apontou.

Disse isso porque consigo notar algumas coisas que talvez só o amor consiga despertar, caso da relação de ódio e desapontamento com São Paulo na faixa “Em Concreto”.

Não definiria exatamente dessa forma. Eu amo São Paulo e dificilmente viveria em outro lugar do país atualmente. Acho que retornamos um pouco à questão anterior, de crítica ao modelo de vida que é imposto como o certo. A sociedade brasileira é cheia de falhas, completamente baseada na cultura de privilégios, numa herança pós-escravista, enfim, nem consigo começar a explicar o quão errada me parece a coisa toda, e São Paulo, por ser a maior cidade do país, acaba refletindo isso de um jeito muito pesado para seus habitantes. Ainda assim, mesmo que vez ou outra eu me veja descrente, totalmente cético no que diz respeito ao futuro, essa indignação em si já demonstra alguma esperança de melhora. Então acaba indo pra esse lado que você tá ressaltando, eu imagino.



[caption id="attachment_27756" align="aligncenter" width="695"]Jair Naves Jair Naves por Jaime Silveira[/caption]
Eu comecei a escutar o Trovões a Me Atingir e criei uma teoria. Depois de ‘planejar a fuga e conseguir cavar o chão com as próprias unhas’, parece que o eu-lírico das suas canções está fora do cárcere, sabe? Está enxergando as coisas do mundo, algumas pela primeira vez, como em “B.” "Tudo tem um porquê / Tudo tem um porquê / Mas você já sofreu demais / Já sofreu demais".

(risos) Interessante. Desenvolve essa ideia, não sei se entendi direito.

O álbum anterior é sobre esperança, sobre alguém estar preso e fazer de tudo para sair daquela situação. A faixa "B.", tem um trecho interessante "você já sofreu demais" e "tudo tem um porquê", meio que numa justificativa daquele tempo "preso". Eu enxergo o Trovões como um disco de alguém que está tendo contato com muitas coisas pela primeira vez, como o amor, no sentido mais amplo da palavra, como falamos ali em cima.

Não, não. Faz sentido. É sem dúvida um disco com outra perspectiva sobre a vida, menos fatalista e urgente, mais reflexiva. Detesto usar a palavra "maturidade" para esse tipo de coisa, mas não acho que seria de todo equivocada nesse aspecto, pelo menos.

Você soltou um texto com o disco, de um artista que fala que desenhava apenas trovões quando era criança. Qual a relação dele com o título do álbum?

Nenhuma, só exemplificava o tipo de imagem que eu tentei transmitir com o título. Raios, trovões e relâmpagos são sempre metáforas tão fortes, causam tamanho fascínio e medo nas pessoas. É algo em que eu sempre pensei.

A parte instrumental do disco mudou bastante. Está mais rica. Pelo o que li em algumas entrevistas que você deu, esse foi o álbum da sua carreira em que o processo de composição foi o mais coletivo, queria saber porquê dessa escolha.

Foi uma consequência da relação que eu desenvolvi com os músicos que me acompanham durante a turnê de divulgação do disco anterior. Ficamos muito próximos e criamos uma linguagem própria, que eu queria muito que estivesse refletida nesse último álbum. Além disso, teve a questão dos músicos convidados, que também imprimiram suas características nos arranjos. Creio que foi uma vontade que eu tive de fugir do meu primeiro disco, que foi uma coisa bem mais solitária, desenvolvida ao longo dos meus primeiros anos como "artista solo".

Então, você falou sobre os músicos convidados, acho que isso é inédito né? Na sua carreira. Foi também pra tirar essa coisa solitária?

No Araguari teve a participação de algumas pessoas também, mas acho que na época eu realmente tava recomeçando do zero e precisava de uma coisa que fosse só minha, contando com o apoio de alguns amigos apenas para os instrumentos que eu não sei tocar. Dessa vez, a ideia era ter um resultado mais grandioso, trabalhado, coisa do tipo. Era a necessidade que eu sentia pra esse disco e foi bom ter feito, foi um experimento interessante.



[caption id="attachment_27757" align="aligncenter" width="695"]Jair Naves Jair Naves por Jaime Silveira[/caption]
O título do disco é forte, Trovões a Me Atingir, e tem a faixa "5/4 (Trovões Vem Me Atingir)". Queria entender esse lance do trovão no disco.

Basicamente é uma metáfora sobre transformação, sobre ser fortemente atingido por algo, seja amor, um acontecimento traumático, uma perda, enfim. O título sugere uma sucessão desses eventos. E nele tem um erro proposital, já que "trovão" é apenas o estrondo e não a descarga elétrica em si, mas eu realmente gosto da ideia de você ser atingido pelo som, pelas palavras, pela música, e não pelo raio ou coisa do tipo. Me parece uma imagem bem mais interessante, embora no fundo nem faça muito sentido numa primeira leitura. Para um disco cuja realização foi tão criteriosa, com tudo sendo pensado nos mínimos detalhes, gosto que tenha essa confusão justamente no título.

O álbum foi financiado pelo próprio público. O que isso influenciou na composição das músicas, tanto as letras quanto no instrumental, o clima e etc?

Realmente difícil dizer. Creio que teve alguma influência no perfeccionismo e na tensão que rondou a produção esse disco, mas não no material em si.

Eu vejo uma conexão, talvez pela expressão “O vulto feminino vem sobre mim”, na faixa “Prece Atendida”, com “De Branquidão Hospitalar”, do Araguari. Existe isso mesmo?

Putz, nunca pensei sobre isso. Mas é capaz sim. São duas músicas sobre alguém que se vê inesperadamente encantado por alguém e que não se reconhece nas mudanças que isso provoca.

O que você enxerga que mudou na música independente de 2012, com o lançamento de E Você Se Sente... pra hoje?

Não dá para analisar a produção cultural e o cenário independente fora de contexto com o restante do país. No Brasil como um todo, as coisas mudaram consideravelmente de 2012 para cá. Creio que todo mundo que lida com cultura está sentindo imensamente os efeitos da crise econômica. Os shows são mais escassos, as oportunidades mais raras, enfim... isso faz diferença.

A crise bateu até na música?

Claro. Acho que a cultura em geral é uma das primeiras áreas atingidas num momento como esse, por ser visto como algo supérfluo e secundário. Seja como for, colocando esse aspecto de lado, se é que isso é possível, é um período curto de tempo entre o lançamento daquele disco e agora. Alguns lugares fecharam, outros abriram, mas o quadro geral não teve tantas alterações.

E como sobreviver durante a crise? Eu lembro que em 2010, na época do Araguari, você dizia que o CD era algo para apresentar seu som pro público e o que dava retorno agora era show.

Quem dera eu tivesse essa resposta (risos). Estamos todos atrás de uma solução para essa questão, eu suponho. A tendência cada vez mais é essa.

E esse monte de plataforma de streaming? Você acha que elas ajudam o artista de alguma forma? Financeiramente falando.

Ajudam, sem dúvida, mas ainda é algo mais simbólico do que qualquer coisa. Continuo tendo a certeza de que a maior fonte de renda consiste das apresentações ao vivo.



[caption id="attachment_27758" align="aligncenter" width="695"]Jair Naves Jair Naves por Jaime Silveira[/caption]
Qual é a sensação de lançar o trabalho mais otimista da sua carreira (risos)?

(risos) Não sei dizer nem sequer se esse é o mais otimista. Eu dizia a mesma coisa sobre o disco anterior, então acho que tem mais a ver com uma visão mais vivida e menos impressionável do mundo do que exatamente otimismo. Pela reação que eu percebo das pessoas, acho que "otimista" seria uma palavra meio forte. Mas eu entendo o que você está dizendo, de fato tem um caráter um pouco mais reconfortante do que os títulos anteriores.

O Ludovic falava muito sobre amor só que de uma forma diferente. Você acha que o processo de amadurecimento da vida transformou a maneira como você trata esse sentimento?

Sem dúvidas. O amadurecimento muda sua perspectiva sobre praticamente tudo. É realmente muito difícil comparar as coisas que eu escrevia com 18 ou 19 anos com as coisas que eu escrevo hoje. Em alguns aspectos, são duas pessoas diferentes.

Falando em Ludovic, 2015 foi um ano bem importante para os fãs da banda, vocês resolveram fazer uma série de shows. Qual foi a sensação de tocar aquelas músicas?

Foi boa, na verdade creio que nunca tocamos aquele material tão bem quanto nesses shows de reunião. Mais do que qualquer coisa, a reação das pessoas superou completamente as expectativas, em todos os sentidos. Como desde o fim da banda tínhamos a sensação de que o Ludovic era algo mal resolvido, inacabado, esses shows serviram para fazer com que nos sentíssemos redimidos com a nossa própria história. Valeu a pena.

Depois dessa temporada de shows, vocês pensam em continuar em 2016? E lançar novas músicas?

Ainda não temos muita ideia do que faremos daqui por diante. Temos nossas prioridades, a vida é diferente para todo mundo agora, mas as possibilidades estão todas abertas.

Recentemente você lançou Atirado ao Mar, com quatro músicas que ficaram fora do disco, por que fazer isso já no fim do ano?

Ótima pergunta (risos). Minha ideia era distanciar o máximo possível esse lançamento de Trovões a Me Atingir, que saiu no começo do ano. Embora tenham sido registrados nas mesmas sessões, na minha cabeça sempre foram títulos diferentes, com identidades próprias. Como eu queria que os dois saíssem ainda em 2015, a solução foi lançar um no começo do ano e outro no fim.

Em um trecho de “Gélido, Invernal”, eu lembrei de "Qorpo-Santo de Saias", “As chances que eu perdi / por autossabotagem se acumulam na minha consciência / É irreparável, é tarde” e o lance de você não saber se foi algoz ou vítima, do pior fiasco de que se tem notícias. Essa referência existe? Se sim, o quão pessoal é este EP?

Não pensei nessa conexão - confesso que até agora não consigo enxergar direito, mas essa é a graça da coisa, cada um faz a sua própria leitura. E o EP não tem um tema específico, apesar de duas das quatro canções falarem bastante sobre culpa, que é um sentimento dos mais devastadores e que eu vejo como consequência da época e do contexto social em que vivemos.

O ano já acabou, praticamente. O que o público pode esperar do Jair Naves em 2016?

Seguiremos com os shows de divulgação dos lançamentos desse ano, já temos algumas datas agendadas. E começaremos a pensar em novos trabalhos, já tenho algumas ideias, mas ainda é muito cedo para falar qualquer coisa a respeito.

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