Mente Vazia Num Ônibus Lotado: A juventude é demais

por - 12:09

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Domingos são maravilhosos se você anda de transporte público. Você sai de casa cabisbaixo sabendo que um trajeto simples, que deveria demorar 10 ou 15 minutos será feito em quase uma hora. Ir andando quase sempre compensa mais, pelo menos aqui onde moro. Mas não tem prefeito que tire a empolgação de dar uma bela volta neste dia. Sei lá, tem uns 4 anos que eu parei de fazer aquele ritual de passar a tarde toda reclamando porque no próximo dia tem que trabalhar. Acredito que o Paulo da adolescência estaria orgulhoso em ver quem eu me tornei hoje, vencendo alguns clichês da sociedade e dessa máquina alinenante chamada capitalismo. Entretanto, esse texto não é sobre emprego, é a respeito de transporte público e como ele é genial para mim aos domingos.

A minha namorada mora bem distante de mim. Coisa de 20 e tantos quilômetros. Ela vive em um ótimo bairro dessa cidade cinza chamada São Paulo, já eu estou em um local esquisito, com altos índices de assalto na rua, ônibus que passam a cada 30 minutos em horário de pico e tudo o que os bairros depois das pontes te reservam. Apresentada a situação, aos domingos eu levo cerca de duas horas de ônibus para retornar à minha humilde residência. No trajeto são de três a quatro ônibus, naquela espera no meio da rua, pegando pão de queijo nos terminais e observando os pombos voando ao lado das comidas. O segundo ônibus é algo que eu sempre aguardo ansioamente no fatídico primeiro dia da semana. Por passar próximo a um famoso parque de São Paulo, ele é tomado por jovens e adolescentes voltando para suas casas e é aí que a coisa começa a ficar legal. Eu não sou velho, mas já passei dessa fase. Sou formado, a natureza já me deu alguns cabelos brancos e uma vontade imensa de observar o comportamento de pessoas mais novas que eu. Neste domingo em especial, muitas aventuras aconteceram no busão.

Eram cerca de oito e pouco da noite. Quando chegou no ponto do parque, o ônibus ficou uns cinco minutos parado e muita gente subiu, a maioria, jovens. Notei dois grupos grandes. Um da velha classe média, que logo foi indo para o fundo do busão e outro, no maior estilo "Vileiro", como diz o Flow MC, não passou das catracas. Daí em diante, não existia mais silêncio naquele local. Um dos moleques que estava no fundo do ônibus aparentemente queria ficar com uma menina que estava sentada no banco próximo ao cobrador e ao invés de ir lá e falar "Olá" para ela, gritou pedindo o Facebook. Ele adiconou e deu um berro "Vixx, tia, troca a foto do perfil. Osso!!". Todos que estavam com ele começaram a zoar a bendita foto de perfil da menina e eu pensando "ô seu filho de uma mãe, deixa de ser imbecil". Aí comecei a ver o quão importante é o celular e as redes sociais para este esteriótipo da juventude. Nenhum deles largou o aparelho e a maioria dos papos envolviam internet. Fiquei razoavelmente assustado, afinal de contas, em vários aspectos eu sou quase que a versão tropical do Mr. Robot. Depois desse episódio, minha atenção se virou para a frente, já que percebi que dessa galera, o máximo que eu conseguiria absorver era raiva.

Desodorante

No grupo da frente, um moleque estava em uma parte do ônibus próximo ao banco alto. Aqui em São Paulo esta região do buso não tem banco, mas se você tiver um pingo de skills, aquilo vira um lugar. Do nada, eu ouço alguém gritar "caralho, tio, que cheiro de cecê da porra". E aí pronto, todo mundo começou a rir que só o diabo ali na frente. Novamente, mais um berro "cê é louco, cachorreira, que fedor". Eis que alguns segundos depois, o ponto alto do meu dia começou. Aquele mesmo jovem sentado na parte alta do veículo se levantou, pegou um vidro de desodorante e espirrou dentro do buso aos gritos de "passa um desodorante ae, porra, toma, toma". Eu ri pra caralho. Pouco tempo depois, eu ouço mais uma gritaria, mas dessa vez alguém próximo do cobrador sacou uma garrafa de bebida alcóolica das boas. A euforia foi tanta que me lembrou a torcida do Corinthians com o gol do Vagner Love contra o Vasco recentemente. Por sinal, tadinho do Vasco.

Próximo a mim, algumas mulheres reclamavam da juventude. "Bando de mal criado, não respeita ninguém e não sei o quê". Aqui vale ressaltar como o ser humano é maravilhoso. As pessoas começam a falar mal de alguma coisa próximo a você apenas esperando um aceno positivo seu. Eu sempre fico quieto e frustro as tias. Em meio as carolas, comecei a pensar em como os jovens se apropriam dos espaços e fazem qualquer local uma extensão do quintal da casa deles. Eu era assim, meus amigos também. Quase ninguém hoje troca ideia dentro do buso pessoalmente. É celular ou fone. E não que isso seja melhor ou pior, mas deve ser por isso que quando alguém entra e se apropria daquilo, incomoda tanto alguns. E quando eu digo apropriação, pelo amor de Deus, eu não tô falando sobre o Haddad fechar a Paulista no domingo pra classe média passear.

Quando chegou a minha vez de descer, um dos jovens do fundo do ônibus estava sentado bem no degrau da porta. Logo que me viu, levantou. "Educação", pensei. Assim que saio do veículo, vejo dois jovens descendo pela frente, os mesmos que estavam na cena do desodorante, da gritaria e da bebida. Pouco tempo depois, um deles desce empurrando uma cadeira de roda, com um dos moleques nela. Os três vão rindo, reclamando "caralho, tiozão, cê não pagou a passagem, ó que fita, tomar no cu, não vou pagar a próxima não. Paga você", empurrando a cadeira de roda do truta até o corredor. Me lembrei de como na adolescência, ser amigo é uma das poucas responsabilidades que temos e de como isso era bom. As carolas, se vissem isso, provavelmente calariam a boca. Os dois moleques, que facilmente seriam estatística forjadas pela PM, indo na paz com o truta. Lembrei de Stand By Me e de como a amizade é algo importante neste mundo. O transporte público de domingo é um lixo, mas esse tipo de coisa não.

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