Os melhores discos de 2015 por Diego Albuquerque

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Foi um ano estranho pra música brasileira no geral. Acho que o embate político do ano passado e que continuou este ano (HASHTAG NÃO VAI TER GOLPE!) meio que ecoou alto demais e deixou a música meio alheia na parada. Com relação a produção, no nosso universo (leia-se hominiscanidae.org) foi um ano bom, mesmo que com menos discos que os demais. Talvez melhoramos em qualidade.

De uma maneira geral, quem dominou o ano musical foi a turma do Passo Torto, seja produzindo os próprios trabalhos, seja trabalhando em parceria ou resgatando nomes antigos da música brasileira como Elza Soares e Ná Ozzetti. Outra iniciativa foda foi a criação e o lançamento incessante do selo da Quinta Avant. Outrora uma festa da música mais torta e experimental carioca, hoje um expoente de divulgação e lançamentos da melhor qualidade, que você podem ver presentes em nossas mixtapes temáticas e listas. Além de diversos outros selos que foram criados em todos os picos do Brasil e só fortalecem o independente.

Eis aqui dez discos nacionais fodas que ouvi neste ano de 2015. Poderiam ter entrado tanto outros, mas eu só podia escolher dez e o Paulo também. O Brasil é enorme e a vida é feita de escolhas. A ordem é alfabética, não existe preferência. Ouça tudo sem moderação...


cidadão instigado - fortalezaCidadão Instigado - Fortaleza


A banda cearense Cidadão instigado, é uma das minhas bandas favoritas desde o Método Túfo de Experiências. Lembro de um texto relacionando eles com a Mars Volta, pelos nuances sonoros estranhos. De lá pra cá, a sonoridade está mais coesa, a qualidade das gravações e composições cada vez melhor. Fortaleza veio depois de um longo processo, com um hiato de seis anos entre ele e o Uhuuu!, e com mudanças na formação entre os próprios integrantes. O disco é o mais pesado do grupo, esqueça os tecladinhos dançantes e letras pra cima na praia. O lance aqui é resgatar as mazelas e a esperança de dias melhores para a cidade natal do grupo. “Mas a violência é teu caos/ E tanto tanto que eu senti / Agora mordo por você...mordo por você / E nem sou um lobo mau”. Lógico que o amor está lá, não apenas pela cidade, mas também pelas suas pessoas. Afinal “Olho no espelho e vejo as possibilidades pelo ar. Pois vejo besouros e borboletas, voando sem se esbarrar”. O futurismo também, ou os nuances e paranoias do mundo moderno, vide "Green Card "(sim, a banda voltou a cantar e compor em inglês) e ficção cientifica e o nosso mede de se encontrar ou ser reconhecido. Fortaleza para mim é o disco mais difícil da banda, pelo peso que ele carrega na sonoridade e em suas letras. Porém, também foi o melhor show que eu já vi do Cidadão Instigado. Uma banda que se reinventa o tempo todo, esperemos o próximo passo.


Futuro - Hábitos RuinsFuturo – Hábitos Ruins


O último disco que ouvi por inteiro e me impactou a ponto de me lembrar o meu eu antigo foi o Hábitos Ruins, da banda paulistana Futuro. Em 2013, postamos um EP deles no blog e naquela época achei o barulho bem bacana. Minha escola é o punk e o hardcore e por mais velho que esteja ficando, acho que sempre curtirei o som. Este novo disco foi lançado em vinil, tem uma capa foda, oito faixa e pouco mais de vinte minutos. Acredite quando eu digo que foi tempo bastante para passar a mensagem. Guitarras frenéticas, a vocal, Camila Leão, grita alto e forte mandando a real sobre o preconceito, o sexismo, entre outros hábitos ruins que ainda vivemos no país. A sonoridade é punk rock (com um pezinho no post-punk), é hardcore, mas bebe em muitas outras sonoridades sujas. Destaques para “Velho”, “Mistério” e “History”. Fechando o disco, ainda rola uma versão foda da canção “Dia Eterno”, do Violetas de Outono. O bagulho é bruto, vá com cuidado!


gabriel araújo - presenteGabriel Araújo – Presente


Aqui entra o caráter pessoal, mesmo que seja um disco com bastante qualidade, é também um disco difícil de se ouvir. É um disco pessoal também para o Gabriel, que convidou sua irmã para cantar em uma das faixas. Sim, neste disco temos presença de vocais cantados, diferente dos trabalhos anteriores do músico que vive em João Pessoa. O esmero do trabalho de violões/linos e a procura dos melhores timbres para os instrumentos de percussão da nuances de eternidade ao trabalho. Trata-se de um mantra com letras e também em sua sonoridade. A primeira faixa dá o tom do que está por vir: “Canta que o teu canto é pouco/ Canta, mas não canta muito. Canta mas canta sereno, mas canta pequeno, que eu não posso nunca evitar”. A ideia aqui é você entrar no universo do músico, que apresenta uma sonoridade complexa e alguns loops que te levarão ao longo das outras quatro faixas do disco. Composições longas, feitas com esmero e que te levam para o passado cancioneiro e que provavelmente soarão atemporal ao longo dos anos futuros.


mahmed sobre a vida em comunidadeMahmed - Sobre a Vida em Comunidade


Este foi um ano diferente pra música instrumental no meu modo de ver. Tanto que, vendo a lista, diversos discos instrumentais aparecem, mas nada do tal do post-rock. Talvez o representante do estilo seja este. Sobre a Vida em Comunidade é o primeiro disco cheio do quarteto potiguar Mahmed. Inicialmente o trabalho apresentava nove faixas, mas apareceu uma extra agora no segundo semestre. Espero que o disco saia em vinil no próximo ano. Digo isso não como cobrança, mas sim por que a qualidade sonora do trabalho, além da bela capa feita pelo Flávio Grão, merece ser lançado em tal formato. O disco é bastante linear em sonoridade e qualidade, consigo sentir uma brisa em meio ao caos sonoros fugazeiros de alguns momentos. As faixas favoritas da casa são “Ian Trip”, “Shuva” e a calmaria louca do “Vale das rrRosas”. Porém, o disco todo é um pesadíssimo, pedras rolam o tempo todo, por isso aconselho ouvir com capacetes.


mangô galapagosMângo- Galápagos


Aqui é som dos trópicos amigo! É como se a Jamaica é todo seu calor tivesse invadido Santo André, cidade do ABC paulista. Galápagos é o primeiro disco cheio do grupo, se na ilha Darwin catalogou uma diversidade de bichos e correlacionou com o processo evolutivo, podemos dizer o mesmo do som do grupo. Do primeiro EP demo, lançado em 2013 pra cá, o som apenas melhorou e cresceu. A demo já foi legal o bastante para me animar naquele ano. Agora, o som passa do ska para o reggae, misturado com dub e afrobeat, tudo naquela linhas instrumental dançante e animada. Lógico que existem momentos de cadência e calmaria, mas a ideia aqui é botar todo mundo pra dançar através dos timbres e suas sonoridades. Como dito pelo grupo em seu site, existem sons praticamente extintos neste trabalho. O trabalho tem sete faixas, com nomes que seguem o conceito e a sonoridade do disco. “El Topo” é minha música favorita do trabalho, minha mulher e meu filho curtiram bastante “King Makoon”, mas é só pedrada o disco todo.


Negro Leo - Niños HeroesNegro Leo - Niños Heroes


Eis um dos discos mais legais lançados pelo selo do Quintavant neste ano. Aquela galera pirada que frequenta a Áudio Rebel no Rio de Janeiro e não curtem ir pra praia (como não?). Letras irônicas desde o princípio, sonoridade quebrada a maior parte do tempo. Como “A Grécia falhou com os desajustados”, a religião, o governo, o prefeito, a religião, todo mundo errou! Ao ouvir o barulho, pode parecer que eles estão apenas afinando os instrumentos, mas a intenção é essa mesmo (ouça “Sanduiche Refrigerado”). Ao longo dos poucos mais de quarenta e dois minutos do trabalho, divididos em 22 faixas, Negro Leo e banda formada por nomes da cena carioca experimental como Eduardo Manso, Thomas Harres e Felipe Zenícola mandam o papo reto, seja em suas letras e vocais ou na busca pelos timbres mais estranhos possíveis. Além da faixa já citada, outras favoritas são “Hey Steven”, “Centena de vezes um corpo” e o hino “Turismo sexual no Mandela”. Mas aconselhamos o ouvir o disco de cabo a rabo quantas vezes for possível pra tentar entender a doideira. Queria muito ver como funciona este disco ao vivo!


Pio Lobato - Pio LobatoPio Lobato - Pio Lobato


Em algum momento deste ano, lembro que no segundo semestre, recebemos um e-mail do Pio Lobato no hominis. Meu primeiro pensamento foi: “Que foda, a equipe ou o Pio nos mandaram um e-mail, onde chegamos?”, o segundo foi: “Devem estar pedindo pra tirar algo que postamos do ar” (preferimos pedir desculpa, não autorização). Pelo contrário, tratava-se de um e-mail, com um texto até bem pessoal, anunciando o quinto trabalho solo dele para que passássemos pra geral. Fiquei bastante feliz, pois Pio Lobato foi uma das pessoas que me fez querer estudar música. Sabe as origens da sonoridade, as influências e misturas e o que isto influência em cada uma das regiões de onde vem aquele som. Esta viagem antropológica está presente no novo disco do Pio. Lembro que li em algum lugar que, para o Pio Lobato o que importa é o som. Talvez por isso a capa seja tão simples, o nome do disco “Pio Lobato” branco com o fundo azul. São 15 faixas instrumentais, com nomes característicos ao humor do músico, vide “Lambada de Mentiroso”. É som do norte, é som da américa central ou do sul chegando quase lá. É guitarrada, é calipso, é experimentação, é brega, tecno do Pará, é surf music e inclusive rock. É pra dançar, é contemporâneo, é bem feito e por isso não saiu do player ao longo do ano.


rodrigo campos - conversas com toshiroRodrigo Campos - Conversas com Toshiro


Terceiro trabalho solo do Rodrigo, mais um da crew do Passo Torto. O primeiro é sobre sua casa, o segundo um passei pela Bahia, e seus vários personagens. Em Conversas com Toshiro, Rodrigo faz um personagem interagir com vários outros e nos leva numa viagem para o outro lado do mundo. O Japão e sua cultura oriental, que na sonoridade de Campos, fica cada vez mais parecida com a nossa cultura. Com participações de nomes como Ná Ozetti, Juçara Marçal e Criolo, todos orquestrados com maestria por ele. A MPB, o samba, a música contemporânea e brasileira, nos enchem de imagens japonês e gostos capazes de ser sentidos ao ouvirmos as canções do disco. “Wong Kar-Wai” é meu personagem favorito entre todas as conversas. Porém, “Katsumi” e “Shihiro” tem uma história ao mesmo tempo triste e interessante. A versão de “Velho Amarelo”, carregada de gafieira encaminha o disco para o final apoteótico.


Siba - De baile SoltoSiba - De Baile Solto


Siba Veloso foi mais simples neste disco lançado com financiamento coletivo e sem grandes apoios. Segundo fala do mesmo em entrevista, ele pode pela primeira vez se produzir e criar. Siba sempre será canção, neste disco, mais que nunca. A presença de músicos da zona da mata, fazem De Baile Solto ser um encontro entre o passado do maracatu dos primeiros discos da carreira solo, com o presente fase guitarrista, desde Avante!, disco anterior. As letras também mudaram, são menos pessoais e mais histórias, gritos do compositor ao longo das 10 faixas do disco. Siba teve calma, trouxe de volta as brincadeiras dos bailes, sempre rimando e brincando com a língua pátria. Destaques para “Marcha Macia” (uma das melhores músicas que ouvi esse ano), “De Baile Solto” e “O Inimigo Dorme”. Siba convida todos a se divertirem e cantarem junto em uma ciranda gigante. Vamos nessa?


 Space CharangaSpace Charanga – R.A.N


Eis uma obra prima nacional que ecoou mundo afora. Space Charanga é mais um dos projetos do músico/ saxofonista/ nome de disco, Thiago França. Thiago ficou conhecido pelo Metá metá, projeto dele com o Kiko Dinucci e a Jussara Marçal. Ele também faz parte do crew do Passo Torto. Em R.A.N (rhythm and noise), o músico bebe em nomes como Sun Rá, principalmente para o conceito da parada. Uma espécie de jazz com batidas futuristas, africanas, experimentações, essas viagens. Um lance meio de outro mundo. Na real, imagina um ET tendo contato com a música da Terra através deste som, provavelmente ele iria nos achar bastante moderno e cometer o erro de se mandar pra cá! O trabalho foi lançado em LP, apresenta oito faixas com nomes tão bons quanto os sons. As duas faixas favoritas aqui de casa são a acelerada “Abdu” e o reggae torto e cadenciado “Fakechá”, a preferida do Téo pra tomar banho. Mas assim, o disco todo é surreal demais pra ser verdade, estar disponível para download gratuito e o cara ainda ser bacana e sorridente a ponto de trocar uma ideia sobre o trampo com você.


Gringo


kendrick lamar - to pimp a butterflyO MESMO DO PAULO, É FODA MESMO O DISCO!

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