Os melhores discos de 2015 por Paulo Marcondes

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Os Melhores Discos de 2015
2015 foi um ano bem estranho. A crise bateu, a cerveja subiu, os shows ficaram mais caros, mas o pessoal não parou de lançar disco. Saiu coisa pra caralho e enquanto eu escrevo essa introdução, um monte de gente deve estar subindo sua música ou seu álbum num Bandcamp ou Soundcloud da vida.  Muita gente reclamou por nada no Facebook, a política ficou (mais) esquisita, o Haddad gourmetizou São Paulo e percebemos que 90% dos comerciais na TV agora são sobre aplicativos, mas a música não parou. Em especial, o Kiko Dinucci. Quando acabei de selecionar os álbuns para essa lista, percebi que ele participou de vários deles. Mesmo caso do Thiago França. De qualquer maneira, obrigado aos dois, porque sem vocês, provavelmente o ano teria sido um pouco triste.

Não farei projeções. Eu só espero que em 2016 essa dupla (Kiko e Thiago) não pare de produzir, que o São Paulo venda o Reinaldo e que a Prefeitura de S. Paulo tire as baratas dos coletivos. O resto é resto e eu me viro.


gorduratrans - repertorio infindavel de dolorosas piadas10º. gorduratrans - Repertório Infindável de Dolorosas Piadas


Às vezes eu sento com uns amigos que não são do jornalismo ou do meio musical em si e começo a falar que tô bem descrente com o rock. Que ele é bunda mole. Que as pessoas que estão nele, o fazem bunda mole. Às vezes eu fico reclamando sem parar de como as pessoas não conseguem se desvincilhar de algumas normas que foram criadas na cena independente: da gravação limpinha no estúdio foda, das influências da MPB ou do Los Hermanos. Nada contra. É que já deu. E já deu em 2010. Aí eu recebo um disco como esse no meu e-mail, de dois moleques do subúrbio carioca que gravaram as coisas dentro do quarto, que sacaram certinho o que o Lê Almeida tava propondo com a Transfusão há miliduca e eu meio que recupero a fé nas coisas. É o vômito de sentimentos e angústias de Felipe Aguiar (guitarra e voz) e Luiz Marinho (bateria e voz), como eles explicaram em uma entrevista na época do lançamento aqui. “Tudo foi muito rápido, muito intenso e, ao mesmo tempo, muito prazeroso. Esse disco é, na verdade, um vômito de sentimentos angustiantes”.


krokodil - krokodil9º. KROKODIL - KROKODIL


O KROKODIL é uma banda de São Carlos, São Paulo. É barulho pra caralho. Tem o stoner, o noise rock, aquela coisa do grunge e bastante punk rock. Eles evidenciam algo bastante interessante dentro do estado. Enquanto artistas roqueiros da capital brigam por um espaço ao sol entre guitarras bem afinadas, vozes limpas e estúdios caros, no interior, três moleques montam uma banda durante várias bebedeiras e inúmeras jams. Se o interior de São Paulo revelou Amoroso, Luizão, Neto e vários outros craques no futebol brasileiro, por que na música seria diferente? O KROKODIL é o Bragantino de 91, só que sem ser vice. Matheus Campos, Rafael Simões e Cainã Tavares mostram que em 2015, juntar amigos, encher o cu de cerveja barata e tocar, continua sendo o grande lance de “como montar uma banda que fará um bom som”.


test - espécies8º. Test - Espécies


O TEST carrega uma parada que é bem foda. Eles conseguem ser transgressores dentro de uma cena independente, no geral mesmo, meio morta (no sentido de botar medo, de ser esquisito e desafiador pra muita gente). O funk hoje assusta os pais. E você pode ter percebido que metade dessa lista é basicamente de grupos que conseguiram sair desse estigma de coisa certinha. O TEST é tão ao contrário que o João é um cara metaleiro que aparece pra te atender sempre com umas camisetas furadas, fumando um cigarro. O Barata é bem tranquilo, mas quando vê uma bateria ninguém segura. O deaht/thrash/grind característico dos caras está aqui com letras feitas por gente boa, tipo Fernando Catatau, João Gordo, James (Facada), Kiko Dinucci e Jair Naves. Espécies mostra que a dupla não é só aquela que pega a Kombi do João e vai tocar na rua, ela não tem amarras com nada e faz literalmente o que quer. Se um dia passar na cabeça do TEST fazer uma releitura de algum disco do Katinguelê, eles vão lá, tocam e foda-se.


alafia - corpura7º. Aláfia - Corpura


O primeiro disco do Aláfia, homônimo, soou meio MPB. Aquela tal de Nova MPB, por sinal. Vila Madalena, Pinheiros, enfim, Zona Oeste. E não era o que eles queriam. A prova disso é Corpura, álbum que coloca a banda como mãe do ‘afropopfuturismo’, como dito por Eduardo Ribeiro e Peu Araújo, em um texto do Noisey. Aqui o Aláfia é militante sendo pop, fazendo disco com patrocínio de marca de cosmético e mesmo assim, enfiando o dedo em várias feridas. Basta ouvir “Preto Cismado” e sacar a linha que Tássia Reis canta: “Você diz / Que eu sou uma preta cismada / Que não ri da sua piada / Racista e machista / Diz que a minha dor não é nada / E acha até engraçada” ou se ligar em “Salve Geral”: “Não nos damos com teus demônios / Decapitamos o teu capeta / Decapitaremos o teu capitão / Decapitaremos o teu capa preta / Decapitaremos o teu capataz / Da capoeira você não escapa”. Criolo e Emicida pavimentaram esse caminho que o Aláfia segue, o de ser militante dentro de um esquema de editais, dinheiro e fama. E não tem nada de ruim nisso não. Se eu já tinha achado genial o menino Leandro ter colocado “Hoje Cedo”, um som que fala sobre a bosta que é o show business pra tocar em rádio, o que falar de um disco que é pop mas militante?


passo torto e ná ozzetti - thiago frança6º. Passo Torto e Ná Ozzetti - Thiago França


O Passo Torto na maioria das vezes é sobre São Paulo. As ruas, o metrô, as obras e as loucuras de uma metrópole. O nome Thiago França é uma piada. Não, ele não faz parte do grupo, apesar de já terem ligado pra ele perguntando quanto era o cachê da banda. Se no primeiro disco eles trataram do cidadão e em Passo Elétrico da cidade doente, Thiago França pode ser considerado o sepultamento da cidade, a morte de um espaço que respirava com ajuda de aparelhos. Estruturalmente falando, o registro também é diferente dos outros dois trabalhos anteriores. Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Romulo Fróes buscaram a desconstrução total da canção, e a linda voz de Ná Ozzetti sobre todo esse barulho é o grande segredo.


jair naves - trovões a me atingir5º. Jair Naves - Trovões a Me Atingir


Jair Naves disse que esse é um disco sobre amor. E de fato é. Só que diferente de todas as maneiras que o artista tinha falado sobre esse sentimento em sua carreira, tanto com o Ludovic quanto sozinho, aqui é muito mais otimismo que lamentação e tragédias. Trovões a Me Atingir marca um momento de mudança na trajetória do Jair, desde as composições que foram feitas em conjunto com a ótima banda que o acompanha formada por Thiago Babalu, Renato Ribeiro, Felipe Faraco e Rafael Findans até às letras e as várias participações do álbum com nomes como Bárbara Eugênia, Camila Zamith, Guizado e Beto Mejia (Móveis Coloniais de Acaju), Raphael Evangelista (violoncelo) Caio e Igor Bologna (percussão). Se em E Você Se Sente Numa Cela Escura…, o músico apostava em canções com linhas mais fortes e gritadas, em Trovões a Me Atingir, as coisas ficam mais mansas. Sem gritos. Otimismo é o norte do trabalho que ainda consegue, mesmo que de longe, resvalar em composições mais densas, casos de “Em Concreto” e “Incêndios (O Clarão de Bombas a Explodir)”.


Síntese + Akilez + Kiko Dinucci + Thiago França - Boomshot Apresenta4º. Síntese, Akilez, Kiko Dinucci & Thiago França - Boomshot Apresenta


O Neto já tinha experimentado sair do esquema de base lo-fi, característica do Síntese em Sem Cortesia, com o EP NASBASE, feito junto com o Projetonave. Agora se aventurou ainda mais nesta onda. Akilez (Projetonave), Kiko Dinucci e Thiago França arranjaram oito faixas para um Manos e Minas, que foi exibido em 2014 e um ano depois, os caras resolveram lançar o que tinham gravado, pela rádio BOOMSHOT, comandada por Zeca MCA. O resultado é a urgência da voz de Neto, as ideias diretas de sempre (com alguns sons do Sem Cortesia) e um rico instrumental servindo de base. É diferente, mas pode mostrar o caminho do próximo álbum do Síntese, que de acordo com o Neto, chega ano que vem.


juçara marçal e cadu tenório - anganga3º. Juçara Marçal & Cadu Tenório - Anganga


Já tem um tempo que a Juçara Marçal vem se destacando na música brasileira e em Anganga não é diferente. O disco, que conta com os vissungos recolhidos por Aires da Mata Machado Filho em 1920 e que foram posteriormente cantados em Canto dos Escravos por Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela, além de duas composições de Cadu Tenório, é uma pedrada e coloca Juçara Marçal em outro patamar. Daqui pra frente, não ouse chamá-la de “cantora”, artista da voz é um dos termos mais corretos para descrevê-la (ou o que chega mais próximo). Outro que surpreende é Cadu Tenório, que mostra uma versatilidade incrível quando experimenta e desconstrói canções com fortes raízes africanas. Anganga é experimental, é esquisito e imaginar a atmosfera de canções cantadas para o trabalho, dentro do que Cadu Tenório faz, é de arrepiar.


elza soares - a mulher do fim do mundo2º. Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo


Nos primeiros minutos do disco, quando Elza Soares canta “Coração do Mar”, antes de partir para a faixa título do álbum, a gente esquece que ela tem 78 anos e vem fazendo seus shows sentada. A força que essa voz carrega nos versos a capella é de outro mundo. Criado por talentosos nomes da música de São Paulo, como Marcelo Cabral, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Douglas Germano, Alice Coutinho, Celso Sim, Joana Barossi, Fernanda Diamant, Alberto Tassinari, Clima e Cacá Machado, a obra soa extremamente contemporânea. De “Firmeza?”, composta por Rodrigo Campos no maior esquema São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe, a “Benedita”, em que fala sobre uma travesti e o universo que a cerca, com a violência característica que infelizmente, faz parte do cotidianos delas. Elza canta para as mulheres do fim do mundo, que são violentadas constantemente. É só pegar “Maria da Vila Matilde”, com composição de Douglas Germano, e sacar o grande dia de libertação na vida dessa mina, que, cansada de apanhar, canta “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. A Mulher do Fim do Mundo coloca Elza num patamar muito alto na escala “cantores consagrados que conseguiram fazer algo contemporâneo, de fato” e isso é mérito não só dos músicos, como da própria Elza. Ai de quem não a deixar cantar até o fim.


ogi - rá!1º. Ogi - RÁ!


RÁ! pra mim é o melhor lançamento brasileiro do ano. Não só de rap, de tudo. Escutei bastante coisa em 2015 e nada me chamou tanto a atenção como o segundo álbum do Ogi. A produção do Nave é algo fora de série, os beats… mas eu preciso falar realmente das letras. Não sei se o Ogi é apenas um rapper. Pra mim ele é contador de histórias da ‘gente minha’ e isso já tava claro no Crônicas da Cidade Cinza, de 2011. Em RÁ! ele chega pesado na caneta, no flow e principalmente nas narrativas, seja no bate-cabeça “Estação da Luz”, que tem a participação do Mao (ex-Garotos Podres), na tiração de onda de “Hahaha”, nos relatos de uma reintegração de posse em “Correspondente de Guerra”, no esquema maluco de troca de personagens das três partes de “Trindade”, que só reforça que o cara tem skills ou no hit “Virou Canção”, música mais pessoal do disco que fala sobre os parceiros de Ogi que se foram, como ele contou aqui. Mas tem mais. RÁ! é um disco bem propositivo. Tem as guitarras do Kiko Dinucci, a flauta e o saxofone do Thiago França, a percussão do Carlos Café, a voz da Juçara Marçal, o refrão cantado no maior estilo Garotos Podres por Mao e ainda assim é bem rap. É bem rua, na real. É o Ogi criando personagens a partir de histórias. Observando e absorvendo, como ele mesmo diz no final de “Corresponde de Guerra”: “... Sinto que tudo que ouvisse eu absorvesse, sabe? E isso faz eu me sentir possuído, várias impressões digitais, várias sombras, e eu confronto essas sombras”. Somado a tudo que já foi dito, podemos falar sobre o esquema de rimas usado por ele no álbum, passando da homenagem ao Athalyba e a Firma em “7 Cordas”, “Quero tá light / Não no fighting em telemarketing / Então pra isso aperta o rec, mic check sim / Mistura rítmica e lírica harmônica / Suavidade pra desenvolver a crônica”, quando remete ao flow de “Política” ou em “Chico Cicatriz” que ele rima duas vezes cada palavra deslocando o acento tônico delas “VÂN-da-LÔ/ Es-CÂN-da-LÔ/ MÂN-ga-LÔ”. RÁ! é uma obra coesa do começo ao fim, com músicas que se encaixam, diálogos que parecem totalmente naturais e com uma sonoridade bem interessante um ano depois da bomba que foi Cores & Valores do Racionais MCs. Com esse disco, Ogi só confirma a ideia que muitos tinham desde o lançamento de Crônicas da Cidade Cinza: a de que ele é um dos maiores rappers brasileiros da atualidade.


Gringo


kendrick lamar - to pimp a butterflyKendrick Lamar - To Pimp a Butterfly


Esse disco é foda. Ponto.

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