Haruki Murakami e a música: uma introdução a partir de "Norwegian Wood"

por - 12:00

Norwegian Wood

Ontem terminei de ler mais um livro de um dos meus escritores favoritos da atualidade, Haruki Murakami, e fiquei me perguntando o porquê de, mesmo tendo lido tantos livros sobre ele e ser bastante entusiasma e eufórica a respeito do autor, nunca parei para escrever nada sobre ele que não fossem opiniões no Twitter. Lembrei-me então do gentil convite feito por Diego Albuquerque para contribuir, sem pressão, com o Altnewspaper. Por quê não unir o útil ao agradável?

Antes de apresentar o autor ou mesmo a ideia que tenho para este ensaio, apresento-me. Sou Natasha e essencialmente sou uma leitora e isso faz com que a leitura seja um dos meus maiores prazeres, ao ponto de que a sua ausência faz com que vários aspectos da minha vida simplesmente desandem. Infelizmente as atribuições da vida adulta não me deixam ler mais 13 livros concomitantemente: além de não ver mais tanta vantagem nisso, percebi que às vezes mergulhar em uma obra ou em várias outras de um autor é suficiente para nos mantermos mentalmente são.

E foi assim com Haruki Murakami. Em 2013, comecei a cogitar uma rotina de corrida. Nada profissional, queria apenas me exercitar e não surtar enquanto escrevia a dissertação. Acabei me deparando com Do que Eu Falo Quando Falo de Corrida, livro autobiográfico escrito em 2008, que fala da influência que o esporte, especialmente a corrida, teve em sua vida e, sobretudo, em seu texto. Desde então tenho lido todos os seus livros publicados no Brasil e, sugestivamente, cada livro parece se encaixar perfeitamente com minhas emoções, experiências e expectativas de vida. As afinidades são tão grandes e tão inexplicáveis que costumo dizer que ele é meu sense8.

peter-cat jazz bar

Além deste perfeito encaixe, um dos elementos que mais me encanta na obra desde autor japonês nascido em 1949 é a constante presença de referências musicais ao longo de suas obras. Isso não é de se espantar, uma vez que antes de decidir dedicar-se integralmente à literatura, Murakami e sua esposa eram proprietários entre os anos de 1974 e 1982 de um bar de jazz chamado Peter Cat. Aliás, os fãs de gatinhos talvez se sintam contemplados e representados nos livros do autor, uma vez que o mesmo também é admirador dos felinos e também faz deles sujeitos importantes em seus universos.

As referências musicais nas narrativas de Murakami não simbolizam apenas um breve momento em que os personagens param para contemplar uma bela canção que toca na rádio. Algumas canções e estilos – destacadamente jazz, pop e música clássica – integram o próprio texto como se fossem personagens, de modo a tornar a leitura indissociável da escuta.

O segundo livro que li do autor, Norwegian Wood (1987), traz no próprio título referência expressa a canção homônima dos Beatles e introduz ao leitor a trama e o personagem principal, Toru Watanabe, com uma cativante ensejo para que sintonizemos na música para acompanhar o desenrolar da história: “eu tinha 37 anos e estava a bordo de um Boieng 747. A imensa aeronave descia atravessando densas nuvens carregadas de chuva, preparando-se para aterrissar no aeroporto de Hamburgo. Sob a chuva fina e fria de novembro, tingindo a terra de um tom escuro, tudo se revestia do ar melancólico das paisagens retratadas nas pinturas da escola de Flandres… Uma vez o avião pousado, os sinais de proibido fumar se apagaram e uma música de fundo começou a tocar suavemente pelos alto-falantes do teto. Era ‘Norwegian Wood’, dos Beatles.”

Haruki Murakami

Ao ouvir esta música, Toru Watanabe, protagonista e narrador da história, é envolvido por uma série de lembranças de sua adolescência e principalmente do seu breve e inesquecível relacionamento com Naoko, ex-namorada do seu melhor amigo Kizuki, que se suicidara, aparentemente sem um motivo justificável. A morte do melhor e único amigo tira Watanabe dos trilhos e deixa-o sem rumo na vida, até que um telefonema de Naoko muda tudo.

Ainda que este livro apresente outras referências musicais de classic rock, como "Here Comes the Sun" dos Beatles novamente e "Jumpin' Jack Flash" dos Rolling Stones, confesso que não consigo não ouvir "Norwegian Wood" sem lembrar de Murakami e vice-versa. A explicitude do título tem um peso menor para a construção de minha memória afetiva da presença dos elementos da narrativa na letra da música. Enquanto Murakami precisou de um livro inteiro para nos apresentar a relação entre Toru e Naoko, brilhantemente, inclusive, John Lennon e Paul McCartney, mesmo sem conhecê-los, conseguiram sussurrar em nossos ouvidos todos os elementos necessários para construir esta historia. Talvez John, Paul e Murakami sejam também sense8s. Não sei. O fato é que mais do que fornecer um título Norwegian Wood situa o leitor no universo deste livro, especialmente na personalidade tímida e acolhedora de Toru, na mente conflituosa e angustiada de Naoko e na casa de repouso nas montanhas em que ela é internada.

Vale a pena ler não apenas este livro de Murakami seja por curiosidade literária ou musical ou simplesmente para se surpreender com a enorme capacidade que este autor tem de lidar com o insólito e o surreal de maneira convincente, a ponto de cunhar no leitor uma irremediável sensação de identificação e de pertencimento.

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