Péricles - Feito Pra Durar

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Péricles

O ser humano tem medo do futuro. E parando pra pensar, é assustador mesmo imaginar que isso que conhecemos vai desaparecer a qualquer momento, como quem espera aquele primo chato que vai destruir seu quebra-cabeça de mil peças assim que ele abrir a porta. Idealizar é a chave de nossa nostalgia. Que seja eterno enquanto dure, é como falamos. E algo feito pra durar normalmente precisa ser minimamente bom. Feito Pra Durar, este é o nome do disco lançando em maio de 2015 por Péricles, o George Harrison do pagode. Dei uma ouvida no álbum e tenho umas coisas a dizer sobre ele.

Aos fãs de Exaltasamba que remanesceram, peço minhas sinceras desculpas, mas Chrigor já foi uma grande perda para a banda, Péricles praticamente terminou de descaracterizar o que já víamos como sendo um grande alicerce do grupo quando saiu. Thiaguinho? Desconheço este nome no Exaltasamba.

Péricles é a veia do romantismo e da melodia que deu cara a uma geração inteira nos anos noventa. O cara é um verdadeiro monstro sagrado. Afinado feito um sabiá, o cara é capaz de te fazer sentir bem cantando as coisas mais tristes e chorosas que um ser humano poderia proferir. Coisa que o emocore genérico do começo dos anos 2000 continuou, se tratando do legado deixado pelo pagode, mas que falhou miseravelmente devido à falta de uma personalidade e talvez até de uma identidade, já que ninguém se dizia emo, mas todos um dia fomos, nem que seja por um segundo trocando de rádio ou pulando aquela música no shuffle.

O disco é um pagode de cadência mais lentificada, o que dá um tom ainda mais romântico/mela cueca para o disco todo. Assustadoramente coerente para o álbum, eu diria. Algumas bandas da época não eram tão prestigiadas exatamente por esta mesma característica, citando Ronaldo e os Barcelos como exemplo, mas por alguma razão se percebe desnecessária esta marcha lenta, quase paquiderme, do registro, que como dito, é o romantismo em forma sonora. Destaque para a participação de Hellen Caroline, hoje intitulada a “princesa do pagode”, que casou excelentemente no quesito romântico, mas que deixou tudo um pouco... romântico demais. Cabível em uma trilha sonora de filme da Disney, mas talvez tenham exagerado.


Felizmente quando o disco ultrapassa o romantismo Fábio Jr., eles aliviam de alguma forma, seja com letra ou com um ritmo mais presente. Nunca o disco deixa de ser um grandessíssimo coraçãozinho com as mãos, daqueles de jogador de futebol, mas o desafio é saber aliviar esta temática, seja com letras menos banhadas em melodias ou com instrumentais mais agitados dentro daquilo que o pagode de Péricles permite. Questão esta que acredito ser a maior contribuidora da qualidade musical do disco como um todo, ainda que aparentemente difusa como um todo.

O ponto mais baixo do disco, e aqui devo admitir que talvez por uma questão de gosto, está em uma composição assinada por Thiaguinho, logo seguida por uma faixa com participação do mesmo. Sobre a primeira, Péricles é um interprete do caralho (vale colocar que as composições do disco não são dele) e por isso algumas faixas são brilhantemente postas, tal como esta. Já na participação de Thiaguinho, percebe-se como este e Péricles eram bem próximos apesar do fim fatídico do Exaltasamba. É uma faixa tolerável, apesar de incômoda.

Por fim, o disco do Péricles é bem romântico. Como um disco de pagode, percebo o quanto o gênero tem se distanciado cada vez mais de suas raízes, o que pode ser algo bom ou ruim. Dentro do pagode atual, acredito ser um disco interessante por ser o primeiro trabalho solo em estúdio de Péricles, apesar de achar fraco dentro daquilo que um dia já foi, e aí não só comparando com os tempos de Exaltasamba, mas comparando ao seu último trabalho, Sensações (2012), que para mim é superior, principalmente no equilíbrio entre melodia, letras e o instrumental. Vale pontuar que este disco foi uma gravação de faixas novas e composições antigas selecionadas por ele. Feito pra Durar se salva justamente onde o pagode se difere dos outros, o instrumental, porque o resto está bem... repetitivo. Irônico para um gênero odiado exatamente por esta questão. Não faz jus a um cartão de visitas, se tratando de seu primeiro disco solo em estúdio. E alguém precisa afastar o Thiaguinho dele e trazer o Chrigor pra mais perto.

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