Conheça o projeto "365 Girls in a Band"

por - 13:22

[caption id="attachment_27896" align="aligncenter" width="615"]Maria Caram por Miguel Javaral Maria Caram por Miguel Javaral[/caption]
Não lembro como conheci o projeto 365 Girls in A Band no Instagram. Não sei se elas curtiram alguma foto do Hominis e fui olhar ou se eu estava vendo um feed aleatório e cheguei no projeto, mas o que interessa é que achei a proposta bastante interessante. A ideia é postar uma banda ou projeto musical por dia, em que a mulher esteja em posição de destaque, ou seja, não precisa ter apenas mulheres na banda.

Comecei a acompanhar o projeto e pude ver várias bandas que nem lembrava mais que existia ou que nunca conheci. Exemplos famosos como Patti Smith e Nara Leão estão por lá ao lado de nomes menos baladados como a banda mineira Cáustica, e de cantoras contemporâneas, caso da Juçara Marçal. Além disso, o pessoal também organiza podcasts com as artistas que aparecem por lá.

Pra entender melhor sobre o projeto, fiz contato com a Maria Caram, a pessoa por trás do projeto e batemos um papo massa. Saca aí.

Como e por que surgiu o projeto 365 girls in a Band?

O projeto surgiu de uma maneira bem informal, na verdade. Uma sexta feira a noite, eu e Miguel estávamos na cozinha de casa tomando uma cerveja e ouvindo música e começamos a discutir essa questão da presença da mulher na música. No meio dessa conversa, eu duvidei que ele seria capaz de postar um disco de mulher por dia, ele topou a aposta e criamos o perfil, sem pensar muito em como seria isso. Começamos a postar uns dois dias depois.

Claro que no background disso já tinha uma discussão mais séria sobre mulheres nas artes. O Miguel sempre foi um grande fã do movimento Riot Grrrl, ele é músico, eu sou produtora, a gente sempre se depara com umas situações estranhas para as mulheres na música, na produção, no cinema, etc... Focamos na música porque é nossa paixão.

Por que divulgá-lo apenas pelo instagram?

Na época que criamos o projeto, eu não estava usando Facebook, uma rede com a qual eu tenho uma relação meio distante, então nem me passou pela cabeça criar uma página.

Eu sou viciada no Instagram e como a ideia era mais postar os discos e fazer as pessoas procurarem, não tinha muito problema não caber links, vídeos, sons, etc. Além disso, a ideia de mostrar as capas de disco como peças de arte gráfica, arte pop me atraiu muito. É muita felicidade quando um bom disco vem com uma boa capa. (risos)

Usei meu Twitter pessoal pra divulgar porque é a rede social que mais uso e acho que tem uma estrutura legal de seguidores. Acho o público do Twitter e do Instagram mais "focado", em busca de assuntos específicos mais que de trocar likes.

Existe um crivo crítico ao projeto? Quem o faz e quais os caminhos para uma banda aparecer por lá?

Dada a própria natureza informal com que o projeto nasceu, não temos um crivo crítico restrito e definido. Basicamente, são três critérios: ter pelo menos uma mulher com um papel relevante dentro da banda. Isto é, não adianta ser aquela intérprete linda, com voz incrível, mas que na verdade é um instrumento de músicos e produtores. Ter algum impacto no estilo musical que representa, ou seja, não ser mais do mesmo, trazer alguma marca, um caminho. E por fim, nosso gosto pessoal. O crivo é meu e do Miguel e isso gera discussões longas e deixa algumas bandas "no limbo" enquanto não chegamos em um acordo. Claro que não entra só as bandas que gostamos, mas tem que passar no nosso "controle de qualidade", ter um som bem feito, algumas coisas técnicas e criativas. Escolhemos as bandas por pesquisas, da nossa própria discografia e também recebemos indicações de seguidores. Adoramos receber indicação.


Existe algum cunho feminista no projeto? Ou apenas a curiosidade/vontade de enaltecer o trabalho de mulheres na música?

A vontade de dar um espaço de divulgação para o trabalho de mulheres tem um cunho feminista inevitável, mas como o projeto é tocado de uma maneira bem informal e sem se basear em teorias feministas ou mesmo em bandas exclusivamente feministas, eu acho que a palavra empoderamento cabe melhor. O projeto me empoderou de muitas maneiras e eu espero que empodere e inspire outras mulheres que queiram fazer arte. Tem um cunho claro de empoderamento.

Nos anos 90, perguntaram a Shirley Manson (vocal do Garbage) sobre bandas formadas apenas por mulheres e posicionamento da mulher a frente (o exemplo foi as Spice Girls). Ela disse algo assim: "Não adianta ter mulheres a frente, se um homem é o empresário e manda nelas". O que você pensa disso?

Eu tenho que dizer que concordo com essa postura. A Runaways é um exemplo de banda super icônica que acabou por contar com um empresário que queria manipular as garotas ao invés de ter uma banda de verdade, fez várias coisas terríveis, inclusive violentar uma das meninas.

As Spice Girls foram um longo debate entre mim e Miguel: eu queria que entrasse e ele, não. Eu acho mega importante que elas tenham levado o girl power pra seara do pop, mas elas vieram servir a uma necessidade da imprensa, para a qual o movimento Riot Grrrl se recusava a dar entrevista. Elas apresentavam os únicos "5 padrões possíveis" para uma mulher: frágil/infantilizada; sexy; esportista/sarada; fashionista/sofisticada e por fim a "assustadora", a mulher forte é apresentada como digna de dar medo e representada por uma cantora negra. São representações horríveis para servir de modelo para garotas adolescentes e empoderamento.

A ideia é ser apenas um ano ou ampliar?

No formato atual, a ideia é ser apenas um ano. Como vamos construindo o projeto a medida que o fazemos, agora temos algumas ideias de continuar com o Instagram ativo depois dos 365 dias, mas com outro direcionamento.

Muitas das bandas citadas não existem mais. Faz parte do processo e do projeto, enaltecer e desenterrar velhos projetos para que eles sejam conhecidos ou é pura coincidência?
Para mim, isso tem tudo a ver com a relevância desses projetos. Eu conhecia Ramones e The Stooges desde nem me lembro quando, mas só fui apresentada ao The Slits quatro anos atrás. São bandas de igual relevância pro punk, mas se fala mais de uma que de outras e eu acho que todo mundo devia conhecer as Slits. O mesmo pode ser dito do Sonic Youth ou do Bikini Kill, por exemplo: impossível falar de mulheres em bandas sem falar de Kim Gordon ou Katheleen Hanna e seus projetos mais icônicos, o que não impede que falemos dos novos projetos. Mas também estamos curtindo demais conhecer bandas e projetos mais novos, a nova cena do Brooklyn, as bandas portuguesas, argentinas. Então eu não diria que é coincidência, é nosso background, nossa pesquisa e nossa vontade de compartilhar paixões também.

Quais os três projetos, bandas ou artistas que você não conhecia e mais gostou de conhecer por conta do 365girls?

Tentando fazer uma seleção honesta:

Cras: Eu pirei muito com a história da banda/coletivo Cras e desse disco específico que a gente postou. Elas são incríveis e tem ações super radicais e divertidas.

MC Soffia: Foi paixão a primeira vista, MC Soffia é incrível e vai compor cada vez melhor. Por conta dela, abri os olhos pro hip hop feminino no Brasil e estou encantanda com a força dessas mulheres, artística e pessoalmente.

Pauline Oliveiros: Se fala muito pouco de mulheres compositoras, quanto mais erudito o campo, menos se fala de mulher, me parece. O trabalho da Pauline é original e importante. E ela é uma super compositora.

Me aprofundar em trabalhos já conhecidos (como o da Yoko Ono e da Laurie Anderson) e conhecer projetos de cenas mais marginais, como a latina, também está sendo um grande prazer.

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