A Hannah Carvalho está registrando a música independente no nordeste

por - 14:00

[caption id="attachment_28002" align="aligncenter" width="695"]Foto por Hannah Carvalho Foto por Hannah Carvalho[/caption]
Existe uma cena independente florescendo no Brasil. É uma afirmação constante, dita às vezes com receio, sempre com um tom leve de desconfiança. É um papo bem amplo e pouco prático também; definir uma “cena” sempre foi um trabalho cansativo e um tanto quanto incerto. Mas acredito que não haja definição melhor para a quantidade crescente de artistas e coletivos independentes que têm não só se desenvolvido dentro das suas cidades, como também saído pelo país e encontrado grupos irmãos, parceiros e realizado turnês com uma velocidade e facilidade assombrosa. A recém realizada aventura nordestina dos queridos do noise gorduratrans parecem pavimentar um circuito que, desde a turnê da Lupe de Lupe, mostra poder se tornar um caminho certo para bandas independentes nesse tom.

A Hannah Carvalho é uma fotógrafa que vive no olho desse furacão, com um extenso trabalho de registro de bandas em polaroid, chamado Bands on Frame (aqui o Instagram). Fui atrás da fotógrafa e conversamos sobre seu trabalho, sobre música, planos pro futuro, influências e muito mais. Quando fui combinar a entrevista com a Hannah, fiquei sabendo que ela tinha quebrado o pé correndo de um assaltante. A entrevista segue nessa mesma onda de emoção!

Você falou que tá de cama. Tá tudo bem? (risos)

É que sexta retrasada eu quebrei meu pé fugindo de um assalto (risos) mas o cara não levou nada porque corri e segurei minhas coisas, aí puxou e foi quando caí.
Você mora no Recife?

Moro sim! Me mudei pra lá vai fazer dois meses. Meio que já era tempo, ia pra lá quase toda semana no segundo semestre do ano passado (risos)

E me conta, há quanto tempo tem o Bands on Frame?

Tenho desde outubro de 2014!! Nossa, nunca tinha parado pra pensar que faz tanto tempo que comecei o projeto...



[caption id="attachment_28003" align="aligncenter" width="606"]Alyssa, da banda Audac, por Hannah Carvalho Alyssa, da banda Audac, por Hannah Carvalho[/caption]
Você lembra como começou? De onde veio a ideia, quando foi que decidiu começar mesmo?

Começou sem nem eu saber que era um projeto mesmo na real (risos) como eu ia pra muitos shows, e já levava minha câmera digital pra começar a fazer umas fotos e tal, tava com a polaroid (instax) em casa e teve um show que resolvi levar, uma amiga ia entrevistar a Audac, e nós duas decidimos tirar polaroids deles. Inclusive existe um cara que faz um lance assim, na gringa, o James Perou, e eu sempre curti pra caramba o trabalho dele, admirava mesmo. Aí pensei, já que vou pra muitos shows, tirar polaroid da galera é uma maneira de registrá-los de uma forma diferente, e ainda trocar uma ideia massa; e aí em 2014 ainda consegui tirar polaroids de umas cinco bandas (e uma geral da Far From Alaska; hoje em dia tô (quase) sempre tirando uma polaroid da banda toda em rolês diferentes daqueles em que ela já tenha participado do projeto)

Eu vi que cê tem uma página mais ampla de fotografia também... você tem um lance mais amplo com fotografia? Uma relação de trabalho, ou de estudo e tal?

Eu me mudei de vez pro Recife pra fazer faculdade de fotografia na UNICAP - tô bem triste esses dias de cama perdendo aula inclusive. Eu já tô trampando na real, ano passado rolou de eu ser uma das fotógrafas oficiais do Coquetel Molotov, tirei as fotos das prévias, do show do Mac DeMarco, etc. Quero tanto trampar com isso pelo resto da vida como com produção nesses rolês de shows. Conheci muita gente da área e vi como era por dentro, achei foda e até organizei com uma amiga e outra galera a tour da gorduratrans, dando encaminhadas pra do Frabin por aqui também, e junto com os meninos, começamos a organizar a do Jonathan Tadeu em agosto.



[caption id="attachment_28006" align="aligncenter" width="695"]Mac de Marco, Clube Atlântico de Olinda, por Hannah Carvalho Mac DeMarco, Clube Atlântico de Olinda, por Hannah Carvalho[/caption]
Vocês se percebem como uma cena aí no nordeste? Porque é isso que cê falou né, cês tão começando a criar um histórico de bandas independentes fazendo turnê por aí, e eu nunca tinha visto uma turnê organizada pelo Twitter antes (risos). Como vocês se conheceram, e a quanto tempo fazem isso?

(Risos) A turnê do gorduratrans começou pelo Twitter também. Minha amiga me disse, "minha meta de 2016 é trazer gorduratrans pro nordeste"; aí eu disse "bora", marquei os meninos e perguntei se eles topavam. Eles toparam, e em menos de uma semana tínhamos tudo esquematizado já. A galera se conhece pela internet mesmo, ou nos shows, porque muitas bandas que tocam, organizam os roles também, como Talude e Amandinho (principalmente).



[caption id="attachment_28005" align="aligncenter" width="575"]Shmir, da Amandinho, por Hannah Carvalho Shmir, da Amandinho, por Hannah Carvalho[/caption]
Vocês já pensaram em se organizar num coletivo ou algo do tipo, ou acha que não é exatamente o rolê?

Acredita que nunca pensamos nisso? (risos) É até uma boa ideia porque é sempre a mesma galera que tá envolvida nesses shows e turnês.

Voltando a falar das suas fotos! Cê tem noção de quantas bandas já fotografou nesse tempo? Tem algum trabalho que você achou mais divertido fazer ou que rendeu uma história massa?

Fiz as contas esses dias, foram 71 bandas e 208 fotos. Dia 9 vai rolar outra banda! Acho que tem a história de sexta retrasada, do dia que quebrei meu pé (risos). Eu estava indo pra um rolê no centro daqui, e o quase-assalto rolou, mas pensei que só tinha torcido o pé. Coloquei gelo, comprei remédio e fiquei no rolê; vi os shows sentada, porque a dor tava grande e eu tinha combinado com a galera do Os Aquamans pra fazer o projeto com ele. Passei um tempo olhando a rua, procurando um local em que eu não forçasse muito meu pé, e acabou que os meninos da banda sentaram numa escada; eu fiquei feito saci, apoiada numa mesa com uma mão, e segurando a câmera com a outra, e acabou que as fotos saíram incríveis, bem centralizadinhas (risos) nem acredito que consegui.



[caption id="attachment_28004" align="aligncenter" width="569"]Pedro, do Os Aquamans, por Hannah Carvalho Pedro, do Os Aquamans, por Hannah Carvalho[/caption]
Com essa correria de bandas por tanto canto do país, você já pensou em fazer turnê com alguma delas? Registrar alguém em outras cidades, dar uma viajada também? Acha que é algo viável?

Pô, já pensei demais sobre isso quando rolou Lupe por aqui. O Jonathan tava junto né, ele curtiu tanto que até falou “ou, proxima tour da Lupe a gente te contrata pra cobrir com polaroid” (risos). A única coisa que meio que barra isso é o preço dos filmes, que com esse dólar alto, tá bem caro. Eu queria muito ter feito isso com a gordura, porque viajei com eles a tour toda (menos Maceió); só que tava com pouco filme, e só rolava pro bandsonframe no momento.



[caption id="attachment_28007" align="aligncenter" width="695"]gorduratrans em Natal, por Hannah Carvalho gorduratrans em Natal, por Hannah Carvalho[/caption]
Se você puder, indique cinco bandas que você curte muito ou tem ouvido bastante e acha que as pessoas precisam conhecer, alguém da área de fotografia que você curta muito e alguma indicação livre, ou frase, ou meme, ou segredo ou recado para família etc (risos)

Tem uma fotógrafa muito foda que admiro muito, a Pooneh Ghana. As fotos dela são incríveis, acompanha praticamente todas as tours do Cage The Elephant, tá em todos os festivais do mundo. Acho que vou indicar as bandas que mais tô ouvindo ultimante, mais fácil (risos). My Bloody Valentine, fui criar vergonha na cara e ouvir o Loveless semana passada pela primeira vez e desde então, não consigo parar. Máquinas, que é uma banda foda de noise de Fortaleza - eles fazem parte do role também, são da Bichano Records e acabaram de lançar música nova. Terno Rei, que banda! Já os ouço há algum tempo, mas nessas ultimas semanas tô ouvindo muito mais. Os Aquamans, a banda de surf music que te falei. É um instrumental foda, o show mais ainda, os caras se conectam com os instrumentos de uma forma que você fica... E tem o gorduratrans, meu amigo, fico sem palavras pra falar desses meninos. E uma frase que tô falando sempre, que acabei pegando do querido Jônatas da Talude: o rock é incrível, muito incrível mesmo.

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