O Mito da Eficiência e a Desumanização do Trabalho

por - 13:53

Let_Them_Eat_Jellybeans-2436"Working on the edge // Losing my self-respect
...
Punch in, punch out
Eight hours, five days
Sweat, pain and agony
On Friday I'll get paid
...

Hey mister don't look down on me
For what I believe
I got my bills and the rent
I should be content
But our land isn't free
So I'll work my youth away
In the place of a machine
I refuse to be a slave"

(Trecho da faixa "This Ain't No Picnic", Minutemen, do álbum Paranoid Time de 1980)

A revolução industrial do século XIX e, anterior e simultaneamente, as correntes filósoficas do iluminismo, vieram alterar toda a forma de pensar do ser humano. As consequências estão ao nosso redor. Alguns chamam as revoluções que a sucederam de revolução técnica, mecanização e, agora, a revolução digital. Quanto a essa última, em curtos espaços de tempo, a palavra da ordem é descartar. Descartar insumos, acumular pilhas de lixo, computadores que já não atendem mais as necessidades criadas, celulares e outros gadjets que, da mesma forma, são considerados inúteis e ultrapassados. Descartar também, e isso me parece o mais grave, seres humanos, suas opiniões e ideias, pelo mito de que seus valores também estariam ultrapassados e, portanto, descartáveis. O paradigma atual de produção e relações de trabalho (e com o mundo) é, sem dúvida, perverso.

O trabalho, em termos gerais, se tornou vazio e sem sentido e, da mesma forma que as máquinas, os homens passaram a ser vistos como meios para atingir fins, e tão somente isso.

Poucos veem sentido no que fazem, e a ambição e a competitividade são as marcas de nosso tempo. Muitos termos importados (leadership, coaching, e outros termos vazios de significado que só revelam modismos) substituíram, como verdade absoluta, o que antes foram os pilares da cultura ocidental: solidariedade, trabalho como uma parte necessária da vida, e que gerava realização plena de significado e valor real, porque se optava por alguma atividade de acordo com seus talentos e dádivas, e não de acordo com o que o mercado dita ou com a tendência organizacional e gerencial da vez.

A despersonalização e desumanização das pessoas vem ocorrendo, hoje, simultaneamente, dentro e fora do ambiente de trabalho. As consequências no trabalho, a ausência de realização pessoal, a falta de relacionamentos verdadeiros, a perda de valor real e mais pleno de significado, teve repercussão direta não só no ambiente de trabalho, mas na própria vida das pessoas, e são raras as vezes em que encontramos alguém que ainda lembre o que significa relacionamento (de verdade). Esquece-se, assim, que o ser humano é, por definição obrigatória, uma criatura necessariamente relacional. Sem relacionamento, a vida humana perde totalmente o significado, e se torna vazia e sem sentido.

Num relacionamento, seja ele qual for, há divergência de opiniões, bondade, paciência, diálogo, até mesmo sacrifício. Como falar em relacionamento se perdemos (quase totalmente ou, quem sabe, totalmente) a capacidade de ouvir os outros? A cultura escrita (que representa, no tempo da humanidade, apenas uma parte ínfima da sua história – quase toda a história humana foi produzida e transmitida oralmente, disso não há dúvida) pode ter iniciado esse processo, mas o paradigma atual, de individualismo extremo, de centralização de decisões e dos consensos (e, por que não, das verdades) acabou por agravar a situação e, agora, nós simplesmente não sabemos mais ouvir uns aos outros. Tomamos decisões com base em números, estatísticas, projetos e esquecemos que atrás de cadeiras, mesas e computadores existem humanos.

No ambiente profissional, frequentemente o que vejo são dois tipos de chefes, ou gestores, como estiver em voga a tendência organizacional relacionada aos recursos humanos (aliás, que expressão feia! Os homens não são recursos, homens e mulheres são seres humanos! Não custa lembrar...): o primeiro time, raríssimo e em extinção, é composto por aqueles que percebem as dificuldades estruturais, as impossibilidades fáticas e o que realmente importa. No segundo grupo (o mais usual) estão aqueles que veem seus colegas não como subordinados ou adversários, mas que agem em equipe, baseando suas decisões em sugestões, ouvindo as experiências de seus colegas e levando esse saber dos outros em consideração verdadeira em suas decisões. Não se preocupam em projetar seu próprio nome para engrossar seu currículo de feitos, os quais não passam de uma mera ilusão. Além de não se ouvir, fazer um jogo de interesses e prejudicar uns radicalmente em detrimento de outros ou, no mais das vezes, prejudicar seus próprios colegas para exaltar seu próprio currículo (o que muitas vezes nem acontece!).

É um ser muitas vezes vazio, carente de atenção e de reconhecimento (o que não tem nada a ver com o trabalho a ser executado ou que está sendo executado ou que irá ser executado...) é até mesmo egoísta – seu comportamento gera mais tensão no ambiente de trabalho e antipatia. Dificulta as tarefas a serem executadas por quem integra a empresa, setor ou órgão, em nome de modismos e argumentos vazios e muito pobres na maioria das vezes, como termos importados e muitas asneiras com base em dados muito particularizados ou nem isso, desconsiderando a individualidade de cada tarefa, de cada setor, das aptidões de cada um, e principalmente e antes de tudo, levar em conta que se está tratando de seres humanos – falíveis.

Posso afirmar, com toda certeza, que um funcionário, colaborador, que seja tratado com dignidade, pode apresentar e o irá, certamente, sendo ouvido, sendo consideradas suas opiniões, limitações e aptidões naturais, irá render muito mais resultados positivos, individual e coletivamente, sendo tratado de tal forma e não como um recurso à disposição, uma máquina de produzir resultados. Ao final, o contraste entre os resultado e a forma de atuar e pensar da postura do primeiro tipo de chefes/gestores e o segundo (tratar a pessoa como mero recurso, o que por si já é bastante perverso), não não dos dá nenhuma prova ou argumento convincente de que esse modelo, já disse, perverso, traria resultados melhores. O modelo em si, é uma contradição.

O gestor ou a gestora não se realiza muitas vezes em sua vida pessoal, familiar e acaba transferindo, não raras vezes, pressões absurdas por resultados.

Antes, o homem, por excelência, trabalhava no campo, em áreas rurais, perto de sua família. Seu ambiente de sustento e seu lar não eram ambientes distintos. O que importava em estar mais próximo da família, dos filhos e de suas necessidades. Esse era o seu mundo. Havia vizinhança, confiança, lealdade e até onde tenho notícia, muito menos necessidades, em geral, uma vida longa. Criamos tantas necessidades e urgências e remediamos com pílulas, tratamentos, sempre caminhando na beira do abismo, nos sentimos fracos e vazios, alguns, os que sentem a necessidade e o prazer de mandar, a recompensa de mandar, o sentimento ilusório que isso traz. O vazio está lá, sendo preenchido – pela necessidade atendida de mandar, atendendo seus desejos narcisísticos. Apenas isso.

Por que temos a sensação de ser tragados e engolidos pelo tempo, sendo que são as mesmas 24 horas e o sol nasce e se põe ao mesmo tempo?

Porque não temos mais nenhuma relação com o ambiente natural, inventamos formas de artificializar tudo, se está calor ligamos o ar condicionado, se está frio, a calefação, se alguém nos incomoda, evitamos, não sabemos mais nos comunicar uns com os outros. O dom maravilhoso da linguagem, dado exclusivamente ao ser humano, da comunicação, do convívio, foi atirado no lixo como o jornal velho de ontem em nome da: eficiência.

Um computador está com problema, chamamos um técnico, o carro está com problema, levamos para o conserto e não temos a menor idéia do que realmente está sendo feito. Nosso conhecimento se tornou limitado, limitadíssimo. Tudo bem delimitado. Vivemos em pequenas bolhas, pequenos grupos, aqueles que concordam conosco. Nosso limiar de tolerância está minguando, minguando a ponto de sumir.

Não compartilhamos nossos conhecimentos porque cada um trabalha de forma específica e isolada, o que torna o conhecimento extremamente individualizado. Nosso trabalho ficou vazio. Tal quanto nossa vida, seja individualmente, seja em família, seja no trabalho, seja em comunidade.

Os dons e talentos foram substituídos, salvo raros casos, por máquinas e conhecimentos organizacionais que se alastraram rápido como fogo. E mudam rápido como o vento.

A palavra da vez é a eficiência, e a eficiência implica em, não importa como, atingir os resultados esperados. Ponto final.

Além da substituição do homem pela máquina (claro, dessa forma, somos vistos pelos outros como máquinas, e espera-se de nós que ajamos como tal), também nas vezes em que o homem controla a máquina, sua criatividade foi suprimida.

Cada profissão foi criando seus mecanismos para a revolução técnica e a supressão da criatividade, da interação verdadeira, da troca de conhecimento. Tudo ficou mecânico e impessoal.

Um advogado não tem mais que criar, pensar, ousar. Um arquiteto não passa horas pensando num desenho, debruçado num projeto, tudo já é mais ou menos ditado e sua preocupação é quase exclusivamente o prazo que ele tem pra concluir.

Todos têm muita, muita pressa. E as pessoas aceitaram isso.

"Não há tempo!", ouve-se repetidas vezes. Fica no controle quem "compra" essa idéia, ainda que seja uma ilusão. Mas isso gera consequencias, todas as nossas atitudes geram consequências pra nós e para quem está ao nosso redor, sejam colegas, filhos, família. E principalmente, aquele a quem quase sempre negligenciamos, nosso interior.

A ilusão de controle é devastadora. Passamos por cima dos sentimentos, anseios, diálogos e relacionamentos como um todo. Nossa vida passa, passa rápido. E ao menor sinal de que algo está faltando, um problema de saúde, uma fraqueza, vemos (ou fingimos não ver), que tudo não passa de uma ilusão que criamos para nos enganar e enganar os outros. Apenas mais uma forma da manipular a verdade.

A cultura organizacional da eficiência vem verticalmente como um meteoro, de cima, dos lados, impulsionando que projetos inventados sem pensar nas limitações e nos trabalhadores, em quem irá executá-los. O que importa é que o resultado venha, custe o que custar, doe a quem doer.

Esse tipo de pensamento cria animosidade, nos sentimos vazios, sem valor. Pode-se afirmar até que é uma distorção do pensamento darwiniano, quer dizer, quem aceita tudo que lhe é imposto, sacrifica sua família, filhos, vida, saúde em nome de metas e objetivos, vence.

É uma distorção absurda, é um contrasenso. É um caminho que, se não atentarmos e tentarmos mudar, nem que seja em nosso próprio ambiente – essas mudanças nunca são em grande escala, grandes mudanças, reflexões que trazem mudanças positivas quase sempre se dão em um local, em uma comunidade. Mas claro, nada impede, sob determinadas circunstâncias, que a mudança de visão de todo um órgão, de todo um conjunto de pessoas, se dê por uma mera reflexão.

Há que se ressaltar e pontuar isso, porque essa cultura, que nos afasta das pessoas e nos aproxima dos números e resultados, mata, distancia, nos deixa doentes, bem como deixa doentes e com marcas às vezes irreversíveis aqueles ao nosso redor. Estamos vivendo uma cultura de trabalho, comunidade (ainda voltarei ao assunto comunidade, muitos, especialmente das gerações mais recentes, tenho receio que não tem idéia do que isso signifique porque é um sentimento quase extinto). Digo tudo isso chamando a atenção, porque creio se tratar de algo extremamente pernicioso, porque não dizer, diabólico. Sim, diabólico, porque praticando essas condutas, quebramos instituições ao invés de fortalecê-las, fazemos as pessoas (colaboramos para, no mínimo), perderem qualquer confiança nelas (seja um órgão, uma empresa, uma escola, uma Igreja, uma família).

Qual a antítese de tudo isso? Voltar ao passado, criar uma máquina do tempo? Esquecer os avanços que tivemos, em relação ao machismo daquela época? Recusar os direitos conquistados pelas mulheres? Recusar os direitos conquistados pelos negros? Não, de forma nenhuma. Sou grata por tudo isso ter acontecido (senão talvez nem eu estivesse escrevendo agora, muito menos você lendo o conteúdo disto), mas repensar nossa cultura, em nosso tempo.

Onde pensamos que iremos chegar destruindo tudo e todos a nossa volta, em nome de um ou alguns objetivos? Fomos treinados nas últimas gerações a pensar de forma imediatista, a querer resultados imediatos, como uma criança mimada. Um século e meio antes de agora, ou menos, esperava-se um tomate crescer para comê-lo, esperava-se uma árvore dar frutos, para colhe-los.

O sol nascendo e a lua se pondo eram nosso norte, o horário de acordar, trabalhar, comer, descansar. Hoje, com tantas pressões e artificialidades, mentiras que criamos e acreditamos nelas, queremos que antes de jogar uma semente nasça uma árvore frondosa. É bastante (no mínimo) ousadia, causamos dor às pessoas, poucos dormem bem, inúmeras pesquisas mostram isso. Não conseguimos colocar nossa cabeça no travesseiro e dormir, precisamos de pílulas e mais pílulas, estamos ansiosos, inquietos. Não damos o direito à nossa mente de refletir.

Lemos informações atrás de informações. Aplicamos verdades, na verdade suposições de uns ou outros e estendemos esses conceitos (eficiência, gerenciamento, produtividade) sem "testá-las", sem avaliar, sem olhar para as pessoas. O filtro é escasso ou inexistente. Não pensamos nas pessoas individualmente e sim como uma massa de indivíduos.

Não podemos desafiar as leis da ciência, as leis da ciência são infalíveis. Mas não posso aplicar conceitos abstratos como se fossem leis da ciência, porque de tal maneira, vou estar desconsiderando totalmente aspectos subjetivos. Assim, por exemplo, num trabalho burocrático que requer esforço e dedicação, aplico, sob outro viés e roupagem, as leis absolutas da física.

Chamo a atenção para reflexão e mudança. O assunto é importante e urgente, porque, como disse anteriormente, as pessoas estão no limite, e querem ser tratadas como seres humanos, únicos e inconfundíveis, com um código genético único. O resultado de negligenciarmos isso é a ausência total de relacionamento. Nós humanos somos seres relacionais, não há nenhuma lei que anule isso: é como fomos feitos e é nossa natureza, é o que nos torna únicos, capaz de sorrir, sentir dor, e também resolver problemas.

Como vou tratar então um ser humano como uma máquina?

Além de ser diabólico e desumano, destrutivo e, aos gestores, se preferirem, ineficaz, agindo de tal forma arrancamos o que de mais belo o ser humano tem – ser relacional, ser único. Ser humano.

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