O que eu leio, o que eu faço - Jonathan Tadeu

por - 14:09

Jonathan Tadeu
Conheci o trabalho do Jonathan Tadeu quando ele ainda era guitarrista e vocalista da banda Quase Coadjuvante, grupo esse que fez muito barulho em Minas Gerais e lançou três álbuns: VermelhoCartas Para  Próxima Estação e Tudo que Estiver por Vir. A Quase era uma banda pra ouvir além do noise, parando pra ler as letras. Os vídeos deles tocando ao vivo mostram bem como era a pegada dos shows, todo mundo parecia meio em êxtase. Ele também colaborou como baixista da Lupe de Lupe, na última turnê pelo nordeste, na qual tive o prazer de tocar com a minha banda, a Ximbra, junto com os amigos da Amandinho, abrindo para a Lupe no Recife (PE).

Jonathan é parte da Geração Perdida, movimento artístico contracultural de Minas GErais, e, tanto conversando pessoalmente quanto na entrevista a seguir, deu pra sacar que ele é o tipo de artista que consegue falar de seu trabalho com uma certa distância, no sentido positivo da coisa. Com apenas 6 anos de carreira no cenário independente ele se mostra maduro e disposto a discutir seu jeito de fazer arte e toda a perspectiva multimodal que envolve a gestão de uma carreira em música e o próprio fazer artístico.

Atualmente em carreira solo, Jonathan lançou o primeiro álbum, Casa Vazia, em 2015 e promete trampo novo para 2016. E, assim, galera, me sinto feliz de voltar com a "O que eu Leio e o Que eu Faço" após dois anos de hiato (a última entrevista foi com o também membro da Geração Perdida, Jairo Horsht) e com uma entrevista tão pipoco quanto essa! Apreciem:

Como funciona seu processo criativo? Existe um ritual, uma disciplina ou é mais anacrônico e difuso?

Eu tenho uma facilidade absurda com melodia. Se eu tenho uma letra e acho ela boa, a música sai em minutos. O problema é a letra. Eu não sou do tipo que senta na cadeira, escolhe um tema e sai escrevendo, se preocupando com a quantidade de sílabas de cada verso. Não existe nenhum processo técnico, e eu não me forço a escrever do nada. Eu sei que é muito pedante isso, mas eu preciso sentir a parada, sabe. Mesmo que seja uma música sobre alguém que eu nem conheço. Quando alguma coisa nova começa a acontecer ao meu redor, as músicas chegam junto. Tipo, o Casa Vazia é sobre uma fase muito específica na minha vida, o próximo disco também é uma espécie de recorte sobre um período. Não pode ser um disco vazio, tem que ter alguma razão. Eu acho que já existe música demais no mundo pra gente ficar lançando coisa só por lançar, sei lá.

E assim a gente pode dizer que música, pra ti, funciona como uma catarse?

Bastante, cara. Um troço meio religioso até. Eu queria muito ser mais contido durante os shows. Acho que às vezes eu viajo demais e esqueço que tem gente assistindo, mas é um dos momentos em que eu mais tenho paz. É quando eu esqueço o saldo da minha conta corrente.

Você já se expressou em outros gêneros literários?

Eu tive uns 500 blogs durante a adolescência, escrevia uns poemas meio zoados, umas crônicas sobre a vida dos outros, mas foi só. Nunca escrevi nada para além da música.

jt vivo

Você participa ativamente da concepção dos clipes? Se sim, tem alguma referência de diretor que faça tua cabeça?

Fui eu quem produziu e filmou todos os clipes que saíram até agora. Acho mais fácil. Eu sou meio louco, quando cismo com uma ideia, muitas vezes eu filmo tudo no mesmo dia, tipo "Carlos José". Tive a ideia de manhã, no outro dia o clipe já tava quase pronto. O único problema é que pra fazer um vídeo sozinho fica tudo muito limitado, né? Eu já escrevi algumas ideias para os clipes do próximo disco e é tudo meio complexo preu fazer sozinho. É bem provável que o próximo vídeo saia em parceria com algum outro videomaker amigo, ou se bobear eu até deixo o cara dirigir sozinho. Sobre referências, eu amo o Michel Gondry, mas não tenho dinheiro pra fazer nada inspirado nele. Tem um sujeito chamado Lance Bangs, gosto muito dos vídeos dele, principalmente os ao vivo, o cara tem um feeling absurdo. Dá só uma olhada nesse registro que ele fez do Fugazi, é poesia pura esse troço, parece que ele tá dançando com a banda. Eu fico embasbacado toda vez que assisto.

Interessante a sua relação com suas referências, que são muito explícitas. Por que alguns artistas insistem em esconder quem os influencia ou mesmo a negar suas influências? Você teria uma teoria sobre isso?

Eu sinto muita falta de artistas mais humanos, mais honestos. A vontade de ser ouvido, de ser amado é tão grande, que tem artista que parece mais uma página do Tumblr. Não precisa disso, pô. Sem contar que, pelo menos pra mim, aquela ideia de ídolo absoluto tá praticamente morta. Eu não gosto dessa distância artista x público, até porque eu não consigo ter esse ego de artista também. Por isso é tudo meio explícito mesmo. Não vejo problema algum em botar uma imagem do Elliott Smith em "Ato Falho", uma música de violão e voz dobrada, sabe. Pra que é que eu vou esconder uma influência óbvia? Eu quero me conectar com o máximo de pessoas que eu puder e acho que pra isso rolar as pessoas precisam se identificar com você e não é fazendo o "artista" que eu vou conseguir isso. Parece papo de tiozão quadrado, mas esses dias eu tava pensando numa coisa. Tem muito, muito tempo que eu não vejo alguém sentar num bar pra conversar sobre os seus problemas de forma confortável, sem passar por um filtro de ironia ou sarcasmo. Você falou sobre ser explícito, e a gente tá num momento em que as pessoas se expõem o tempo inteiro, mas é uma exposição totalmente filtrada. Todo mundo tem medo de demonstrar fraqueza e insegurança. Ninguém quer parecer fraco, as pessoas preferem interiorizar isso, o que é muito perigoso.


Você lembra em que época começou a tocar?

O primeiro culpado foi o meu pai. Ele sabe tocar violão. Todo final de domingo ele tocava a mesma música pra mim: "Meus tempos de criança", do Ataufo Alves. Eu achava o dedilhado lindo e triste pra caralho. Sabe aquelas escalas maravilhosas entre os acordes? Ele tentava me ensinar aquilo mas eu achava impossível. Isso foi na infância. Lá pelos 11, 12 anos de idade eu comecei a ouvir rock. Algum amigo de colégio teve a ideia de montar uma banda, reuniram uma turma mas ficou faltando alguém pra tocar o baixo, foi aí que bateram lá em casa pedindo preu aprender a tocar. Toquei em muita banda do bairro. Banda cover de qualquer coisa que tocava na MTV. Mas eu ficava puto por que o povo só curtia tocar guitarra, né? Eu sempre ia pro baixo, mas isso durou pouco. Foi só ouvir o Nirvana. Foi aí que eu comecei a tocar guitarra e compor.

Como você concilia sua rotina de freelancer com o trampo musical?

É bem tranquilo. Tem só dois anos que eu tô nessa. Eu vivo zoado de grana, mas ainda assim é uma coisa que me ajuda bastante. Poder pensar em turnês, clipes e todo o resto sem se limitar apenas aos fins de semana é um privilégio. Sem contar o processo de composição. Eu achava que era besteira isso, mas faz uma diferença enorme. Tô sentindo muito isso agora. Tipo, os meses em que eu consigo menos trampo e fico desesperado atrás de dinheiro, são os meses em que eu mais faço música. É meio tragicômico isso, né.

Lembrei da música do Cursive, "Art is Hard".

Siiim! Essa letra é um soco no estômago, nó! Eu poderia render umas duas horas de boteco só discutindo ela com você! Eu tenho MUITO medo de cair nessa coisa do artista sofredor, cara. Nó, desde a época da Quase. E isso é foda, porque inevitavelmente você vai cair em algum estereótipo desses, não dá pra controlar o que as pessoas vão pensar de você, né. Ainda mais quando você é brutalmente influenciado por artistas que carregam esse estereótipo. Por isso que eu sempre mando esse discurso do "não sou artista" e talz, mas eu sei que é inevitável.

Primeira pessoa ou terceira pessoa? O que é mais fácil pra ti quando escreve?

Primeira pessoa, quase sempre. Isso foi por pura influência desse povo songwriter americano que eu ouço.
Jt e a lupe

Muita gente te aborda pra saber se canções como "Mãe" e "Carlos José" são "baseadas em fatos reais"?

Nunca me perguntaram nada. Acho que as pessoas já escutam o Casa Vazia imaginando que é tudo real. O Vítor (Brauer, vocalista e guitarrista da Lupe de Lupe) não fez uma pergunta sequer em relação a isso durante as gravações, e eu fiquei aliviado, principalmente quando gravamos "Mãe". Sei lá, eu sou meio contraditório. Faço essas músicas explícitas, mas fora delas eu não sou o cara mais aberto. Eu tenho a minha relação pessoal com essas músicas e quero que cada um crie a sua, sabe? Lembro que no dia do lançamento eu passei a tarde inteira ouvindo o desabafo de dois amigos. Um me contava sobre o quanto a música fez ele pensar no amor que sente pela mãe e no medo absurdo que ele tem de perder ela, já o outro amigo tinha constatado que não amava a mãe o suficiente. Isso me chocou muito na época. É por isso que eu gosto de manter essa distância. Se uma obra te emociona, então, ela é real. A minha versão é a que menos importa.

Falamos um monte de escrever! Agora vamos às leituras. Hoje em dia o que faz parte do teu universo de leitura?

Eu gosto muito de livros não-ficcionais. Prefiro livros relacionados a arte, mas pode ser sobre a história de qualquer coisa. Eu li quase tudo dessa última leva de livros que o Barcinski e o Ricardo Alexandre soltaram sobre música brasileira. Sei lá, pra cada quatro livros que eu leio, um é ficcional.

Imagine que você pudesse criar a trilha sonora para uma adaptação cinematográfica de algum livro, de qual seria?

Cara, eu queria muito que alguém fizesse uns filmes sobre os livros do Fante. Rolou o Pergunte ao Pó, né, mas ficou uma desgraça completa. Seria muito massa se rolasse uma adaptação do 1933 Foi Um Ano Ruim, esse eu gostaria de pensar na trilha. O Notas do Subsolo do Dostoiévski foi outro que passou pela minha cabeça enquanto eu te respondia.

Ler pra ti é algo constante ou intermitente?

Eu leio bastante, mas ultimamente tem sido mais por obrigação mesmo (risos). Leio muita coisa sobre teoria cinematográfica, fotografia, essas coisas mais técnicas. Eu comecei a ler aquele Consciência de Zeno do Italo Svevo mas já tive que parar pra ler um outro livro técnico.

Qual foi o melhor livro que você leu em 2015?

O Breviário de Decomposição do Emil Cioran. Ele tem um mau humor, um tipo de niilismo, que depois de um tempo, soa como um velhote louco que só quer matar as ilusões que salvam a vida da gente, mas ao mesmo tempo, se você não levar muito a sério, dá pra tirar alguma coisa positiva e até rir dos chiliques que ele dá. Tem um texto, acho que o primeiro do livro, "Genealogia do Fanatismo". Nem dá pra destacar a melhor frase porque o negócio é uma metralhadora de voadoras.

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