Para Além da Geração do Vazio

por - 14:02

cbgb

Richard Hell anunciava, em 1977 "...I belong to the blank generation" (eu pertenço à geração do vazio). Como eu me identifico. A geração do Please Kill Me, inconformados com o que rolava na época "celebravam" o vazio cultural, literarário, mídia desinformativa, costumes, hipocrisia pra caramba. O que fizeram com o vazio? Arte – mesmo que essa não fosse a pretensão. O que sobrou dessa geração?

Muitos só queriam se divertir, mas pelo menos se rebelaram. Simplesmente fugir, se divertir? Pode ser, era, mas tinham alguma razão e boas idéias, criatividade.... Uma sensação verdadeira de inconformidade e alguma sensação de liberdade.

Quase 40 anos depois, posso dizer que, nos últimos 20 anos – podem me chamar de pessimista, ok? – dá pra contar nos dedos de uma mão, com sorte, o que realmente pode marcar, pelo talento, pela ousadia, as gerações que virão.

Quem tem uma opinião diferente acaba meio que sendo banido socialmente. Veja além da polarização de idéias de que falam – o problema é que faltam idéias. Falta criatividade. Reagir a quê mesmo?

Estamos bastante anestesiados com nossa situação, que considero lamentável. Falta de produção cultural decente (não querer agradar todo mundo seria um bom começo, eu acho), música de verdade, algo que nos faça pensar. Massificação de opiniões? Falta de identidade? Por irônico que pareça, podendo acessar praticamente tudo de produção cultural que nos antecedeu, parece que ninguém procura nada do que já rolou, e é tudo tão pouco autêntico. Pior, quando alguém tenta ser mais autoral, se preferir esse termo, acaba sendo muitas vezes: chato. Difícil né? Pois é, talento natural está quase em extinção. As facilidades parecem ter gerado complicações.

Nas gerações anteriores, com quem você andava, como falava, o jeito de se vestir, o que escrevia ou cantava, lugares que frequentava...tudo isso (e mais uns aditivos) dava algum alivio e sensação de pertencimento. Toda possibilidade criativa foi suprimida? Não ouso chegar a tanto, mas arrisco dizer que essas gerações se sentiam sufocadas. Mas parece termos ido além, infelizmente no pior sentido.

Pertencemos a todos os lugares (graças à internet), e ao mesmo tempo pertencemos à lugar nenhum. Devemos sim ser tolerantes mas não consigo deixar de questionar essa geração...dos festivais que condensam vários estilos e nenhum público especifico (nem heterogêneo!), todos estão em todo lugar e todos são de lugar nenhum. A razão é simplesmente se divertir e show up. Mas não há admiração por esse ou aquele artista (se houver, me explique os motivos). Todos sorriem e tiram fotos, não importa quem esteja tocando.

"Que banda vai tocar?" "Não sei". E muitos sorrisos se multiplicam em segundos nas redes sociais..., né não? Perdeu-se a referência. Se for hipster eu vou! Tá ok.

Não é a toa que artistas e subcelebridades globais sempre dão a cara nos festivais nacionais e internacionais, antes palco de criatividade, bandas em efervescência que deixaram sua marca nas gerações passadas.

Todos se vestem da mesma forma, vão aos mesmos lugares, seguem a risca os conselhos de blogueiras de moda, a maioria delas pagas pra dizer x ou y, que ditam o que é ou não bonito, é ou não usável – isso se alastra pra todos. Pode ser uma maquiagem...um estilo, céus! Onde está a personalidade de cada um?

Usar calça jeans e tênis hoje parece mais idiossincrárico do que vestir uma fantasia (todo mundo, de alguma forma, está montado de alguma coisa). Que tédio!

Geração do vazio. Tudo se mistura como as cores de uma palheta e condensam-se em uma só cor...nada.

Antes tínhamos várias cores, vários estilos....agora, o que for modinha dita o resto. Fica difícil de fazer amigos e conversar. (Podem discordar, tá?)

Os livros parecem estar em extinção, basta dar um google. As notícias e a substância que não muito tempo atrás geraram tantos movimentos ricos, muitas vezes saídos de cidades minúsculas e caipiras, a falta do que fazer e o questionamento do vazio fez nascer bandas incríveis (exemplo: Pixies, Iggy Pop and the Stooges, tá bom até aí?).

Na Inglaterra (Manchester, por exemplo) fez surgir, Happy Mondays, Stone Roses, The Smiths....a razão? Talento, questionamento, tédio e o feio, em regra.

Todo mundo é igual. Tudo é tão careta. Fumar é feio. Todos têm que fazer academia e ouvir a música da galera, a mesma das grandes empresas que são as "bandas" hoje (Rihanna, Taylor Swift, Maroon 5, Katy Perry, etc). O que eles dizem vira lei instantânea a ser seguida. O que anunciam (produtos, "música", estética...cópia da cópia da cópia...é desesperadamente almejado e tem muitas, mas muitas visualizações mesmo, o que lhes dá tanta fama e crédito. Pode colocar também as Kardashians no bolo (que nem cantar cantam, nem mal! - risos). São sustentadas (reforçamos) pelo vazio de bilhões, e ganham mais bilhões (money) com isso.

Arrastam multidões com seus fãs saradinhos, modernosos (?), super saudáveis, quase todos com a mesma opinião..onde está todo mundo? É é onde quase todo mundo pertence.

A competitividade do nosso tempo refletiu na desesperada necessidade de aceitação.

Ao invés das ruas refletirem comportamentos, as passarelas destruíram o que existiam nas ruas, deixando todo mundo com a mesma cara. Vazio no pensamento, roupas da moda, todo mundo diferente. E igual.

Kardashian fazendo capa de editorial da Vogue? Uma das trinta pessoas mais influentes do mundo, segundo a Forbes? Andy Warhol treme na tumba. Será que ele, que acabou deixando tudo disponível pra todos com a pop art, consiguiria viver nesse mundo?

As opiniões de um arrastam multidões. Pouco espaço se sobra pra algo novo e inovador. Bem pior que droga, porque todos estão entorpecidos pelas informações uniformes, quase todos tem o mesmo "gosto", pouca opinião e quem não concorda com o que nos foi oferecido é facilmente repelido por não fazer parte do status quo.Ao invés desse se juntar a algo produtivo, quase nada se produz diferente do que se tem...é um buraco negro!

Eu pertenço à geração do vazio, mas infelizmente não posso largar quando eu quiser.
Goodnight, Andy.

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