Prosas do Upperground

por - 11:00

2507201503

I
É preciso evitar os simplismos,
pais de todos os agudos entrecantos do fervor
onde cafetões prometem mil virgens aos paladinos da justiça
e eu, discípulo ateu do Papa Mautner Kaos fico saudoso de meu luminoso sendero
nesse lugar onde existe a nefasta ideia chamada Crença
resignação dos auto proclamados fortes, e,
pilar da mais nítida fraqueza humana

/ do piamente acreditar em algo até o ranger dos dentes /

Então a pergunta que sempre se faz é: - Como crer nesta Pantomima
tragicomédia dramática macunaímica que dissolve
por entre as órbitas dos incautos
a sangrar desde os estupros legalizados das indígenas
nestas santas terras de Arnaldo, nosso Baptista
essa crença de reação química desequivalente
onde os átomos desiguais formam vilões e heróis no contra luz da história

II

E por onde anda a benevolência
velha licenciatura tornou-se?
o anterior sempre pesa em sensações puras
de incapacidade
o que há de vir... Outro fracasso, uma outra porta
podres corpos pífios, órgãos no ser humano
escondido em metafísicas nuvens solitárias
sonhos eróticos a rasgar o cérebro morto
esperando andar no colo populista assassino
da Policia Militar

III

Reflexo deixado no ônibus parado
espelho localizado na saída de onde corpo parte
andar pelo quase passeio turístico em três e oitenta,
o reflexo do ônibus ao longe triturando ossos do crânio
- pelo centro,
coração a se comprimir no peito pela força de duas mãos
como se fosse explodir ao passar pela Duque de Caxias
esquina com Barão de Limeira, naquele prédio onde estava
a outra parte d'alma,
percorrendo as engrenagens da besta cidade
em seus nós de entranhas
usando apenas uma armadura de ferro & concreto protegendo a pele
banhada nos alagamentos, queimada pelo sol dos Replicantes
enquanto se pensa alto por debaixo das rachaduras
acamado pelo encouraçado ego distante das cachoeiras de concreto
a esperar o pedaço da laje acertar diretamente sua nuca

IV

São cães raivosos
usam as patas em buzinas & panelas
são cães raivosos iletrados
iletrados propositais
iletrados pela miséria
iletrados pela conveniência
iletrados pelo rancor, inclusive até, pela ineficiência do governo
entretanto eu, poeta de anarquia cartomante,
religioso do Kaos de Mautner
jamais compactuarei com essa horda canina
espumando crença na justiça divina do homem branco
na crença em um juiz megalomaníaco Global Candidato
me recuso com todas as minhas entranhas
Não irei jamais!
E prevejo com a mais absoluta cara de pau
que o ensolarar-se nascerá dentro das cinzas de panelas mortas
nos cadáveres deixados pela indignação seletiva
onde os caminhos do mundo subterrâneo serão calcinados por libertárias
dissolvidas almas outrora escravas desse sistema de mundo pós moderno
que venham todas as almas do mangue ideológico

V

Venham!
Selvagem povo maltrapilho de essência humana límpida
não mais escondidos longe das pinturas dos bairros altamente monetários
ode ao sobreviver aos trancos e barrancos nas marginais
ensinem ao resto de nós a língua nativa
do viver em harmonia com o desacato nazista criado pelo amante de Maria Madalena
guiem essa nação cega e falha a degustar o cotidiano
cercado farpado segregacionista
pois sois vós selvagens a evolução do vácuo onde se encontra nossa alma
não mais nas gravatas e discursos
necessitamos agora do pó calcificado de cor negra debaixo das unhas
gozando da liberdade do não ser
coisifiquem seus algozes
filósofos detratores elitistas e descolados
pois são a quimera alquimizada em trovão da evolução
o polo centrípeto desenhando um raio de salvação em cerebelos brancos
unam-se selvagens mendigos marginais negros gays lésbicas canabistas cocainômanos
sedentaristas poetas fracassados escritores do Kaos
malocas favelas comunidades entidades perdidos da psique
periféricos habitantes dos buracos viadutinos mascarados arlequins sem baile
mães órfãs pela estocada do fuzil em seus úteros vazios
sem teto sem lar sem terra sem meio sem começo sem futuro enfim
porque precisamos do ensinamento dessa brisa de preguiça
da intermitente chuva ebulição do mormaço posterior na caminhada
das gotas varrendo os restos de pólvora dominical
da água embalando o ninar do apocalipse que não chega aos créditos
das trovoadas que cercam a capela roxa no horizonte
absorvendo limites
destruindo limites do pensar
dos raios aquosos desmoronando barreiras do inconsciente nas sinapses
da chuva horizontal antifísica que se aninha no seco peito
pois é na chuva que a máscara da falha humana se desfaz.

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