A humanidade nasceu da morte e todos nasceremos também

por - 11:01

Xóõ

A gente cresce ouvindo que o ser humano é fruto de uma espécie de evolução e, tal como ele, a sociedade, como seu produto, segue a mesma linha linear de "progresso". Mas de onde parte esse pressuposto? Quem somos nós para nivelar e hierarquizar as civilizações como avançadas ou retrógradas? José Carlos Rodrigues, escritor e professor da PUC-RJ, questiona em Antropologia e Comunicação: Princípios Radicais muito dessa questão etnocêntrica de definir as "sociedades estranhas" às nossas lentes: "Nossas filosofias incutem quase sempre em nossas mentes a idéia da supremacia dos humanos sobre as outras formas de vida, assim como a da necessidade de escravização e exploração destas como condição da realização da nossa potencialidade." (p.86) "A maioria das sociedades, no fundo, no fundo, não aprecia os 'estrangeiros' e os 'diferentes', censurando-lhes a maneira de ser e exibindo sentimentos de hostilidade em relação a eles." "...esta é uma maneira positiva de casa sociedade afirmar para si a própria identidade: 'nós somos diferentes do diferente; nós não somos eles.'" (p. 129). O que isso tem haver com a Xóõ? Tudo!

A banda faz de um cd gravado em sete dias, um registro singular do caos que o ideal etnocêntrico de avanço, adotado pela sociedade ocidental, vem causando na vida dos indivíduos da idade contemporânea. Essa questão vai sendo levantada durante o disco inteiro e já fica evidente a partir da primeira música (diga-se de passagem, a mais incrível composição do álbum) em que, após teorizar a humanidade através da morte e do caos, subvertendo o modelo escolar ao qual somos moldados a destrinchar a história a partir da vida, Vitor conclui a faixa com: “O céu está perto demais das nossas cabeças, a nos afogar e a nos afligir/ (...) O século XXI é um recém nascido que já nasceu envelhecido”.

Somos questionados recorrentemente sobre o rumo que daremos a nossas vidas acadêmicas, profissionais e financeiras, o mesmo acontece sobre os nossos relacionamentos, nossas crenças e ideologias. Desde crianças somos submetidos a um modelo anacrônico de que nossos dramas psicológicos não passam de mera birra, quando crescemos esse modelo se torna ainda mais coativo para conseguir um bom cargo ou determinado status. O mais assustador é quando percebemos que já deixamos de ser somente os domados, para sermos os domadores da psicologia alheia, e então passamos a perpetuar esse paradigma repressor e, como disse o José Carlos, a estranhar quem o subverte. Pra onde estamos avançando?

Se “Passado Futuro” conta a história da humanidade até agora, “É tudo roubado” fala da terrível carga de imediatismo a qual somos submetidos (tal como Negro Leo conceitua em "Niños Heroes": “as velocidades rápidas estão cheias de nexos policiais/ (...) a terra é lenta demais para um computador/”), “Cansado” já fala em um ser humano cansado com toda essa pressão e o estranhamento ao qual é submetido ao questioná-las, “Gente boa” é o começo de uma subversão ao cansaço e já demonstra perto do fim uma espécie de rompimento com a calmaria, partindo dessa mesma persona que vem sendo construída ao seguir do disco, que é estranhamente interrompida com “Eu te amo” cujo atmosfera parece desentoar de todo o disco, atmosfera essa recuperada em “Mudança”, que parece mais reflexiva, contudo ainda sim angustiante, até explodir no punk violento e voraz de “Questão de opinião”, findando o disco através de um dos elementos mais engraçados e interessantes: os créditos. Lembram da última faixa do icônico Beleléu, Leléu e Eu de Itamar Assumpção? Seria uma influência?


O investimento em texturas sonoras cujo resultado sintetize nossas angústias diárias está presente na maioria das músicas, criando sempre uma harmonia com o conteúdo das letras existenciais e provocativas, todas compostas por Vitor Brauer, da lendária Lupe de Lupe. A bateria investe numa corrente mais minimalista, as guitarras ora se confundem com o noise dos synths, ora swingam com um baixo marcante, mas as vozes ácidas e violentas são, sem dúvidas, as que mais se destacam sobre o caos organizado, justamente por contrapor essa espécie de organização. O release do álbum fala sobre influências de cada um dos integrantes de uma banda grande com influências divergentes, certamente o resultado é uma melodia com uma leve carga de teor moral e ritmos bem esquematizados, além de uma gravação nítida e boa mixagem, algo bem diferente do que estão acostumados os fãs da Lupe e/ou os fãs de noise. A já citada “Eu te amo”, por exemplo, molda um sucesso radiofônico, contudo os pecados do álbum não conseguem, nem de longe, sequer retirar a atenção dos méritos.

Muitos irão questionar a legitimidade das indagações do disco, a disposição das músicas, os arranjos em si, a formação da banda e, entre mil outros pontos a se re pensar, a produção do álbum. Eu prefiro me ater as sensações sinestésicas que o mesmo causou logo na primeira audição, a estruturação do ambiente trabalhado e principalmente a persona que reflete uma mazela cada vez mais comum naquilo que ironizamos como sociedade pós-moderna. Avalanche de conteúdo, de cobranças, de ideologias... Tudo por uma questão de avanço. Tudo pelo progresso. No fim começo todos morremos.

Texto por Igor Marques

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