A mulher do fim do mundo mostra com qual mundo ela quer acabar

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[caption id="attachment_27966" align="aligncenter" width="695"]Elza Soares Stéphane Munnier/Divulgação.[/caption]
No último sábado (9), o aguardado show de Elza Soares, a mulher do fim do mundo, desembarcou em Belo Horizonte. Com ingressos esgotados, e muitos problemas em relação a comprovação de meia-entrada na porta, o teatro lotado mostrava uma plateia relativamente diversa, que incluía até bebês.

Acompanhei a criação e lançamento desse álbum com muita atenção, ainda na Inglaterra. A Mulher do Fim do Mundo figurou em diversas listas de melhores discos do ano passado, não sem razão, e era um dos materais que mais me dava banzo no meio do frio inglês. Não tive a menor dúvida de que iria para esse show, mesmo a entrada estando acima das minhas possibilidades. Isso tudo para dizer que, seja lá como for, essa pretensão de resenha será passional.

Elza já não pode caminhar e dançar pelo palco. Devido a um acidente (e também aos quase 80 anos, 60 e tantos deles no palco), ela colocou pinos na coluna. Isso não diminui em nada sua presença soberana, sobre um enorme trono, uma saia que cobre boa parte do palco, feita de sacos de lixo, remetendo diretamente a sua primeira aparição pública no show de calouros de Ari Barroso. A sua voz poderosa, a autoridade da sua presença, deixaram o teatro de pé assim que as cortinas se abriram. Eu vi um quase sempre educado e contido público mineiro sair de suas cadeiras, cantar e gritar música após música.



[caption id="attachment_28027" align="aligncenter" width="695"]Elza Soares Stéphane Munnier/Divulgação.[/caption]
Com uma banda excelente (ainda que o som não estivesse 100%), e com músicas pensadas para ela, Elza Soares desfilou seu primeiro álbum de inéditas comandando público e colegas de palco. Falou pela democracia (ela e seu então companheiro Garrincha tiveram a casa fuzilada pelos militares e saíram do país por alguns anos durante a ditadura militar), pelos negros (numa interpretação emocionante de "A Carne", gravada em seu penúltimo disco Do Cóccix Até o Pescoço), pelas mulheres. Pediu barulho por uma luta constante e que nunca acaba. Acordou a plateia com seus constantes gritos de “Acorda!”. Junto ao cantor Rubi, deixou sem fôlego uma assistência já em suspenso com a interpretação de "Benedita". Colocou o teatro abaixo com o provável hit desse disco, "Maria da Vila Matilde".

Desde que me lembro de Elza, essa é sua persona mais bonita e mais forte. O cabelo roxo, enorme, o figurino preto, que mistura látex e a saia cenográfica, as músicas que contam de sua história e de seu mundo, dão à presença de Elza um poder que não vi em apresentações anteriores. A emoção evidente do público também demonstra que mais, que dar a volta por cima, como ela cantou em seu primeiro bis, Elza (re) conquistou o público brasileiro.

Mulher do fim do mundo, Elza diz que vai cantar até o fim. Creio. Na verdade, desejo. Elza tem uma voz belíssima, mas esse show mostrou que isso vai além da potência vocal ou do estilo. Elza é ela todo uma potência, uma musa da nova geração do Samba Sujo, mas de várias gerações por sua música e por sua história. Elza nos lembra de continuar na luta, de reconectar com outro, de que o amor ainda pode vencer esse ódio latente, e que se a carne mais barata do mercado ainda é a carne negra, ela diz que não é mais tão barata porque a luta já fez muita coisa avançar.


Quando parecia não caber mais nenhuma emoção, nenhuma sensação, no furacão das duas horas de espetáculo (como bem comentou um amigo, o nome show pareceu perder muito do seu sentido nessa apresentação), um segundo bis começa. No palco, na frente de Elza, na frente da banda, as mulheres da Ocupação feminista Tina Martins erguiam suas faixas enquanto uma segunda vez de "Maria da Vila Matilde" fechava o tom de protesto do show. Impossível de definir.

Reclama-se muito da passividade na arte hoje. Elza mostra que não existe nada de passivo na sua música. Ela é hoje a mesma guerreira de quando respondeu, aos 13 anos, no famoso programa de calouros: “vim do planeta fome”.

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