Crônica sobre um dia chuvoso ao som de Sá e Guarabyra

por - 14:00

[caption id="attachment_28042" align="aligncenter" width="695"]sá & guarabyra Foto por Igor Marques[/caption]
20 horas, sexta-feira, 15 de abril de 2016, eu estava gripado e com corpo mole. O Recife Antigo, que há essas horas da noite já deveria estar começando a ficar movimentado, se acabava em chuva, mas isso não parecia ser um empecilho para o público que lotava a Caixa Cultural e já cantarolava antes mesmo do show as músicas da dupla mineira Sá e Guarabyra, que vieram ao Recife para uma maratona de cinco shows, munidos apenas de violões, viola e bom humor.

A dupla mineira, apontada como a fundadora do rock rural brasileiro, escolheu um teatro pequeno e um show intimista para a turnê comemorativa dos seus 40 anos de carreira, permeando entre grandes sucessos telenovélicos, músicas mais recentes e composições que, segundo eles não eram tocadas há tempos. O incômodo ficou por parte do setlist rígido, idêntico ao descrito nas centenas de folhetos que acompanhavam o material de divulgação dos shows da dupla, cujo repertório poderia explorar um pouco mais da flexibilidade no longo acervo de composições dos músicos ou mesmo uma embaralhada nas músicas para o show não parecer tão mecânico.

Contudo a apresentação foi muito bem conduzida pela técnica invejável com os instrumentos, tanto por parte do Sá e sua viola de 12 cordas, quanto com o violão do Guarabyra, em paralelo a euforia do público, cujo coro ecoava no teatro, em meio aos grandes sucessos.

Cumprido mais um dever de casa, ambos se despediram do público e, a partir daí cada um tomou seu rumo. Entrei no camarim para uma breve entrevista e pude conversar com o Sá, já que o Guarabyra já havia partido em direção ao hotel. Num papo intercalado pelos carinhos dos fãs, suas selfies e seus lps prontos para serem autografados, o Sá conversou um pouco sobre a trajetória da banda, relação com internet e até mesmo sobre política.

SÁ-GUARABYRA

Qual a relação de vocês com o termo Rock Rural? Numa entrevista o Zé Rodrix comentou que o termo surgiu de um trecho de uma música dele...

O nome nasceu da música “Casa no campo” e aí o pessoal  pegou essa... Como a gente tava misturando, né, as raízes do sertanejo brasileiro com o folk rock americano, isso aí caiu como uma luva pra ser o nome da parada.

Vocês se dão bem com esse termo?

A gente teve que dar uma de Zagalo, tivemos que engolir. (risos) Tudo parece que necessita de um rótulo. Mas veja, você viu o show, quantas músicas você viu que não são nem rock, nem rurais, ou as vezes não tem as duas coisas juntas?

Outras sim, demos um exemplo no início do show. A primeira canção da estrada e “O Viajante” são típicos do que se chamava de rock rural, que na realidade, talvez o melhor nome fosse “rock de estrada” ou “rock rural de estrada”, porque tinha sempre esse componente da estrada. Dezenas de músicas que a gente gravou falava de viagem, porque foi quando a gente justamente caiu. Primeiro nós já tínhamos vontade de cair na estrada, depois caímos na estrada tocando e aí é que partimos mesmo para ver a realidade daquilo que a gente tava imaginando que seria. Mas eu não refugo mais esse rótulo, na realidade. Acho que ele não define direito o nosso trabalho.

Então, se tu pudesse definir o som de vocês mesmos, seria rock de estrada?

Olha, hoje em dia, por exemplo, a gente faz coisas completamente diversas do que a gente começou. É claro, 40 anos de carreira, sabe... Cê tem que se reinicializar, então rock rural, hoje em dia, não seria um nome próprio pra isso aí, mas talvez defina legal o que é esse show.

Nesse show você toca com uma viola de 10 cordas e um violão, né.

Toco uma viola de 12, mas eu fui o pioneiro em eletrificar a viola caipiria de 10, né? Eu ouvi o Heraldo do Monte tocando naquele festival disparada, e fiquei fascinado pelo som da viola de 10, aí comprei uma e taquei um captador nela. (risos) Aí botei até um pedal na viola, fiz miséria nela.




Percebi que tu usa um pedal ali, meio escondidinho. O que tu usa nele?
Eu uso um chorus e uso também um vocalizer pra reforçar a voz. Boto um pouco de delay nele. Ai fica aquele som do John Lennon, no “Imagine”, sabe como é?

Qual a relação do Sá e Guarabyra com a guitarra? Vejo que, apesar de ser um instrumento presente em algumas das composições de vocês, como no álbum Nunca, que contou com a participação d’O Terço, ela não é dominante.

A gente parte do acústico pro elétrico. Esse show acústico é exatamente o que acontece lá em casa. A gente começa assim. Mas a gente sempre teve guitarrista. Com a banda a gente tem um guitarrista heavy metal mesmo. Ele toca pra valer.

Eu fico curioso pra saber: o que você escuta do que é feito atualmente?

Sá - Cara a gente escuta tudo. Do brega ao chic. Atualmente eu escuto direto o Steely Dan, é o favorito da minha vitrola. Agora dos mais recentes eu tenho escutado Coldplay, Amy Winehouse, eu adoro a Amy Winehouse, acho uma cantora fantástica e que utiliza demais as variações... O batera dela deve ter aprendido com o Steve Gadd, ele toca altas variações dentro do mesmo tema. Eu ouço no carro, o tempo que eu tenho é no carro. Eu recebo dezenas de CDs que o pessoal me entrega nos shows, eu vou botando no carro pra ouvir, eu ouço coisas assim, do pior até o melhor. Ouço pessoas que me surpreendem, ouço pessoas que me decepcionam e vou ouvindo aquilo tudo e vou tentando ser uma espécie de sempre livre da música, absorvendo tudo.

Qual a relação de vocês com a internet?

Eu tenho vários parceiros na internet, né? Gabriel Sarter, Zé Renato do Boca Livre, Zeca Baleiro, Ivan Lins, todos esses eu fiz músicas via internet.  Às vezes é bom terminar a música presencialmente, mas pelo menos começar pela internet é tranquilo. Eu vivo logado.

É muito estranho isso, né? Porque, na realidade eu acho que está se armando um novo tipo de gente que vive na tela, não interessa a plataforma, interessa a tela. A tela tá aqui no celular, no iPod, no laptop... tudo é na tela. Nós estamos criando a civilização da tela. Sem a tela não conseguimos existir. Se acabar a energia do mundo de repente e você não tiver uma tela pra olhar, aí você vai voltar aquele tempo que eu conheci. Eu fico pensando, cara, como é que pode, eu tinha que enfrentar fila de banco pra pagar conta! (risos) Isso é inadmissível, parece que é um negócio da idade da pedra, no entanto isso é recente, cara! (risos)


A música de vocês tem algo atrelado a política. “Sobradinho”, por exemplo, é uma canção protesto contra a represa homônima. Tem todo um teor político envolvido. Vocês passaram pela ditadura de 64. Eu queria saber tua opinião sobre o impeachment.

Olha, eu acho o seguinte, eu acho que o governo Dilma foi um desastre. Eu votei muito no PT e eu esperava muito mais do PT do que isso. Eu fiz a campanha do Aécio na última eleição, mas eu não sou inocente. Eu acho que a parte jurídica do impeachment tá me cheirando... Eu passei pela ditadura, né cara... Então hoje eu não sei se sou um “coxalha” ou um “petrinha”, porque eu acho que o impeachment não vai resolver nada, vai botar no poder gente que não deveria estar no poder.

Mas o governo Dilma foi um desastre, mesmo. O PT era um partido que a gente confiava e que achávamos que iria mudar realmente alguma coisa no Brasil. Não mudou. Lula governou com bancos e grandes empreiteiras. Isso aí não é esquerda. Não é a esquerda que a gente sonhava. Não é também aquela esquerda populista barata, tipo essas repúblicas Bolivarianas, que cheiram aquelas velhas ditaduras latinas, que tinham aqueles generais cheios de galões. Mudou só o aspecto dos generais. Na realidade as repúblicas bolivarianas são uma tentativa de ditadura, porque tentam o continuísmo a todo custo e também não concordo com isso. Eu sou um cara que acredito na democracia. A gente realmente deveria deixar a Dilma acabar o governo dela, porque a maioria escolheu a Dilma, mas o Guarabyra já tomou o partido dele, ele é a favor do impeachment.

O PT pra mim é uma decepção completa total, eu votei no Zé Eduardo Cardoso, eu votei no Genuíno, eu votei no Lula e me vi na campanha passada fazendo a campanha do Aécio, que é tido como coxinha morta. Eu fui lá, botei minha cara a tapa, botei minha cara nos vídeos e coisa e tal. Fiz uma campanha efetiva pro Aécio. O Aécio é meu amigo pessoal e eu espero que ele não me decepcione. Mas eu acho que nenhum político é inocente. Tristemente a gente constata que no mundo inteiro, nas democracias você vê que a coisa é feita desta maneira. Onde tem dinheiro há corrupção. Vamos fazer uma exceção, talvez, dos países nórdicos, mas aquilo não é nossa realidade.

Mas agora, não acho que seja o rumo certo partir pra esse impeachment meio legal meio ilegal. Então não sou mais um inocente sobre isso. O impeachment vai passar e o país vai ter que conviver com isso e com o PMDB, que é um partido... Um saco de gato... Você não sabe quem é quem. Eu sinto nisso um oportunismo imenso de agarrar o poder a todo custo. Não estou de acordo com isso.

Há essa hora a chuva já tinha estiado um pouco, mas definitivamente poucos eram os persistentes em sair de casa em direção ao Antigo. Caminhei em direção a parada do ônibus, apenas observando as diferenças da paisagem rural que a dupla retratava nas suas canções, aos lugares onde elas reverberavam. Isso definitivamente não significa nada. Mas com certeza aquela não era a noite ideal para os jovens tomarem seus vinhos carreteiros, fumar uns cigarros e olhar o obelisco de Brennand ao nascer do sol. Mas sim uma noite formalizada para os casais que viveram os romances neo-bucólicos ao som do rock ‘n’ roll de estrada de Sá e Guarabyra.

Texto por Igor Marques

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