A quebra de estereótipos em "Zootopia"

por - 11:21

Rato da máfia

Zootopia desponta mais uma caprichosa animação da Disney. Só que dessa vez, após ensaios em produções anteriores, os estúdios provêm uma obra definitiva de discussão de gêneros e desconstrução destes. O que é interessante e vital para que o público infantil já se familiarize com estes conceitos desde pouca idade. Além de didática, a obra é ousada no sentido de não deixar subtendidas estas deflagrações de estereótipos, determinismos, sexismos e afins. Absolutamente nada fica nas entrelinhas. Tudo é e está muito claro, tal qual como se configura a realidade fora das telas.

A personagem principal do longa é uma coelhinha que luta por lugar ao sol dentro da carreira que decidiu seguir. Judy é uma policial e enfrenta a descrença de todos, principalmente por ser fêmea. O chefe não confia em seu potencial e a subordina para funções que não lhe cabem. Por sua própria conta, então, assume sozinha um caso de desaparecimento. É daí que a produção começa a reverberar o grito por igualdade de gênero, além de pincelar seus primeiros traços como um verdadeiro noir moderno. Todos os elementos estão aqui: investigação criminal, um crime não resolvido, mistério, sugestão de romance, um anti herói, chefes da máfia e as reviravoltas típicas.

Referências a obras máximas da sétima arte também se fazem presentes. O Poderoso Chefão é a maior delas e de longe a mais interessante porque configura a relação entre mito e realidade. O chefe da máfia é deflagrado como um pequenino rato carcamano que carrega sotaque e uma rosa no paletó, assim como o icônico Don Corleone, da trilogia de Coppola. Essa é uma das tantas desconstruções de estereótipos que o filme propõe ao longo da projeção. A série Breaking Bad também é homenageada, porém de maneira mais tímida, numa sequência em que “lobos em pele de cordeiros” são descobertos num vagão manipulando substâncias ilícitas.



[caption id="attachment_28064" align="aligncenter" width="695"]Preguiça <3Brasil<3[/caption]
A obra de animação engata também críticas extremamente ácidas ao funcionalismo público dos Estados Unidos. Mas como não haver identificação imediata com o Brasil? O departamento de trânsito de Zootopia é unanimemente composto por bichos preguiça, funcionários estes que não negam o nome. A lentidão nos afazeres do trabalho e o corpo mole reinam no local, além de fazer render uma das melhores cenas do filme e ótimas risadas. Afinal, tornar risível certas disfunções sociais e instituições falidas, por vezes, é aliviador.

O filme tem um ritmo que funciona, entretanto o ápice dramático inexiste, deixando uma lacuna numa história que certamente pedia comoção. As reviravoltas se dão, o mistério é solucionado, Judy sai como heroína. Mas nada seria do homem, ou neste caso, o animal (risos), sem a parceria de um amigo, a raposa macho, Nick. A sugestão de romance acaba tornando-se amizade e gratidão. A pitada de sentimentalismo não acontece, mas porque pedir mais de um noir moderno animado e desconstruído? Zootopia é tudo isso ou o que você quiser.

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