O 365 Girls in a Band invadiu a Galeria GTO

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Entre os dias 3 e 8 de maio, os coletivos 4y25, Editora e Piolho Nababo foram responsáveis pela 1ª semana da Mostra Curto Circuito - Conexões Imprevistas. A convite do 4y25 fiz uma playlist com uma parte dos álbuns publicados no 365 Girls in a Band para compor a mostra. A experiência de sair, pela primeira vez, do espaço exclusivamente virtual, me deu a possibilidade de pensar nesse projeto um passo além de fotos, vídeos e textos. Lidar com meu desconhecimento técnico, descobrir o prazer de fazer playlists e me deparar com mais de 6 horas de música com menos de metade dos trabalhos postados foi muito estimulante. Mas estar dentro da mostra ultrapassou toda essa experiência individual.

O Palladium – onde acontece o evento, que se prolonga até o dia 5 de junho – já foi um famoso cinema de rua em Belo Horizonte. A reforma para transformá-lo em um centro cultural do Sesc MG resultou em um dos lugares mais antipáticos e pouco convidativos da cidade. Como quebrar a barreira de uma galeria que fica no centro da cidade mas se coloca acima/fora desse centro?

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Na Galeria GTO (que tem um acesso um pouco escondido e cujo acesso central, pela portaria da Av. Augusto de Lima, nunca vi aberto) as paredes brancas móveis foram afastadas, expondo a enorme janela de vidro e deixando passar luz e ventilação natural, além dos ruídos urbanos. Esses ruídos iriam virar uma intervenção sonora em algum dos dias e também funcionariam como base para rimas de rap improvisadas. A exposição foi montada como oficina, só era possível estar ali participando. Não havia nada isolado para a contemplação.

O diálogo era uma constante e ultrapassavam as proposições da feira. É impossível começar discussões em que diferentes mundos/ideias se encontram e querer que isso se encerre ao fim do expediente da galeria. Debate, criação, execução se confundiam o tempo todo e se retroalimentavam. As paredes foram sendo tomadas pelas obras feitas na oficina-ateliê ou entregues voluntariamente pelos artistas, se sobrepondo desordenadamente. Sem placas explicativas, as paredes lembravam mais os muros urbanos, que tanto dizem e pouco se escuta. O ambiente asséptico da galeria era absorvido pelo ambiente caótico das ruas. Os embates eram palpáveis e o espaço, antes protegido e seguro, do centro cultural parecia engendrar ideias sobre as quais se devia ficar alerta. Um tipo de conflito – menos saudável – também passou a ser palpável.

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No meio de todo esse ruído, a minha playlist é só mais um elemento, que por vezes está ali e por vezes cede espaço a uma série de outros sons. E deixa de ser peça exposta para ser uma intervenção em conversa com a troca constante que o espaço excita. A experiência parece válida apenas como coletiva. De dentro do museu saem os zines para o protesto justiça só contra nós não é justiça, é ditadura e para a ocupação Tina Martins (e me pergunto se há um lugar melhor para o 365 Girls in a Band estar do que em meio a essas mulheres que brigam pela segurança de outras mulheres). Assim como a rua entrou na galeria, a galeria também precisa ir à rua.

Ao fim de uma semana, pareciam ter passado pelo menos 3 meses. No dia do encerramento, o contraste entre o público que deu vida à galeria e àqueles que esperavam o espetáculo da Cláudia Raia – que aconteceria no teatro do mesmo centro cultural – era áspero. O uso do espaço – ordenado, controlado, esperado - versus a utilização do espaço – desregrado, orgânico, incalculado. Dos muitos diálogos que se inciaram ali, creio que nenhum se encerrou. De minha parte, sigo tentando digerir o que extraí dessa semana, o que faz desse texto uma parte do processo, não uma conclusão. Se o curto-circuito foi de alta voltagem, creio que as conexões imprevistas ainda estão por acontecer.

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