Radiohead: sentimentos nascidos na casa de muitas portas cerebrais

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[caption id="attachment_28073" align="aligncenter" width="695"]radiohead daydreaming Reprodução[/caption]

O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma muito antes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que possa alcançar a consciência individual.
Carl Jung

Em um dia em que a tecnologia parecia algo simplesmente inalcançável e a mente humana era morada de todos os sonhos possíveis, um paciente de Carl Jung adentra sua sala e transforma a vida do médico em algo inimaginável. Relata o paciente de outrora um sonho, em que perdido, sem saber exatamente de onde vinha ou para onde iria, abria uma série de portas as quais o levariam para outros lugares dentro deste mesmo labirinto, porta depois de porta ele as abria, adentrava em diferentes cômodos deste prédio infinito. Em desespero acordava como se seu corpo não mais estivesse onde deveria estar e sua mente mais perdida do que quando iniciou-se o sonho.

Jung ouviu. Obviamente iniciaria uma série de anotações, porém muito mais intrigado ficara. Não tardou para que uma série de pacientes adentrasse seu consultório com os mesmos rostos aflitos, os mesmos sonhos infinitos e as mesmas portas. Depois de algum tempo percebeu um padrão e deste elaborou alguma teoria de como sonhos mostravam que o ser humano poderia acessar seu subconsciente enquanto dormia. A casa de todos os quartos descritas por inúmeros poemas de Emily Dickinson, a morada do consciente, subconsciente e suas inúmeras portas a abrir outros mundos que abriam outras portas.

Essa é a premissa inicial de "Daydreaming", o novo single da Radiohead, e logo no começo vemos Thom Yorke andando por um túnel, ele à frente e bem ao longe uma inúmera quantidade de pessoas que desfocadas não alentam nenhuma imagem sobre quem são, seu gênero ou cor. Todas as pessoas convergem para a mesma primeira porta – aberta – que o vocalista adentra, a primeira de centenas. O fato de não serem rotuladas com específicos gêneros ou cores é algo importante, pois ao nascer uma das ideias centrais do vídeo, o empoderamento, haverá uma quebra desse padrão sem gênero. Mais isso é só mais tarde, por enquanto apenas a metáfora em que Yorke adentra o córtex humano.

Pronto, eis aí a primeira de uma centena de imagens que não só ficarão cravadas em sua mente mas darão pistas do caminho por onde a banda quer nos levar. Posso só adiantar que dessa vez ela concebeu a esperança como obra de arte, esperança mesma que vai fazer seu peito ser revirado do avesso enquanto tu’alma anemofilizada será por ela.

A localização dos controles dos jatos d’água, disparados em caso de incêndio é a escrita ao lado da primeira porta. Essa é uma informação importante a ser guardada no decorrer desta curtíssima metragem. E que só se juntará à narrativa ao final.

Bem-vindos ao mundo onde filmes musicados são rodados ao contrário, algo já feito em The Bends, porém desta feita de maneira evolutiva, um organismo complexo, que nos leva ao funcionamento do próprio córtex cerebral da banda. É por isso que se justifica a primeira ação de Thom Yorke na narrativa.

Ao entrar pela primeira porta, que o leva para um corredor dentro de um outro prédio, - aqui existe a primeira citação cinematográfica de Kubrick e seu hotel com a planta impossível de O Iluminado – Thom olha para trás. Existe então um convite para que se vá com ele na exploração do subconsciente humano; além da obviedade que esta viagem não se faz olhando-se para trás; - de fato Thom não olha pra trás em nenhum outro momento do clipe.

Nesse momento a sinapse já está em mesma velocidade da abertura das portas, você vai com ele por dentro dos cíngulos, e é sem volta. O Radiohead sabe disso e os olhos de Thom mostram que a conexão entre quem assiste e eles está fechada. Começam então um explodir referencial de possibilidades, ciclos de pensamento sobre o que se passa na narrativa sempre guiando-se pelas feições do vocalista. E ele é responsável pela reação mais comovente dentro da história, como veremos mais adiante. Agora porém estamos em uma sala onde um grupo de pessoas estão como uma família em diversas atividades envolvendo o interagir, conversar e pensarem juntas. Todas mulheres. Quadros com signos e um desenho colado na parede que parece com o mapa da América do Sul em cores dos movimentos dos direitos éle gê bê tê, todas elas. Começa aqui a narrativa da fábula, tal qual o primeiro clipe deste novo disco, "Burn The Witc"h, uma história sobre o ser humano em relação à sociedade que lhe cerca, quais os efeitos dela sob ele, e, nesse novo disco mais especificamente, uma saída. Profecia apenas… Profecia poeteira nesta prosa. Não vou falar sobre a teoria dos discos em trilogias, não hoje.

Captura de Tela (40)

No primeiro lançamento, a narrativa inicia-se de uma maneira mais brutal do que em "Daydreaming":  aqui a intenção não é ser brutal, aqui a palavra que saltará aos olhos é compaixão. Na sala repleta de mulheres a trama se torna universal, não existe a necessidade de homens para contar o que se quer dizer. Homens durante todo clipe tem um papel secundário. Não interagem com outras pessoas, estão perdidos em corredores escuros, andando sem reflexo ou sem forma, porém identificáveis com figura.

… (no minuto dois e dezesseis, Thom vai abrir uma porta e no canto superior direito existe a sombra de um homem andando na direção de uma parede e ao chegar ao fim bate e volta, como se fosse uma carrinho de parque, inerte de emoções, apenas a binariedade dos dois dígitos, mais nada)...

Assim tudo torna-se de todos, a história envolverá a formação de sentimentos universais, uma sala bem iluminada, como na letra da canção: “The white room, where the sun comes through”.

Espero que você saiba pelo menos que o nascimento de sentimentos humanos envolve lágrimas.

"Vocês todos estão comigo?" Parece dizer Yorke. Quando a próxima porta é aberta você tem mais uma chance de escolher sair dos giros e acordar. Ou aprofundar-se nas escadas ascendentes (que ao final do filme se tornarão descendentes). Uma mulher mais vai te mostrar ao fundo que não se deve pegar a saída, lembre-se aqui elas mostram o caminho. A ideologia do disco nesse instante aflora e o cenário então muda novamente…

Uma pequena sala e a primeira escada na trama marcam as andanças do vocalista pelos corredores de um hospital. Outra sala do subconsciente e vemos uma mulher lendo jornal. Somos apresentados ao novo nível dentro da narrativa, as cenas representam reações involuntárias do cotidiano, algo que todos nos fazemos sem ao menos perceber, como ler, conversar, abrir portas. Escolhas quase imperceptíveis que nosso cérebro realiza. Aquele mesmo cérebro que você está a visitar por dentro nesse momento.

Todas elas contam com reações de Yorke. Nesta cena ele entra e olha automaticamente - diretamente ao jornal, não encara a mulher. Sabe respeitar o espaço dela, e como veremos logo depois, sua atitude não é por não perceber a figura feminina. Revela-se após a passagem do vocalista pela sala um olhar em seu rosto mostrando força, como se ele entendesse o conceito de empoderamento. A expressão tornando-se mais forte é a pista deixada pela banda. E não se espante quando você achar que a mulher está apenas parada, pois o arco é cíclico e a escolha do que ver será sempre sua. Uma narrativa em que existem ciclos e saídas.

Entretanto aqui cabe um travessão:

- A visão da Radiohead é sempre deixada clara. Parecem nos lembrar sempre que apesar das escolhas, o caminho seguido pela banda é mais interessante. E se pensarmos que o empoderamento é muito melhor que a tipificação de estereótipos, sim eles fizeram a escolha certa. Conseguiu sentir o nascer de um sentimento?

É só começo…

Fotos de familiares em demonstrações de afeto do lado esquerdo, o lado cardíaco, enquanto os primeiros versos são cantados. “Sonhadores, eles nunca aprendem, eles nunca aprendem, além do ponto onde não há mais retorno, não há mais retorno”. Um Thom quase perdido olha ao redor e descobre uma lavanderia onde pessoas conversam e interagem, uma vez mais reações orgânicas, não existem pads, celulares, ou telas. Nada de máquinas, apenas interação humana orgânica. Como em "Burn The Witch" ¹, a banda deixa claro o que está a criticar e mostra a saída exatamente nessa cena, primeiramente com a interação de todos e depois com aquilo que vai rachar teu coração em dois.

¹ : a sociedade pós moderna e sua vilania e em "Daydreaming" sua apatia em tempos de hiperinformação constante.



Aqui mais homens aparecem em segundo plano. Quase todos interagindo, construindo pontes humanas, os únicos dois que não o fazem são dois homens defronte as máquinas parados e que não interagem, nem quando parecem conversar entre si. O mundo pós moderno onde apenas homens tem ações é vazio, sem contatos diretos e perdidos. Professor Thom já te prepara para demonstrar do que o ser humano é capaz.

As pessoas dessa cena são todas latinas e a conotação política mais uma vez aparece como em "Burn The Witch", Ao caminhar por entre duas salas da lavanderia o vocalista encontra uma família ao lado de camisetas. Ele ao olhar para o vazio reflete um rosto de estranhamento ao mesmo tempo de raiva. Outra vez mais o pensamento toma dois caminhos diferentes. Seriam as expressões algo que ele vê que estão a fazer com imigrantes ao redor do mundo ou ele descrevendo como a sociedade trata pessoas de diferentes raças?

Entretanto como todo arco em ciclo contado nessa narração a resposta encontra-se dada logo em seguida. Thom ao olhar parece querer apressar-se, correr dessa visão doente, porém ele segura-se. Acalma o rosto. Deixa isso bem claro. Os olhos fecham de relance após lateralizados. A cabeça abaixa-se, o que faz de maneira pouca (pois Yorke passa o tempo quase todo com sua cabeça erguida sem perder um só acontecimento ao seu redor). Quando o rosto levanta-se é possível ver a empatia deflorar o rosto de Thom, do mesmo modo a compaixão e o amor.

Assim Radiohead atesta a posição sobre o que deve ser feito em relação aos imigrantes. A representação do nascer desses sentimentos vai te rasgar, cortará teu coração em dois durante muitas audições da canção sem a imagem e reverberará não apenas no lado político do clipe, também na percepção do que nosso cérebro deve fazer para destruir todo ódio e apatia que a sociedade pós moderna e suas sensações não orgânicas binárias proporcionam. Amor, compaixão e empoderamento usados como forma de Revolução. Explodir o mundo onde o ódio, apatia e depressão nos colocam na linha média dos passantes sem rosto, andando por corredores escuros, batendo e voltando em paredes que não nos permitem usar escadas.

Thom canta que sonhadores podem fazer essa transformação, além do ponto de volta, além da compreensão possível, sonhar o construir dessa sociedade é algo maior do que ele, você e eu. Antes de sair de cena, uma última olhada do vocalista a nos perguntar quão lindo é sentir o nascer disso no teu peito.

E nessa hora você vai chorar.

Rebenta assim a esperança em parto natural
Em inundação sem lama
Rodando teu diafragma do avesso
Enquanto a luz adentra aquela sala cantada nos versos

Isso é sentimento em formato visceral de uma forma que tua alma jamais irá recuperar-se. Vai viver dentro desse nascer enquanto for possível sonhar com um lugar onde essa mudança afete cada um de nós, moradores deste planeta a desgastar-se. Quando essa avalanche termina abre-se uma porta diretamente conectada com a natureza. Orgânica sinapse seminal após Thom cantar “The damage it’s done, the damage it’s done...”.

Aqui inconsciente leitor corre-se o risco de chorar de novo.

Porta após de porta as sensações deixadas são inúmeras. Quanto mais alto Thom vai, mais profundas camadas do subconsciente são atingidas. Completos ciclos vão formando-se por toda narrativa da canção. O caminhar passa por incertezas, desesperos e até incapacidades. Todas refletidas nas expressões de Thom.

radiohead-daydreaming

Seria possível despertar esse tipo de sentimento viajando como sonhador do inconsciente?

Essas incertezas serão todas sanadas quando uma menina resolver entrelaçar subconscientes distintos, desafiando a lógica do sonho contado até aqui. Um momento dentro da canção em que os acordes seguem um início assimétrico para ganhar traços mais epilépticos enquanto a confusão das cenas tornam-se maiores. Até que em mais uma casa cerebral depois de mais outra porta.

Vestida de azul uma menina passa correndo na frente de Yorke. As trocas de portas mais rápidas, uma grande fase R.E.M. assistida por todos nós. Trocas de espaços assimétrica, uma confusão veloz. E no canto esquerdo a menina reaparece, atrás de uma porta entreaberta. Fecha a porta com decisão.

Sim a decisão pode ser feita, escolher despertar esses sentimentos dentro d’alma indo por entre os giros do cíngulo é possível e a forma mais forte para mudar todo esse contexto de mundo hipercinético que vivemos.

Talvez isso explique o ar tibetano de Thom dentro dessa tormenta.

Agora começam retornos aos lugares já caminhados, portas que levam para outros pontos dos mesmos locais de outrora. Uma tensão surge, incerteza que deságua numa biblioteca. Calma, diz o rosto de Thom. Apreensivo ao mesmo tempo que suas feições vão tornando-se mais cansadas, como se estivesse entrando em um sono. Portas do inconsciente quase travadas, que escapam, como se nosso caminhante de cabeça de rádio estivesse aprendendo o abrir.

Então os últimos lances de escada. Toda a reverberação dos sentidos desacordados criando sentimentos vivos. Essa roda de ombro girando em círculos. Fim a marcar o início da viagem. Um último portão tão férrico como o túnel por onde Thom entra na primeira cena. Montanha de gelo remota por onde agora o caminhar é mais lento e a involução do deambular nítida. Yorke anda, cambaleia, depois engatinha e por fim deita-se.

A fogueira aquecendo o túnel menor que o vocalista passa vai protegê-lo enquanto ele deita-se ao seu lado. Agora as imagens todas estão rodando de trás para frente, assim como os acordes da canção. A possível expressão é “eu encontrei meu amor” ou ainda “a cada minuto, metade do meu amor”. Receituários do sono. Ele então vai fechando os olhos enquanto o fogo vai nascendo reverso.

Aqui entra a informação guardada sobre os controles dos jatos d’água na cena inicial. Água e fogo, o ciclo, o que nasce para que o outro desapareça, o início e fim ligados por uma conexão tão futurista quanto visceral. O filme é mostrado inverso, do fim para o começo e em formato cíclico de um sonho. O sonho dos pacientes de Jung, em que é possível a descoberta da humanidade dentro das câmaras e portas encefálicas.



Neste ponto, no qual a noite inexiste em iluminação, a luz do fogo é o caminho por em que uma sociedade feminista ensina a lutar contra tudo o que adormece a capacidade do ser humano em evoluir. Radiohead transcendeu mais uma vez, a evolução da canção em OK Computer, "Exit Music (For a Film)" e seu verso “sing us a song to keep us warm, today there’s such a chill, such a chill” nasceu em "Daydreaming". As portas do subconsciente humano estão repletas de sonhos onde residem o nascer da compaixão, empoderamento e amor.

A narrativa cíclica repleta de diferentes nuances é usada até para interpretação seminal dos objetivos da banda. Usando raciocínios mais lacanianos ou chomskianos pode-se automaticamente pensar na história como uma forma exemplificada do conceito em que o ser humano indefinida e eternamente preso ao mundo onde vive, assim sofrendo as agruras de existir dentro desse meio, tem como única saída o desgarrar-se da conformidade do normal, tornando-se um sonhador e assim fazer nascer todos as sentimentos que transcendem a existência. Sonhar como um pária da normalidade doente, um louco sonhador que nunca aprende e vai até o limite

Assim fecha-se o ciclo iniciado em "Burn The Witch". Não poderia ser mais genial a abertura desse novo disco da banda. O problema e a solução nos dois clipes, nas duas narrativas.

A esperança formatada nesta obra de arte vai fazer você olhar o mundo de outra forma. Como se fosse possível ver as plantas florescidas nas frestas dos prédios nascendo flores dentro do asfalto como descreveu Drummond. Enquanto teus olhos seguirão repletos de lágrimas quanto mais a vida te pulsar nas órbitas, em todas as portas e cenas que viveres.

As matas nascidas por entre os vãos
no concreto do Elevado
a empatia é a revolução por entre os nãos
no deserto do inconsciente humano
o medo
a depressão
e o ódio
são as contra ações da sociedade deste mundo
querendo transformar a mediocridade em genes

Eu prefiro os sonhos de Jung e a flor de Drummond.



O A Moon Shaped Pool acabou de sair e óbvio, está disponível pra download no New Album Releases.

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