Em "ULTERIOR" o Matschulat te convida a procurar os sentimentosescondidos no som

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ULTERIOR-ARTFRONT

O Matschulat lança nesta segunda-feira (27) seu novo trabalho, ULTERIOR. O disco, que tem oito faixas e que sai via Resterecords (do próprio Adam), conta com uma sonoridade densa. Usando gravações novas e também trabalhos antigos, misturando sintetizadores e samples produzidos por Adam, além de outras coisas, como seus próprios gritos, o Matschulat convida todos os ouvintes a trilharem estes caminhos angustiantes sobre a nossa própria existência.

Quando fui ouvir o disco, levei um tapa logo na primeira faixa, "Vexed". No disco novo, o primeiro álbum depois de uma série de EPs, o projeto começa barulhento e agoniante; não parte do caminho que leva da calma ao barulho e já apresenta logo as armas do noise que estão presente em ULTERIOR. "Restraint" soa como uma continuidade da faixa anterior. O que parece é que os caminhos sonoros do projeto, outrora mais focado em beats, enveredou pelo caminho dos ruídos sonoros do nosso dia a dia, o ruído que nós criamos diariamente e que parecem passar despercebidos. É só ver faixas como "Neighbourhood", com barulhos da vizinhança, fruto de nossa vida em sociedade.

Além da sonoridade de ULTERIOR, o conceito do trabalho tem toda uma carga existencialista da humanidade, abordando temáticas como solidão (mesmo vivendo num contexto social), repressão e vulnerabilidade.

Aproveitando o lançamento do novo rebento, batemos um papo com Adam, a mente por trás do Matschulat. Aproveita e dá play no álbum antes de começar a ler a entrevista.



Ouvindo ULTERIOR, parece que cada vez mais você está adentrando o lado noise e o ruido da música. Por que seguir esse caminho?

Não foi uma decisão. Sonicamente é algo que me atrai quase instintivamente. Mas é algo que sempre esteve lá, como você pode ver se você ouvir a faixa "Entropia" do meu primeiro EP, 4:48. Mas acredito que hoje em dia eu me sinto confortável o suficiente pra explorar caminhos sem ligar muito para "o que que os vizinhos vão pensar de mim". Mas acho que vale a pena comentar que o meu ambiente de trabalho hoje em dia tem uma puta influência no meu trabalho como compositor.

Eu trabalho como bartender e também como assistente do engenheiro de som (recentemente também como engenheiro de som por conta própria) no Cafe OTO aqui em Londres. É uma casa de show para música avant-garde e estou trabalhando lá desde janeiro desse ano - mas frequento tem 6 anos. Mas desde janeiro até agora eu assisto 4 gigs por semana. E só tem músico/artista fodido passando pelo lugar. Assistir os tipos de Keiji Haino, Consumer Electronics, Peter Brötzmann, e muito muito muito mais nego tá realmente influenciando muito como eu penso sobre meu lugar como artista. E acredito que sigo um caminho de confiança na exploração. Não muito de um certo estilo. Tanto que no ULTERIOR é uma boa mistura de estilos.

Explica o conceito do ULTERIOR. Arte, som e nome do trabalho.

ULTERIOR significa algo que é escondido propositalmente. E eu exploro essa palavra no conceito sobre o nosso "eu". Acredito que como seres sociais vivendo num mundo extremamente distorcido e confuso, acabamos inconscientemente mas propositalmente escondendo nossos "eus". Quase como um mecanismo de sobrevivência, e exploro nesse álbum essa dinâmica pelos temas de restrição, vulnerabilidade, solidão, medo, opressão. A arte representa essa vontade de gritar através de um demônio, um ser místico confabulado, representando um "eu" escondido. Mas essa é minha interpretação.

Quem fez a arte foi minha esposa. Ela ouviu o disco, conversamos sobre tudo e esse foi o resultado. Eu acho que ela pegou na veia mesmo.

Queria saber o que te influencia de novo na música eletrônica e na música não eletrônica. Já que você está morando fora e escutando coisa nova direto.

Sim ainda estou morando fora e moro fora desde 2008. Morei um tempo em Berlin e também morei um tempo em São Paulo em 2012 - 2013, quando começamos o Godasadog, eu e o Victor. Mas é uma história longa e complicada esse negócio de imigração. Mas em questão de o que me influência de novo acho que já falei uma boa parte na primeira pergunta. Acho muito importante tentar quebrar barreiras de gosto e ser aberto pra todos os tipos de música. Mas o que eu tenho escutado recentemente, no lado não eletrônico, é bastante Luiz Gonzaga, Xavier Cougat. E no lado eletrônico acabei de comprar o LP novo da Puce Mary chamado The Spiral e acho o trabalho dela fudido.

É música eletrônica, você é meio que Dj. Mas não é música pra dançar. Já ouvi isso de outros trabalhos nacionais e lembrei desta frase com o seu. Comente essa frase acima.

Acho que esse comentário cutuca muito na escassez de cultura alternativa do Brasil. "Musica eletrônica" é um termo super carregado com noções de balada e só. É uma pena. Temos que achar um jeito de mudar isso. Mas não sei né, talvez eu estou enganado. Eu não moro aí pra saber direito...

Você se considera um artista de nicho? Pergunto isso por que a música eletrônica (enquanto termo genérico) é muito popular.

Com certeza sou um artista de nicho. Minha vertente da música eletrônica é com certeza um nicho com um tipo de ouvinte muito específico. Mas vivemos numa época de "nichos sem fim" e é incrível que existe as condições certas para milhares de nichos existirem. Mas o que me deixa muito feliz é ver a curiosidade das pessoas que são completamente fora do nicho e a "open-mindedness" das pessoas pra ir curtir, experienciar coisa novas aqui. Acho que isso falta muito no Brasil.

Existe diferença entre a música eletrônica brasileira para a musica eletrônica do mundo? Se sim, qual? Se não, por quê?

Acho que já também toquei nessa resposta na perguntas acima mas re-afirmo aqui que sim existe uma diferença. Mas a diferença mais gritante esta no consumidor da cultura, no povo. O povo em geral é muito mais aberto por aqui. Tem muito mais espaço pra arte e todos os níveis. E espero que o Brasil invista o suficiente em cultura e em educação pra atingir esse mesmo nível de curiosidade/tolerância geral.

O que a mídia pode fazer pelo Matschulat?

Essa é uma pergunta engraçada porque eu não tenho nenhum interesse-próprio pra ser atingido pela mídia. Eu faço esse esforço com a mídia para o consumidor de cultura. Eu espero que a mídia me ajude a conseguir mais ouvintes sim mas o meu desejo ao obter mais ouvintes é de expandir o acesso à música nova, música que desafia barreiras, que chacoalha preconceitos. Isso sim me dátesão. É mais o que que a mídia pode fazer para o povo ao meu ver.

Tava lendo o release do ULTERIOR e queria que você falasse um pouco sobre como é passar toda essa questão existencialista com a música. Tem como passar tudo isso?

Não sei se tem como passar tudo isso mas com certeza acho que vale a pena tentar! Mas acho que o processo de criação, o exercício de busca e de concretização de ideia é super importante, mesmo que não resulte num produto que você vai mostra pro público porque vai te evoluir como artista. Todo exercício é válido e importante.

E fala um pouco sobre o seu selo, que tá lançando o ULTERIOR.

A Resterecords, que em alemão significa Discos de Sobra, Restos, foi estabelecido em 2013 depois de eu passar muito tempo (faço música desde os 16 anos de idade) buscando atenção de selo e não conseguindo nenhuma. Então, como eu acreditava na minha música, depois de ter feito o meu primeiro EP como Matschulat (4:48) eu decidi começar o selo. E no início era só o mecanismo de publicação digital. Mas com o tempo o selo foi crescendo e como uma bola de neve agora ela acumulou peso suficiente e tá meio que crescendo por conta própria agora. Nunca foi minha intenção ter um selo mas quanto mais eu converso com pessoas de tem selo lá onde eu trabalho no Cafe OTO, como o dono da Upset The Rhythm e também o dono da FIRE records, ou da Penultimate Press, todos eles falaram que eu provavelmente fiz a melhor coisa em fazer tudo eu mesmo. E eu recomendo sim "take matters to your own hands" e em vez de esperar oportunidade criar elas. E criar oportunidade para artistas no mesmo barco é um puta prazer.

O que é preciso pra fazer parte do selo?

Acho que compartilhar valores estéticos é o mais importante. Grande parte do meu trabalho como Resterecords é de curadoria. Eu sou super aberto a pessoas enviando demo e encorajo sim mas até agora não lancei ninguém que me mandou material.

Todo álbum é uma história com início, meio e fim?

Não necessariamente mas acho que "story telling" faz parte dos nossos genes. Acho que tentamos encaixar as coisas em um formato de narrativa pra fazer sentido das coisas. Com certeza um artista pode criar um álbum com uma intenção de ser sem pé ou cabeça e ser todo quebrado mas com certeza vai ter pelo menos um(a) ouvinte que vai criar uma bela e clara narrativa que faz perfeito sentido pra ele ou ela.

O trabalho parece se associar bastante ao conceito de paisagem sonora. Os barulhos que criamos e fazemos, além de ouvirmos diariamente através dos ruídos. De onde vem o interesse pelo tema?

Acho que o que abriu as portas pra esse tema foi uma mistura de estudar Merleau-Ponty, Pierre Schaeffer, Michel Chion e John Cage mas com certeza tem outros - mas esses é o que vem a mente primeiramente. Mas quando eu comprei meu primeiro gravador portátil (H4N Zoom) foi quando realmente portas abriram e eu comecei a fazer muita gravação e por conta disso comecei a escutar tudo de outra maneira.

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