Eric Barbosa: 5 perguntas e 11 videos sobre o Percurso InstalativoSonoro

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Eric Barbosa (Foto. Clara Capelo)
O cearense Eric Barbosa é velho conhecido de quem acompanha a cena independente do nordeste. Membro da banda instrumental Fóssil, que já vai em dez anos de existência. Além de ótimo músico, ele também é um estudioso de vários assuntos que permeiam o universo da música. Métodos de composição, timbres, gravações em ambientes abertos e com ecos, intervenções músicas em espaços públicos, todos temas que contemplam os estudos do camarada.

A gente até tentou fazer com que ele colocasse estes estudos no papel e por aqui no altnewspaper, mas nunca rolou. Pelo visto a onda dele são os estudos práticos dos processos de gravações, nessa vibe ele também lançou alguns estudos sonoros solos. São eles os trabalhos "Cortejo Aurora" e "Ode ao Mar Atlântico". Em ambos os trabalhos, Eric também deixou claro outra característica dele. A capacidade aglutinadora que ele tem.


O novo trunfo na manga do Eric é o projeto de ocupação Percurso Instalativo Sonoro, uma serie sonora-visual que ele já desenvolveu em SESCs em Sâo Paulo e Campinas, mas finalmente conseguiu fazer do jeito que achava adequado no Theatro José de Alencar em Fortaleza. E agora ele lança um box com áudio bootlegs que foram divididos em cinco partes e lançados pelo selo SuburbanaCO, além de 11 videos gravados ao longo de cinco meses de ocupação por lá e muito trabalho.

Em tempos onde tenho escutado não existir uma cena musical em fortaleza, Eric mostrou-se mais uma vez um aglutinador e reuniu além dos seus companheiros de bandas, nomes como Fernando Catatau e Chinprafala, entre outros nomes do estado. De fora do Ceará, nomes como os pernambucanos Rodrigo Caçapa e Thelmo Cristovan, além dos integrantes do grupo carioca Chinese Cookie Poets/ Rabotnik também participaram do role.

Aproveitando o lançamento de todos os trabalhos, resolvemos bater um papo rápido com ele, aproveita e saca também os videos que ficaram demais. Pra quem curte improviso, minimalismo e conhecer coisas novas, é um prato cheio.


Você passou um bom tempo morando em São Paulo e lembro que essa ideia de interferência em espaços sonoros já existia. Por que só rolou quando você voltou pro Ceará?

Na verdade, esse lance de intervenção em espaços sonoros e públicos já surgiu por lá, quando morava em São Paulo/SP - sendo que meu processo de intervenção ele se caracteriza em um lance mais híbrido entre linguagens, ou seja, entre a música (tanto com meu trabalho, quanto com o Fóssil, que por aqui em SP tocávamos em metrôs, terminais de ônibus, prédio abandonado), aí tem esse meu lance com performance/pesquisa sonora (rua, prédios históricos, galerias, temas), cinema ( a colaboração com o Alumbramento, através de sound-designer do filme Medo do Escuro, onde a trilha é executada ao vivo) e com as artes visuais (quando comecei a desenvolver instalações sonoras em espaços urbanos/públicos). Quando morava por lá, que foram exatos 06 anos - procurava absorver o máximo de referência por lá - foi quando eu comecei a desenvolver uma residência artística na Casa das Caldeiras que se chama: Experimental Live Sessions - nessa residência eu conseguia agregar muitos artistas entre performers, músicos, artistas sonoros, bandas, artistas visuais, cineastas, fotógrafos, pesquisadores acadêmicos, hippies, junkies e por ai vai - e a troca de trabalhos era bem intensa, te colocando em contato com produções e criações de diversas matizes. E assim, o espaço era incrível, de uma estrutura e arquitetura fabril da década de 1920, uma edificação que era uma termo-elétrica que servia para abastecer as indústrias da familia matarazzo e possuía duas caldeiras entre 46 a 54 metros com esta funcionalidade, gerar energia na base do carvão. É um espaço tombado, com vários lances e foco cultural, visitas históricas, programas de patrimônio etc. E era nesse espaço que eu gravava coisas minhas e dos amigos, fazia performances, apresentações, ministrava aulas dos meus projetos de formação em sonorização e desenvolvimento de pedais e efeitos sonoros - dialogando com todo o complexo de espaço e possibilidades, aí realizava um estudo com as caldeiras - gravando dentro delas e convidando gente pra contribuir também. A partir dessa vivência imersiva por lá, comecei a trabalhar com métodos de instalação sonora e de performance. Estudando, criando e produzindo - desse período tem o lance de uma instalação sonora, chamada: Andante: para não silenciar minha voz, que eu levo um piano acorrentado para uma estação de trem ou ônibus e espacializo sonoramente com ruídos, sons, melodias criados a partir dele e que consegui fazer em Belo Horizonte/MG, São Paulo/SP e Campinas/SP. E aí, paralelamente surgiu a idéia do Percurso Instalativo Sonoro - que são performances sonoras e derivas audiovisuais que acabei retornando em um projeto maior em Campinas/SP promovido pelo SESC e que se chamava: Cidade Ocupada - artistas ocupando em média 70 espaços públicos simultaneamente a cidade, e meu projeto foi uma instalação com sons e espacialidade sonora da cidade e eu criava músicas e temas em cima, nessa instalação teve algumas alterações em curso de artistas que eu convidei e que já estavam se apresentando no projeto, como a Alice Ruiz e Alzira Espíndola - que interviam com poesias, contos, músicas incidentais nessa vibe de improvisação livre, minimalismo etc.



Andante: para nunca silenciar minha voz from EricBarbosa on Vimeo.
Aqui em Fortaleza, quando eu retornei em 2014 (para ter minha filha aqui na cidade), queríamos muito tanto eu como a mãe dela que ela nascesse em Fortaleza e com esse retorno eu sentia a necessidade de continuar estes processos por aqui, toda essa construção de identidade e linguagem. Eu pensava, poxa se eu consegui fazer isso fora da cidade com estrutura e possibilidade, não é possível que eu não consiga aqui, onde nasci. Na época, a diretora do Theatro José de Alencar (Selma Santiago) havia me chamado pra pensar um projeto de ocupação do Theatro, que se chamava: E agora José (referência ao poema de Drummond e também com esse lance de E agora Theatro José de Alencar!?). Fazia tempo que eu não entrava nos espaços e fui visitando tudo, a própria gestão do espaço passa por uma crise violentíssima de falta de recurso e repasse de verba pra se manter, é triste, mas é um recorte predominante dos espaços públicos no Ceará, em sua grande maioria estão detonados e com estruturas lindas, saca? Salas de ensaio, salas de dança, jardim, uma infinidade de espaços pra se apresentar e explorar. Aí quando bati o olho no Foyer, resolvi propor uma ocupação permanente de 06(seis) meses, toda quinta-feira de ali em diante independente da falta de recurso da instituição, porém, exigindo autonomia para realizar o que quisesse - eu queria explorar o lugar; tinha um piano de 1/4 de cauda yamaha, paguei afinador, trazia meu home-studio toda semana para as gravações de performances, microfones, instrumentos dos mais diversos (guitarras, synths, percussões, gambiarras sonoras, efeitos), handrecorder tascam, câmeras e resolvi que ali seria um espaço de criação permanente, um espaço de investigação tanto sonoro, como audiovisual - dessa forma fui maturando até os conceitos das intervenções, vendo que a onda dialogava diretamente com "site-specific, arte ambiente e o que era se produzido se voltava para o espaço sonoro/acústico e de forma reversa também, todas as performances o som amplificado era apontado pra rua, o meu foco de possibilidade auditiva era a rua, o transeunte, o feirante, o motorista, o guarda, o burguês - era quem passava naquele tempo-espaço-instante e deslocava naturalmente sua escuta para este fato - se era um noise, um sussurro, um esporro, um grito, uma batucada, uma sequência melódica, uma canção incidental - a ideia é investigar a escuta , a audição, a percepção auditiva - dentro de todas as referências por ali representadas sonora, visual, imersiva e performática.


O grande número de cearenses no projeto mostra que além da interferência, rola a ideia de agregar e misturar nomes. Isto era uma ideia que já existia ou veio durante a realização do projeto?! (Digo isso porque alguns dos nomes não flertam com o improviso/experimentalismo em seus projetos originais).

Antigamente, eu acabava criando tudo sozinho e tendo colaborações pontuais - nessa edição aqui em Fortaleza/CE eu decidi agregar - até porque tinha um foco de uma instalação em curso/andamento/não fixa. Esse lance da vibe de "site-specific", performances sonoras, improvisação livre, minimalismo, entre outras correntes de interpretação/atuação e pontuando com artistas visuais, fotógrafos. Eu pensava não só de explorar e me envolver com nomes que já tinham uma familiaridade com improvisos, experimentação - mas, também queria provocar esse deslocamento de interpretação de alguns deles, de fora da zona, de tocar e pronto.. Nenhuma performance sonora, aconteceu ensaio. Só nos víamos no dia de apresenta;cão, era essa a condição. O encontro aqui vai se dar pela música, pela interpretação de cada um e como se comunica; como a gente ambienta sonoramente e se comunica com isso. Teve encontros pra mim bem fortes, de uma intensidade, precisão e energia incrível - tipo as com: o violonista Icaro Capelo (que foi a primeira audição e do que realmente eu queria mostrar artisticamente); com Thelmo Cristovam (primeira vez que nós tocamos juntos, incrível); com o Microleão Dourado (um grupo essencialmente composto por amigos cineastas e artistas visuais, simplesmente absurdo); com os meninos do Chinese Cookie Poets (Zenicola, Campello) e Rabotnik (Manso) que na mesma ocasião, realizamos um encontro/oficina de improvisação livre, eles estavam em Fortaleza/CE se apresentando com a Ava Rocha e o Percurso Instalativo também integrava outro projeto de ocupação aqui na cidade, que era o Sargaço (já propondo essa idéia de ocupação sonora, free improv e tals); com o Fernando Catatau e Vitor Colares que pra mim um dos mais emotivos e fortes (na época e no mesmo dia da apresentação eu havia me separado da minha então companheira) ; com o Uirá dos Reis que ele já chegou cantando Elizeth Cardoso e assim ficou a ideia (dor, ruído, canção, desespero, morte e isso amplificado de uma carga sentimental violenta); com o coletivo chinfrapala que é bem dinâmico e com outros desdobramentos que se ramificou entre performance, curtas experimentais, vídeoarte e vídeoperformance.




Essa ideia de intervenção parece ser hibrida e depender só de você. O que precisa pro projeto rolar em outros locais? 

Eu sinceramente, penso que hoje em dia minha forma de criação/produção ela é híbrida. Não consigo mais dissociar e sectarizar a música, performance, instalação sonora, o cinema - eles têm um espaço interno comigo que acho importante validar., dar seu peso, medir seu valor e buscar um campo de aprimoramento natural. Por mais que meu histórico artístico venha da música, preciso criar mecanismos e ramificações para outras formas artísticas, são dimensões diferentes, são prospecções diferentes comigo. Eu estou conversando com algumas cidades de trabalhar alguns formatos, que envolva performance sonora, uma forma;cão e desenvolvimento de curtas experimentais, e em outros lugares apenas performance sonora e métodos de ocupação Essa dinâmica vai de acordo com o que conseguimos pensar juntos nesses espaços, o que se pretende fazer e se criar, que conteúdos, que projetos a serem desenvolvidos. Eu realmente, realizei tudo sozinho, mas em outros locais, seria massa.


O selo vai ser predominantemente nessa ideia de bootleg ou a ideia é lançar música experimental dita padrão ou não existe esses limites?!

A SuburbanaCO é um selo que tem a frente o poeta, cineasta, artista sonoro e escritor, Uirá dos Reis. Eu acredito que o selo vai assumir esse lado mais experimental, lançar o que vem de acordo com seus anseios e gostos. Pelo menos nesse quesito que o Percurso Instalativo foi lançado tem uma amplitude de divulgação legal, muitos outros lançamentos de outros artistas de Fortaleza, Rio de Janeiro, Pernambuco, vem dessa linhagem de experimental - mas é isso, o limite aqui é estar vivo. E continuar fazendo.


É um puta trampo, quem está bancando isso?!

Infelizmente, não tenho incentivo de grana e financeiro de nenhuma instituição. Nessa edição de Fortaleza, eu banquei. Os equipamentos e instrumentos são meus, fiz as captacões de imagens, alguns amigos colaboraram com imagens; outros amigos fizeram as peças gráficas; as edições dos videos os artistas Diego Maia e Rafael Parente assumiram; Mas eu acho massa que já se tem um time de colaboradores que ja trabalhamos em outras histórias abordadas, que entraram na onda. Veja bem, eu faço uma reflexão, os espaços eles precisam ser resignificados em muitos âmbitos - vivemos uma crise permanente de protagonismo na cultura (estado vs artista). Não precisamos do estado para existir. Porém, é necessário cobrar políticas e espaços para isto - olha a mobilização que as ocupações no Brasil estão mostrando? não só nos equipamentos culturais, temos as escolas ocupadas, o senso de política e acesso cultural dessa nova geração, saca?. Costumo dizer, que se for pra depender do estado para realizar minhas aspirações na arte e o que eu desejo - acho melhor parar. De certa forma, e é claro que precisamos de subsídio pra tudo co-existir. Mas, vivemos tempos que o artista ainda depende muito do estado para realizar um disco, uma peça, um filme - acho que os tempos agora são de guerrilha, subversão e eu percebi muito com a finalização dessa primeira série do projeto (já estou trabalhando mas mixagens da segunda série) e continuo realizando as intervenções nos espaços como forma de circular o projeto. Se conseguirmos financiamento, massa. Caso não seguiremos.




Por que lançar tudo de uma vez?  Não seria mais jogo lançar em pills a cada dois meses na web?

Na verdade lancei só uma parte por isso que nomeei de (Percurso Instalativo Sonoro...) Série I. Eu quis resignificar a minha forma de distribuição do conteúdo e experiências criativas artísticas que eu vinha me relacionando.

No campo da música, 2015 foi um ano que eu saí da condição de instrumentista/guitarrista e fui tocar outras coisas. Piano, percussão (comecei a vivenciar terreiros de candomblé), vivenciar performance, música, improvisação livre. Eu quis arriscar, me permiti arriscar. O nosso consumo é tão intenso nessa convergência tecnológica, produzimos e consumimos tanta informação em todo campo: filme, música, livro e por ai vai Eu quis fazer diferente. Não quis reproduzir a hegemonia fonográfica do esquema: single, disco e clipe *single eu quis jogar na roda uma parte do que produzi e desenvolvi. Ainda tem coisa pra caralho pra soltar. Performance com o máquinas, com Carlos Gadelha,, com o Máximo Simples, com o performer Diego Salvador. Isso foi uma forma de arriscar uma forma nova de disseminar meu trabalho. e o percurso é um organismo vivo minha ideia é realizar edições em outras cidades, outros lugares..minha escuta, minha interpretação de lugares que vivi e pretendo viver.

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