Revisitando um clássico: Fugazi – "In on The Kill Taker" (1993)

por - 11:23

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Tinha um tempo que não fazíamos essa coluna. Culpa da vida, suas mudanças e responsabilidades. Ou pura preguiça mesmo. De qualquer forma, essa semana acordei com uma música do Fugazi na cabeça. Um lance até um pouco estranho, já que o disco que mais escuto deles é o 13 Songs, o primeiro álbum, que na verdade é a junção de dois EPs. Normalmente, quando acordo com algum som da banda na cabeça é "Waiting Room", o hino sagrado do punk/hardcore/post-hardcore do meio da década de oitenta, só que dessa vez levantei com "Instrument", a penúltima faixa do In on The Kill Taker, lançado em 30 de junho de 1993. Ou seja, há exatos 23 anos. Como passei a última semana ouvindo esse disco e a coletânea #73 do Hominis (baixe aqui), resolvi falar sobre o álbum em comemoração ao vigésimo terceiro aniversário dele.


História


In on The Kill Taker, que seria chamado de In Pieces, é considerado por muitos como um dos melhores discos do Fugazi, ao lado do Repeater. Apesar de já ter ditto que prefiro o 13 Songs, não dá pra negar que a maior qualidade na gravação e as composições do IOTKT (criamos uma sigla) são mais completas e trabalhadas, talvez por causa das sessões feitas meses antes da gravação do álbum em Chicago, no estúdio de Steve Albini. Quando escutei os bootlegs dessas sessões pensei que tinha rolado alguma treta entre ele e a banda, mas numa entrevista feita pelo Elson Barbosa em 2010, o produtor esclareceu o que aconteceu. “Eu fiz uma sessão com eles… eles estavam trabalhando em músicas que acabaram virando o “In On The Kill Taker”. Eles tinham acabado de compor algumas faixas do disco e gravaram tudo imediatamente. Depois de alguns meses eles fizeram algumas mudanças nas músicas, tomaram algumas decisões de como elas deveriam ser gravadas, e então regravaram o álbum. Eu fiquei bem contente com o álbum regravado, não tenho nenhuma reserva deles não terem usado as sessões que fizemos. Eles melhoraram o material e melhoraram a própria banda durante esse período de alguns meses, então achei legal. Foi uma grande experiência. Eles aprenderam algo com isso, e também se tornaram mais auto-suficientes. Acho que foi uma grande coisa".

A questão é que talvez essa pré-gravação tenha ajudado bastante a banda a entender melhor o que realmente queria, e isso pode ter feito o disco mais coeso. Por várias vezes o Ian Mackaye e o Guy Picciotto deixaram claro que a parte instrumental sempre foi mais importante do que os vocais e comparado aos trabalhos anteriores, podemos ver uma simbiose maior entre os integrantes da banda, não só no instrumental como também nos vocais.

Gravado em dezembro de 1992 no estúdio do grupo, em Washington, o disco tem 12 faixas e pouco mais de 38 minutos de um instrumental coeso e que direciona mais a banda para o tal do post-hardcore e tira um pouco do óbvio do punk da década anterior, isto de uma maneira melhor que nos discos anteriores. E as letras, bem, eu sou meio suspeito, porque gosto dos assuntos trazidos nas músicas do Fugazi. Elas trazem críticas ao estilo de vida americano, quantos gastos desnecessários para se viver e quanto nossa vida é importante em meio a muita gritaria. Na resenha feita por Matt Diehl para a Rolling Stone em setembro de 1993, dois meses após o lançamento, ele disse que o Fugazi era o único grupo que interessava, parafraseando o Clash, que em 1979, se autoproclamaram como a única banda que importa para o punk. Isto deve ter ajudado bastante a aclamar ainda mais o trabalho dos camaradas de Washington.

Fugazi

Por que ele é foda?


Em “Smallpox Champion” os caminhos se misturam. Muitos gritos. Guitarras, baixo e bateriam parecem a mesma coisa.. No fim das contas é tudo rock, mas com o Fugazi sempre foi um pouco mais que isso. Com “Rend It” a porrada volta constante do início ao fim. Os gritos, as guitarras e instrumentais tortos que podem ser ouvidos em “23 Beats Off” mostra alguma das principais características que fazem com que a Fugazi seja venerada pelo público. Parece jam session, mas tudo aquilo ali foi bem pensado pra sair da maneira mais honesta possível.

A sonoridade da música anterior também dá o tom para a seguinte, “Sweet and Low”. Uma faixa calma e um dos mais belos instrumentais da banda em todos os tempos. Por sinal, esse é o único som sem letra desse disco. Já em “Cassavetes” a porra louquice volta nos instrumentais. Parece uma jam ao vivo, mas a letra tá lá e é pesada na crítica a "poor city of shame" e tem os backing vocals todos nos lugares certos, viu? Fui pesquisar e pelo que entendi eles estão falando de Hollywood, toda indústria construída em torno de bancos falidos. É lindo, um dos hinos da banda aclamados pelo público. Por falar em hino, “Great Cop” não deve em nada a qualquer faixa do punk da década anterior a este disco.

https://youtu.be/56s4CApxghk

As três últimas faixas são as minhas três preferidas do disco. “Walken's Syndrome” traz um combo, dois vocais bem encaixados, instrumental magistral, com quebras e sequencias de guitarras muito bem linkadas. É rápida e lenta no tempo certo, tudo se emenda da maneira que tem que ser. “Instrument” é a música que me fez escrever esse texto e só pra deixar claro, a minha canção preferida do In on The Kill Taker. Também foi a primeira música que eu escutei do Fugazi. Por mais arrastada que ela seja e por menos melódica que soe, atingiu em cheio meu coração hardcore com uma letra incrível. “Last Chance for a Slow Dance” fecha o disco e parece uma continuação da canção anterior, com uma troca no vocal do MacKaye para o Picciotto.

Talvez eu esteja mais inclinado a gostar do Ian, isso tem uma relação enorme com as ideias propagadas por ele (tipo essa entrevista), mas duvido muito que o Guy pense tão diferente dele. A conexão entre estes dois nomes como líderes vocais é uma boa ideia do porquê a banda é tão importante pra história do rock mundial.

Agora me digam, o que vocês estavam fazendo no dia 30 de junho de 1993, 23 anos atrás? Enquanto eu pensava no que fazer entre o handebol e o judô, o Fugazi cravava de vez seu nome na história. Aproveite o dia e ouça mais uma vez este belo disco.

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