A introspecção intempestiva da maquinas

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Quando a maquinas apareceu com seu primeiro trabalho, dois anos atrás, atentei pro uso presunçoso da tag shoegaze. Poucas bandas no Brasil conseguem abraçar este termo da maneira que pelo menos eu, considero devida. Lembro que a presunção se estendia em uma entrevista no site potiguar O Inimigo, por mais que a banda brandar-se como um representante do noise. Ao ouvir o EP, me recordo agora da sensação de angustia, um lance meio fim de tarde com nuvens, difícil imaginar isso se você tá dando um mergulho na praia do futuro, na cidade de Fortaleza, de onde vem a banda.

Uma coisa do individualismo humano é que os sentimentos, as sensações são distintas em cada um de nós. Então, numa cidade predominantemente praiana, tal qual a sonoridade que o Astronauta Marinho carrega até no nome, é sempre incomum presenciar tal tristeza na quebrada do mar indo ao equador. Lógico que a visão do turista é de que o gramado é sempre mais verde. Sinto isso diariamente com a impressão cultural que as pessoas tem de Recife, e das belezas da Veneza brasileira, mesmo em meio aos ataques de tubarões mais famosos em linha reta do mundo.

Quase dois anos após o lançamento do EP homônimo, o máquinas ressurge com um álbum de seis faixas intitulado Lado Turvo, Lugares Inquietos. Ao ler mais uma vez no O Inimigo, um papo com o Allan Dias no qual ele responde sobre a indagação melancólica contida no som da banda e sua relação com Fortaleza, ele diz: “É uma cidade de certa forma hostil, que faz questão de se desconectar de sua história, mas vive quase sempre de aparências”. Isto bateu certeiro na sensação de deslocamento na qual vivemos, principalmente no nordeste do país (no norte também, acredito). Nós sempre fomos vistos como um lugar turístico, um lugar de passagem e nos últimos 20 anos, fomos tomados por turistas que querem viver em praias, mas no luxo de suas vidas distantes e que destroem toda identidade do lugar. Lógico que eles não estão sozinhos, utilizam a bandeira do progresso em meio a pressa do dia-a-dia.

As vezes estas mudanças nos tornam desconectados. Isto vem acontecendo cada vez mais, principalmente com esta rede virtual aloprada na qual estamos inseridos. E por tal desconexão ou conexão, vai saber, consigo ver em Fortaleza ou em Florianópolis, duas capitais litorâneas e de regiões distintas do Brasil, sonoridades trazidas do mundo externo e que ao primeiro olhar, não tenham nenhuma relação com os lugares inquietos onde foram criadas, mas que quando aprofundamos está tudo ali, nos lados turvos, onde a vista alcança, mas nem tanto.

Voltei então a ouvir maquinas como eles mereciam ser ouvidos. Pensando nos tempos em que não vivemos e em toda repressão e inquietação pela qual passamos ao pensar no que não tem volta. No que foi destruído. E tudo isso pode ser expresso em arte, no caso de um grupo de quatro meninos de Fortaleza, isso virou música. Músicas em primeira pessoa, sobre pessoas, relacionamentos, os lugares inquietos de nossas mentes que por não pararem, podemos não alcançar. Isto também é fruto da nossa ampla conexão (ou desconexão) com o meio à nossa volta, ou simplesmente o mundo.

Se o instrumental do maquinas é carregado de ruídos e sonoridades entristecidas, a melancolia das letras nos remetem diretamente ao nosso estado de inadequação. Todo mundo pode se sentir perdido de vez em quando, inclusive todos temos o direito de se perder. Não há nada de mal ou errado nisso. Tanto que os inquietos e desconexos se conectam, o disco da máquinas foi lançado por dois selos distantes de Fortaleza, porém cada vez mais convergentes no mundo dito virtual (afinal, o que é realidade?). O Transtorninho e a Bichano Records, selos afins, que convergem neste lançamento de seis faixas longas, adequadas a um espaço tempo que não pode ser dito no hoje, quem sabe no futuro.



“quarto mudo” abre o trabalho e parece começar pelo final. A ambientação parece estar terminando quando o instrumental aparece. O instrumental também lembra o fim melancólico de uma boa faixa do Mogwai, naqueles tempos de tristeza. Ao longo dos pouco mais de dez minutos de canção, a maquinas deixa claro através de um vocal arrastado do Allan Dias que eles “se sentem bem no mundo que criaram”.

A segunda música “mal-agradecido” é uma faixa ponte, se estivéssemos falando de um disco comum chamaríamos de vinheta. No caso, uma de pouco mais de cinco minutos. Vinhetas foram criadas para apresentar conteúdos em espaço curtos, dizem o que está por vir ou te lembram do início ou final de alguma coisa. Poderíamos usar isso para o fim de um relacionamento, ou para aquilo que não foi interrompido e está no meio. O intervalo mais musicalizado do vocal no disco do máquinas é repetido na frase “você não sabe responder” e isto leva ao fim da ponte num arrastado shoegaze primoroso.

Em “zolpidem” a melodia continua. E aqui uma pausa importante para o melhor entendimento do trabalho. “Lados turvos, lugares inquietos” é uma música dividida em seis partes. Isto fica claro quando você vê um show do quinteto, como pude presenciar no Recife recentemente. A apresentação é feita de uma maneira amorfa. As faixas estão todas lá, porém com roupagens diferente do disco e parafraseando o Allan “diferentes do dia anterior”, o meio modifica o homem, o meio modifica a música, somos todos peças de um mecanismo fluido que para uma banda chamada máquinas, ao vivo, não para nem para receber aplausos.

Outra coisa importante é que, se você achou os vocais do disco um pouco baixos, difíceis de entender, ao vivo os mesmos se tornam sussurros em meio ao caos sonoro. A trilha sonora do fim é bela e também alta, intempestiva com um show do grupo. E isto responde a pergunta em "zolpidem", em meio a solidão, ou num show lotado, a sonoridade da canção fica na cabeça durante um bom tempo. Então sim, alguém vai lembrar. Uma característica inerente a nossa memória é que nela ficam guardados sempre momentos bons e ruins em meio a ruídos ou lapsos sinápticos de lembranças.

Você pode estar achando o texto bem bonito, poético, mas quando chegamos na segunda ponte (sonora) do caminho, entre os lugares inquietos, nos vemos em “contramão”. É definitivamente um bom momento para falar que ao vivo o sopro, o saxofone cresce muito mais que no disco. Inclusive, nas apresentações o saxofone do Gabriel de Souza (da Chinfrapala) se faz presente em todas as faixas, não apenas nesta, como no disco. Outra coisa interessante é que todas as letras versam sobre relacionamento, não necessariamente entre pessoas. Talvez as principais DRs que temos que travar seja com a nossa própria cabeça. Ainda mais quando estamos no lowcore influenciado pelo codeine (drogas sempre presentes), tal qual uma bad trip do inferno.

Com o fim da canção, a paisagem sonora muda, se agita um pouco mais, rola até balançar o corpo, sempre triste. “drive-by” também lembra um passeio em meio a avenidas e luzes da noite, porém um bem mais conveniente que a viagem anterior. A solidão está sempre presente ao longo dos quase 12 minutos de canção, o protagonista nem sempre está na história, mas está sempre sozinho nas letras da maquinas, pelo menos em corpo. Digo isso porque a mente é um lugar terrível para se perder. O noise retorna ainda no meio da faixa, tal qual um acidente que parece longo demais. Reviver memorias é mais ou menos isso, não é mesmo? Se elas são tristes, parecem como acidentes vistos em câmera lenta, que faz com que o noise vire uma espécie de jazz acústico que te leva ao fim.

https://www.youtube.com/watch?v=KodlSLefDYU

É quando estamos perto do fim, que finalmente aparece a persona, se não do disco, talvez do rancor apresentado nele. É a vantagem de se contar uma história, ou criar arte para ser interpretada, o que pensamos pode ser diferente do objetivo para qual a arte foi criada. “Heitor” parece o alterego do marinheiro que sobrevive a catástrofe em "Good Morning, Captain" do Slint. A vida é uma sucessão de oportunidades e também de traumas. As perdas retornam, passamos as estações e talvez seja mais seguro ir a pé. A guitarra que inicia a música fica martelando nos pensamentos de maneira repetitiva num ritmo constante que chega a ser agoniante até chegar o vocal. Por falar na voz, é a mais limpa do trabalho todo. A música vira plano de fundo para que perguntas como “o que a gente sabe da cidade dos outros?” sejam feitas. E não há nada mais bonito que perguntas que ficam sem respostas.

A introspecção sonoro do maquinas contrasta com as pessoas que o fazem. Abertos e comunicativos, os integrantes parecem se transformar no show como se transformaram ao longo dos pouco mais de cinquenta minutos do disco. Não é necessário estar triste para ser introspectivo, basta se afastar um pouco de si e prestar atenção em tudo que está a sua volta. E vai ser muito difícil achar quem faça isso com o mesmo primor que os cearenses no Brasil. E, as vezes, músicas tristes fazem as pessoas mais felizes. Com absoluta certeza as deixa mais pensativa, contemplativa do som ao redor. E isto já é por demais importante.

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