Mário Cappi, a viola punk e o duo Defeitos

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[caption id="attachment_28233" align="aligncenter" width="695"]Defeitos por Samuel Esteves Defeitos por Samuel Esteves[/caption]

Em tempos de multifunção nos quais vivemos, é necessário se desdobrar em vários para conseguir dar conta dos compromissos. Algumas pessoas preferem diminuir o ritmo, outras aceleram mais e mais. Um exemplo de quem prefere aumentar a carga é o artista Mário Cappi. Afora a arte da música, o camarada também se arrisca e manda muito bem no traço, que além de ir parar em paredes, também vira capa de disco. No universo musical, Mário aparece no MDM Duo, projeto que toca com o irmão Fernando Cappi e no Hurtmold.

Agora ele ressurge com um novo/velho projeto. Novo velho por se tratar de um projeto com um parceiro de longa data, que depois de encontros e desencontros, o universo realinhou para ambos estarem juntos, produzindo música. Em Defeitos, Marinho divide a autoria das canções com Denis Sallum, companheiro dele nos tempos de hardcore com a banda Default.

No último final de semana a dupla lançou o primeiro disco do projeto Defeitos no Hotel Bar, em São Paulo. O álbum homônimo tem nove faixas com muita viola punk e saiu pela Submarine Records. Agora é a vez de Defeitos aparecer na internet pra geral sacar, com exclusividade aqui no Alt.

Se você curtiu o som da Defeitos, neste domingo eles se apresentam na Associação Cultural Santa Cecilia, em São Paulo, juntos com o Bode Holofonico e ACruz Sesper. Aproveitando o lançamento do trabalho, batemos um papo massa com Mário sobre o processo de composição da Defeitos, ss vários projetos que ele toca, São Paulo, entre outras coisas. Leia e escute o disco abaixo.



Na primeira faixa do trabalho: a ideia é quebrar o gelo inclusive com o nome do projeto? É "Defeitos", porque a ideia é ser mais desencanado no modo de gravação/ composição?

A faixa foi escolhida pelo som mesmo, não pelo nome. A gente achou que seria legal abrir com ela porque tinha cara de primeira música de disco. Mas como chama alguns defeitos, também pode sugerir essa ideia de "introdução" ou "quebra de gelo".

O nome do duo tem a ver com uma antiga banda na qual eu e o Denis tocamos no meio/fim dos anos 1990. A banda chamava default, gravou duas demos e participou de algumas coletâneas com bandas da época, algumas delas existem até hoje. Não foi o caso do default.

O lance da gravação e composição não tem muito lance de "desencanado"... Foi uma gravação de disco normal, talvez mais descontraída por estarmos num estúdio sem ter pressão de horário, e gravando com um amigo nosso, o Kike (Henrique Zarate). Já as composições eram feitas na minha casa, de um jeito tranquilo também, a gente sentava pra conversar, tomar um café, uma cerveja e entre uma ideia e outra alguém pegava o violão e falava: escuta isso aqui. Mas nem sempre eram ideias desencanadas. Às vezes, muito pelo contrário.

É projeto novo, mas acho que ouvi alguma coisa da "Defeitos" tipo uns dois anos atrás. Por que lançar só agora?

É verdade. A gente tocou algumas músicas em 2014, até fizemos dois shows. Nunca gravamos nada, a não ser vídeos caseiros que subimos no Youtube. Mas quando o Denis achou que poderia ir viver fora do Brasil em 2015, eu sugeri da gente gravar pra não perdermos as composições.

Descolamos o estúdio torto, que era do Kike (Hez, College e Gigante Animal). Ele ouviu os sons e curtiu. Quis gravar a gente. Fizemos um pacote de preços e horários disponíveis e mandamos bala. O Kike foi muito importante no processo todo. Antes de tudo isso, a ideia era ser algo bem caseiro, simples. Mas quando apareceu o lance do estúdio, resolvemos fazer um disco gravado com mics e recursos melhores, colocar mais instrumentos, mais elementos sonoros, mais vozes. Rearranjar bastante coisa, dar novas cores e por fim, chamar amigos para participarem da história. Jogamos bastante coisa fora também...

Aproveita e fala como é o processo de composição/gravação.

O lance todo começou na minha casa, após o Denis me mostrar uns sons que ele havia feito com o primo dele. Eu achei que tinha bastante coisa interessante ali e mostrei uns sons meus também. O Polara estava parado de novo e eu tinha umas ideias que queria levar adiante, daí mostrei pra ele. Pra uma delas ele tinha meio que um esboço de letra e tentamos encaixar os versos na harmonia. No momento funcionou, foi o estopim pra começarmos a tentar outras e outras ideias. Elas foram surgindo e quando tínhamos umas sete, decidimos marcar um ensaio por semana em casa até termos um show, ou material pra gravar. Começou a rolar direto, uma vez por semana. E desde então, não paramos. Muita coisa do começo jogamos fora, quase tudo. Outras mudamos e muitas coisas novas surgiram. Já temos umas quatro músicas novas, que não entraram no disco.

Existe objetivo na Defeitos?

Acho que o objetivo é nos mantermos fazendo o que já estamos fazendo e no fim sempre fizemos. Compartilhar também em forma de músicas bons momentos com quem gostamos

[caption id="attachment_28237" align="aligncenter" width="695"]Defeitos por Samuel Esteves Defeitos por Samuel Esteves[/caption]

Tava vendo a ficha técnica: tem seus comparsas da Hurtmold, tem o hez, até ai normal. Mas é um projeto seu com o Denis Sallum, que sinceramente não conheço. Quem é o Sallum no jogo do bicho?

Sim, vamos dar nome aos bois então:

O Denis é um amigo meu e do meu irmão de longa data. Conhecemos ele desde criancinha (4 ou 5 anos) lá nos idos de 1980 e pouco. Os pais e tios dele ficaram amigos dos meus, o primo dele era meu vizinho, então nos tornamos amigos rapidamente. Eu, ele o meu irmão e o primo dele, o Mauricio, colávamos juntos direto. A diferença de idade era pequena. Acabamos nos tornando uma turma bem unida nos anos 90, começamos a pirar muito nos sons juntos. Eu ele e meu irmão, pirávamos em Metallica e Sepultura, nos punks também, mais tarde no grunge e depois no hardcore.

Até que em 1994 ganhei um violão dos meus pais e a partir dai tocávamos juntos, tirávamos tudo de ouvido, tudo errado, mas ia. Em 95 comprei uma guitarra de um amigo e formamos uma banda. Eu plugava ela no 2 em 1 da Phillips de casa e meu irmão improvisava a bateria enquanto o Denis fazia o baixo no violão. Formamos várias bandas, até que veio o default que acabou em 98.

Nos anos 2000, perdemos um pouco o contato musical com o Denis, estávamos na faculdade e em empregos merda, mas as vezes nos víamos pra dar um role. Tocar era difícil. Havíamos nos mudado de bairro, ficou complicado.

As coisas só mudaram agora, quando em 2014/2015 voltamos a tocar juntos e resolvemos gravar o play.

Você é da Hurtmold, tem o MDM (que existe até uma versão duo com o Chankas). O que diferencia este projeto dos outros? 

Sim, eu toco no Hurtmold e no MDM Duo (mdm quarteto não rola mais). Eu acho que tem várias coisas que diferenciam e outras aproximam. No Hurtmold somos em seis e praticamente não há vozes. Vozes somente dos instrumentos, não de cordas vocais. Vejo as canções do Hurtmold como ideias de seis pessoas dialogando, respondendo umas para as outras. Nas outras duas bandas, as canções são cheias de vocais e letras, e são feitas em dupla, os diálogos são mais diretos, as trocas mais rápidas. Não são menos intensas. Talvez mais maneiristas, mais explicitas. É difícil explicar, tem que ouvir, sentir... Na real acho que quanto menos eu falar sobre isso melhor. Vale a pessoa escutar e tirar as próprias conclusões.

Aproveitando os multiprojetos: como vencer a barreira do ostracismo?

A ideia de fazer muitas coisas, ter vários "projetos" é em si antagônico ao ostracismo, eu acho.
Pelo tipo de arte/música que eu faço, tenho ficado feliz de ver onde as coisas estão chegando. Como as pessoas respondem. O caminho que eu e amigos escolhemos nunca foi fácil, mas acho que representamos algo para nós mesmos. Tem muito mais a ver com liberdade e integridade que outra coisa.

Ouvindo o disco, canções como "2 anos" e "Você está sozinha" lembraram pra gente aqueles projetos lo-fi do Carlinhos. Tipo o Albertinho dos Reys, etc. É influência ou nem?

(risos) Que legal que isso te lembrou o Albertinho. Na verdade, acho que o Carlinhos sempre vai ser influencia sim. Mas não só na música. Voltando a questão acima, ele se encaixa exatamente nos padrões que disse achar fundamentais pra um artista que faz as escolhas que fazemos.

A arte do disco tem algum conceito especial?

A arte do disco tem a ver com uma série de desenhos/pinturas que venho produzindo com um certo tipo de padrão de traços, uso de materiais e suportes. A arte do Hurtmold nova também tem um pouco disso porque fiz na mesma época ambas.

Acabei fazendo uma pintura que seguia esse caminho e achei que ficaria interessante se usada também como um encarte, uma vez que virá num formato A3 dobrado, e em seu verso, as letras e ficha técnica. Especificamente para o defeitos foi uma escolha estética, nada mais (embora isso seja bastante).

Defeitos - Encarte CAPA

Vi um vídeo de vocês fazendo umas copias físicas. Em qual formato vai sair o trabalho?

Vai sair em cd com print branco e um "d" preto carimbado a mão. A arte do encarte, como você viu o vídeo, será num papel couche A3 dobrado e colocado dentro de um plástico transparente. Na frente a pintura com o nome da banda, atrás as letras e ficha técnica. Quem desdobrá-lo, poderá ter um pôster pra colar na parede. Viu como somos legais?

São Paulo é melhor que Washington? (ou Submarine é melhor que a Dischord)?

Não conheço Washington, não saberia dizer, mas apesar de todas as merdas de São Paulo, eu amo aqui. Difícil querer trocar.

Submarine Records sempre né? A Dischord é incrível, um modelo a ser seguido, no qual a própria Sub se inspirou. Mas fazer o que o Fred faz aqui, com a cara e a coragem desde 97/98, não é pra qualquer um. Tem que dar muito murro em faca e ter nervos de aço. Não curto comparações, até porque são países, culturas e mercados diferentes. Mas os dois selos são incríveis. Tocados por pessoas que não abrem mão de suas crenças.

Numa época em que meio que já extrapolamos o lance das gravações caseiras, o que o Defeitos pode acrescentar a música?

Não sei, não faço a separação: musica caseira x música de estúdio, ou música de câmara. Pra mim é tudo música. Tem a boa e a ruim.

O Defeitos pra mim acrescenta muita coisa. Para os outros, não teria como saber. Ainda bem que não sei o limite desse alcance. Se gostarem, se alguém se sentir acolhido, se identificar, acho ótimo.

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