O Concreto Morto acaba de lançar o álbum, "Medo de Astrologia"

por - 08:53

concreto morto

O Concreto Morto é um grupo de screamo de Curitiba formado por Felipe, Vina, Daniel, Michael e Yuri. O som dos caras é influenciado por bandas como Orchid e Converge e eles estão lançando nesta quarta-feira (6) o álbum Medo de Astrologia, pela Bichano Records, com exclusividade aqui no Altnewspaper.

Aproveitamos o lançamento e trocamos uma ideia com o vocalista Felipe sobre anticapitalismo, trabalho, música e Curitiba. Ouça o disco abaixo e faça o download no Bandcamp clicando aqui.



O Concreto Morto é uma banda anticapitalista. Como isso influencia no som e no modo em que as coisas são feitas dentro da banda?

Somos anticapitalistas mais no sentido de afirmação das nossas insatisfações com relação aos grilhões desse sistema do que por afinidade ou lealdade a determinadas correntes político-ideológicas. É um posicionamento pessoal que reflete no político, e não o inverso.

O trabalho, enquanto tema, é algo que está presente em quase todas as músicas do grupo. O que é trabalho pra vocês?

A questão do trabalho sempre esteve presente nas músicas de forma um tanto quanto inconsciente, quando nos demos conta, ele se tornou o tema mais abordado pela banda... O que foi uma descoberta divertida, pois deixou claro o quanto o trabalho nos faz mal de alguma forma ou outra. Somos cinco indivíduos, cada um sente esse mal de uma forma ou em grau diferente, mas fato é: temos que trabalhar pra sobreviver, gostemos de dinheiro ou não, as escapatórias são escassas e estamos fadados a servir. A nossa opinião quanto à essa servidão está bem presente nas músicas, em especial no lançamento A Necessidade de Produzir Sempre Foi Antagonista do Desejo de Criar. Esse novo disco foge um pouco dessa temática, as letras tem um cunho mais voltado para o pessoal e nossas reformas íntimas. Mesmo durante a gravação de Medo da Astrologia nós buscamos nos distanciar do discurso dos especialistas em gravações, pra diminuira monetização das relações no processo de registro do álbum. Gravamos nós mesmos, amadoramente, com a ajuda dos amigos Thiago Gaspar e Gustavo Paim.

Em uma entrevista para o Jornal do Comércio, o Felipe disse que "mesmo trabalhando com o que gosta, a gente não se realiza. O hobby vira obrigação". Não existe a possibilidade do Concreto Morto cair nesse mesmo lance?

Buscamos fugir dos padrões de relação público x mercado, produto x consumidor a partir da escolha da sonoridade da banda, que não é das mais inacessíveis mas ainda assim vai contra à mão dos mecenas da dita "cena" (sempre tenhamos cuidado com esse termo, pois ele territorializa lugares, papeis, estéticas, etc.) musical hardcore, vide a quantidade de convites que temos pra tocar em shows ou lançar nosso material por algum selo: os convites são escassos, a maioria vem de fora do Estado e nosso material físico só foi lançado por selos estrangeiros. O território do hardcore não é diferente da indústria musical, é só uma reprodução dela em menor escala. Existem bandas com padrões musicais e estéticos que são socialmente aceitos, e é inegável, vendem mais: as pessoas vão ao show em peso, compram mais camisetas, mais CDs, isso tudo. Se existe o socialmente aceito e ele vende e consequentemente, e aí que está o cerne do problema, participa mais do que ocorre em um determinado espaço, qual a diferença entre o pequeno mundo do hardcore e a lógica da grande mídia? Por fim, buscamos resistir a isso a partir da ideia inicial da banda, que é a de não tocar o estilo musical que estiver em foco, assim, nos distanciamos dessa lógica da banda se tornar trabalho (ou ao menos achamos que fazemos isso). Se ela não é produto, mantê-la não será trabalho. O território musical do qual inevitavelmente fazemos parte é como a rádio UVB-76. a frequência está lá, a mensagem é vazia, repetida, esquecida, repetida, mas ela é pra quem? Buscamos uma fluidez nos lançamentos, como em A necessidade..., em que a maioria dos sons não são músicas no sentido estrito do termo.

Concreto Morto

Vocês são de Curitiba e daí sempre saíram bandas interessantes de screamo/emo e uma galera do hardcore também. Como está a cena musical em Curitiba e por que criar o Concreto Morto?

Após tocarmos em bandas daqui de Curitiba como Motim, Paramorte, A Besta Deve Morrer, Homunculi, Ivpiter, etc. e em Blumenau como A Outra Face e Insvlariz, todos estávamos parados com relação a isso de se ter uma banda, graças a decepções com o próprio rolê musical e coisas exteriores a ele, a vida adulta batendo à porta, o capataz nos chamando para o trabalho com o chicote em punho... Tornou-se difícil ter tempo para se ter uma banda. Mas aí, como éramos amigos próximos que não se encontravam se não tivéssemos uma banda, nos demos conta: "hey, é ruim com banda, mas é pior sem", assim, juntamo-nos eu (Felipe), Vina e Daniel ao Yuri (recém chegado de Blumenau) e montamos o Concreto Morto e mais de um ano depois, juntou-se a nós o amigo Michael.

Apesar de lançarem os discos online para download, a banda sempre se preocupa bastante com a parte visual. Em “Viver Só”, por exemplo, vocês colocaram um zine dentro do arquivo de download. Como esse tipo de atitude e material reforça a ideia do que o Concreto Morto quer dizer?

Os zines são parte da estrutura estética da banda, que busca se diferenciar das demais do hardcore/punk e traz referências mais do post-punk. Isso também foi meio inconsciente, acho que tem a ver com a vibe dark das letras que se consolidaram com o primeiro álbum. As letras são sempre cheias de referências e colagens que gostamos de trazer a quem se interessa pelo que fazemos, é uma forma de fazer com que o ouvinte se torne leitor e entenda ainda mais o que temos a dizer e também de dizermos coisas que a estrutura musical acaba limitando. A arte desse novo lançamento ficou a cargo da Aline Vieira, que captou muito bem o que queríamos.

Por que vocês tem “medo de astrologia”?

O nome da música "Medo da Astrologia parte 2" vem da "continuação" de uma música de uma antiga banda do Yuri que levava esse nome. Escolhemos esse título pro álbum porque boa parte dos integrantes passou por uma fase ruim que de fato foi prenunciada pela astrologia, além do medo dos estereótipos - reais, juro! - com relação aos signos (por exemplo, sou de virgem com ascendente em virgem, e as pessoas não gostam disso)!

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2 comentários

  1. Tá faltando o nome do Michael no início do artigo, não tá não?

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