O paraíso dos surdos (ou se um karaokê de buteco é o céu, o show dodeafheaven é o inferno)

por - 14:40

[caption id="attachment_28218" align="aligncenter" width="695"]deafheaven por Lucas Panoni[/caption]

Acordei dolorido e ainda cansado do último fim de semana de rock. “Logo, logo, assim que puder vou telefonar, por enquanto tá doendo”. A poesia de “Eu e Você Sempre” dá um pau em qualquer American Football. A música do Exaltasamba feat. Jorge Aragão estava na minha cabeça há dois dias, e este verso especialmente ainda fazia sentido, porque o show do Deafheaven na noite anterior me deixara esmigalhado.

Aliás, não está sendo fácil assimilar as experiências todas do final de semana. No sábado, recebi o reconhecimento de um grupo de bêbados veteranos de um boteco com karaokê de ficha em Diadema. Nenhum karaokê hipster é páreo para um rolê daquele. Foi naquele momento que prestei atenção de verdade na letra do precioso samba. Meu nervosismo de cantar pela primeira vez num lugar novo somado a toda pressão que existe na simples frase  “esse alemão aí cantando samba?!” que ouvi de um senhor negro foram suficiente para me fazer grudar os olhos na tela. Foi só depois do primeiro refrão que pude perceber que todo mundo ali estava à vontade, dançando e cantando junto. Lindo demais. É Deus mamãe. Pedi até mais um litrão.

A mesma noite seguiu até as 9h da manhã do dia seguinte, quando terminei a última latinha na casa de meu amigo João Lucas. Nas horas suspensas, o purgatório pelos bares da Rua Augusta fez uma garrafa de Jack Daniel’s derreter como um passe de mágica. Consegui voltar pra casa como um cão vadio e ainda cumprimentei a senhorinha da casa ao lado. Ela deve achar que eu sou um alcoólatra fracassado, ou algo que o valha. Um pão com carne louca foi a minha refeição antes de dormir por 4 horas e acordar pronto para o show de black metal mais emo de todos os tempos.

Peguei o finalzinho do show da Nvblado. Se eles tivessem tocado mais tarde, daria tempo de ver o jogo da França inteiro. Só fui saber que Portugal ganhou nas prorrogações quando já estava no Clash Club. Espero que a próxima Eurocopa aconteça mais cedo. Enfim, queria saber como esmerilhar a garganta sem desgraçar a voz, como o Renan Pamplona e mais uma galera fizeram em “Afogado”. Se pra mim o show deles no Morfeus foi amor à primeira vista, este agora, abrindo para o Deafheven, foi a realização de um sonho que eu nem sabia que tinha sonhado. E a Terra Nunca me Pareceu Tão Distante também foi bonito. A presença de palco deles parece a do Explosions in The Sky. Mas por que um nome tão grande para uma banda 100% instrumental? Palavras não devem ser o forte deles.

https://www.youtube.com/watch?v=f-0fwYmgbxQ

Mas o tempo parou quando o telão de led exibiu o letreiro distorcido com as letras D E A F H E A V E N. Ali eu pude perceber que não era o único ansioso pelo show. O mais engraçado foi perceber que minha ansiedade era compartilhada por roqueiros das mais variadas camisetas de banda. La Dispute e Cradle of Filth são só alguns exemplos, mas dentro desta escala estavam os mais variados tons de música torta. Só eu e um amigo seguimos o protocolo da camisa florida fechada até o colarinho.

Discussão não falta pra tentar definir o som do Deafheaven. Mas sejamos justos: o nome da banda por si já deveria ser um gênero, pois o paraíso dos surdos só pode ser uma explosão de barulho desordenado. Às vezes eu conseguia encontrar alguma ordem no som que vinha das caixas graves da casa. A bateria soava ora como um tuc-tuc-tuc de motor de máquina de lavar, ora como um tu-du-du-du-du de caminhão carregado subindo a serra engrenado em marcha lenta – and I think that’s beautiful. Eu e um amigo ao lado tentávamos enquadrar cada trecho das músicas a uma categoria de metal, como as várias cartas do mesmo Exódia.

A segunda garrafa de água que eu tomei naquela noite quente sofreu na minha mão. Cada faixa executada eletrificava o meu corpo, que se tensionava querendo expelir algum fluído tóxico. Eu torcia ela toda. As poses e expressões dramáticas do vocalista George Clark eram tão intensas que me levavam a pensar que havia algo demoníaco ali. Era uma conjuração? Um exorcismo talvez?

Voltei a pensar na roda de karaokê do dia anterior. Na expressão de serenidade do senhor negro que me cumprimentou por ter conseguido cantar seu samba preferido sem errar a letra. Por chegar pisando fofo em seu território e fazer todo mundo se abraçar e cantar junto. Se pra mim aquele senhor foi o próprio Deus, então George Clark ali, naquele momento, era o próprio Diabo, e se pra um se acende uma vela, pro outro se acende duas.

[caption id="attachment_28219" align="aligncenter" width="695"]deafheaven por Lucas Panoni[/caption]

Então eu quis olhar nos olhos da besta. Na volta do bis, agarrei no braço de uma amiga que estava na ânsia do bate cabeça e fomos até a beira daquele mar de gente rodando e se esmurrando. Antes que eu pudesse pensar fui engolido. Perdi a amiga de vista, meu cabelo se soltou e lá estava eu, de frente com a fera. Xinguei o arrombado de todos os nomes possíveis e quis agredi-lo, como se só a violência fosse a solução para parar de me sentir assim. Então reparei que o guitarrista Kerry McCoy tocava com um sorrisinho no canto da boca, como se tivesse uma espécie de satisfação sádica.

Tenho quase certeza de que George me encarou ao pedir pra que todo mundo invadisse o palco. Aí foi que o barraco desabou. Senti a força das pessoas empurrando meu corpo e não ofereci resistência, apenas subi, ao som de “Dream House”, abraçado à besta fera e a um outro amigo remanescente. Uma vez lá em cima, deixei a gravidade agir sobre meu corpo em queda livre rumo à plateia, sem saber se seria carregado ou se atingiria o chão. A sensação era de cair de costas numa piscina funda, atingir o fundo e ficar lá um tempo, pensando se teria forças pra voltar. Um cara ainda caiu em cima de mim, e eu, com as pernas pro alto, senti um pontapé no peito enquanto estava no chão. No fim do show, eu tive certeza: se há 24 horas atrás eu visitava o céu, naquele momento eu estava no inferno.

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