Ouça e baixe "Desfiado", o novo álbum do Barulhista

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[caption id="attachment_28247" align="aligncenter" width="695"]Barulhista - por Marcos Aurélio Prates por Marcos Aurélio Prates[/caption]

O Barulhista lança nesta sexta-feira (22) seu novo trampo, Desfiado, álbum que sai pelo selo Fluxxx e mostra um artista mais rico, que constrói paisagens sonoras e mentais ao longo de todo o disco de uma maneira interessante. Compositor e produtor, o músico já gravou 13 discos em seus nove anos de experimentações sonoras.

Desfiado reúne "composições que são conduzidas pelo fio da temporalidade, em uma construção que lentamente revela nuances e desdobra-se do melancólico ao sublime". Para entender melhor a composição do disco, a experimentação sonora, os tempos passados de baterista e possível limitação do digital, conversamos com o Barulhista.

Ouça o disco abaixo.


Como diferenciar o aleatório do experimental? Ou isso não existe?

Penso que a aleatoriedade na música consiste em improvisar sem ter como alvo um resultado específico, já o experimentalismo muitas vezes é a tentativa de conseguir um resultado aberto dentro de improvisos ou de uma forma definida e previamente pensada. Mas pode não existir também.

Vejo esse disco um pouco mais denso e ao mesmo tempo, mais rico que os trabalhos anteriores, no sentido de construção de paisagem sonora. O que mudou de Desfiado para os outros trampos?

Meu ouvido está mais velho, porém não está gasto. Desfiado tem músicas com mais de um ano e meio de idade e outras que fiz na semana em que enviei para a master. As trilhas sonoras tem sofrido a mesma coisa, estou aprendendo a deixar as músicas no barril de carvalho, sempre há mais de uma alternativa para um andamento ou timbre.

Quando você começou o Barulhista, visava um processo de estudo de desconstrução de ritmos brasileiros. Acredito que este seja um estudo para vida, mas você consegue falar um pouco de suas impressões ao longo desses quase 10 anos?

Venho da bateria e da percussão, o que a gente ouve e toca aos 15 ou 16 anos de idade cola nas nossas mãos. Quase 10 anos pensando jeitos diferentes de produzir sons e ritmos abertos, que permitam ao ouvinte mais de uma escuta. Não tenho muita escolha, para além do estudo, sou brasileiro – batuco no banho.

A bateria ficou pra trás, mas a percussão ainda tá por aí em algum lugar?

De jeito nenhum, mesmo tocando violão, piano ou editando amostras, minha mente é rítmica. Uma vez baterista, sempre baterista, mesmo com as baquetas na gaveta.

Como é compôr e não se repetir, apesar de todos esses anos de trabalho? As ferramentas digitais são várias, mas não chega uma hora que elas ficam um pouco esgotadas? Como fugir disso?

Sim, chega um momento da composição que é possível perceber uma duplicação de uma forma ou de uma proposta, alguns chamam isso de assinatura, outros de falta de criatividade. Eu uso a mesma ferramenta digital desde que comecei, agora incluí o violão e a guitarra, mas sempre usados de um jeito que eu possa subvertê-los mais tarde. Acho que a gente não precisa fugir disso, música feita com cuidado é sempre uma novidade no tempo.

Esse é seu primeiro trabalho após a morte do Umberto Eco, e eu sei que você é um admirador do trabalho dele. Afora a vida e a literatura, em qual lugar podemos encontrar o Eco em seu trabalho sonoro? 

Puxa, fiquei bem triste com a notícia de que o Eco não iria mais escrever. O que eu mais aprendi e aplico em tudo é que sempre podemos apreender algo em qualquer experiência. Ouvir post rock, arrocha, funk carioca, sertanejo ou o centro da cidade numa segunda-feira, 18hs, faz parte de um aprendizado infinito.

[caption id="attachment_28246" align="aligncenter" width="695"]Barulhista - por Marcos Aurélio Prates por Marcos Aurélio Prates[/caption]

O que normalmente passa pela tua cabeça durante o processo de composição, o que vem na tua mente?

Uma resposta romântica: É sempre trilha sonora para alguma coisa que não passou por mim, ficou presa e cabe uma interpretação sonora. Resposta prática: Penso sempre numa forma mais inteligente de alcançar o ouvinte atento, já ouviu Marco Antônio Guimarães? Ele consegue isso com uma facilidade.

O que é preferível, o amadorismo ou o profissionalismo?

Profissionalismo, mas sem lamber a fama.

É necessário ter foco?

É necessário ter muitos focos, quanto mais focos melhor. Temos muitas coisas à nossa frente, felizmente temos dois olhos e dois ouvidos.

Comente esta frase: "A potência da música está nos timbres, eles carregam as surpresas que a gente encontra quando caminhamos pelas ruas da cidade".

O timbre é a impressão digital do som, quanto mais interessante essa impressão mais a gente precisa pensar para fruir. Daí (pensando em John Cage) a gente pode ouvir os ruídos da cidade como música. Basta a intenção e a vontade certa.

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