Um papo sobre o Mestre Felino e as Sessões no Sotão

por - 11:20

Danilo L Sevali

Conheci a Hierofante Púrpura ao vivo em um DoSol anos atrás. Mesmo que ela tenha ficado devendo "Hospital das Curas" no show do festival, posso dizer que meu apreço pelas pessoas da banda só aumentou naquele rolê. Percebi que a característica da psicodelia do som da Hierofante vem muito do estilo de seus integrantes. Ao vivo, vi pessoas que vivem bem com o presente, mas que se agradam de coisas passadas. Os integrantes viviam um esquema meio anos setenta, hippie, antes disso tudo ser modinha. E isso é uma característica de personalidade massa e que nem todo mundo consegue passar pra sua música sem ser influenciado ou sem soar fake.

Anos se passaram e após uma entrevista arrastada com o Danilo Sevali sobre as influências sonoras do grupo, algumas das quais tinham ganho versões no A Sutil Arte de Esculhambar a Música Alheia, um disco com inéditas e versões de bandas massas da música brasileira. Agora resolvi bater um papo com o Danilo sobre o Mestre Felino, estúdio que ele tem com a Helena Duarte em Mogi das Cruzes e onde tem feito um belo trabalho de registro da música independente brasileira nas Sessões do Sótão, além do apreço dele por coisas antigas. Em mais um papo massa, o Danilo falou sobre o estúdio, a banda, o fetiche pela fita k7, entre outras coisas. Leia a entevista e veja os vários videos da Sessões do Sótão abaixo.

Como partiu a ideia da criação do Mestre Felino e as sessões?

O Mestre Felino surgiu de uma série de confluências, sincronias e direcionamentos cósmicos que nos colocaram aqui nessa curiosa casa em Mogi das Cruzes. Desde quando saímos (eu e Helena) em 2011 de São Paulo com o intuito procurar uma casa para morarmos juntos, já caímos de cara nesse sobrado-com-sótão aqui num pacato bairro chamado Vila Oliveira. A cidade tem um cenário único, bucólico, rodeado por uma imponente serra, aquele clima rural, meio paradão, mas ainda sim inspirador. Foi muito natural imaginar que hora ou outra começaríamos esse processo de construir um espaço para pelo menos ensaiar com o Hierofante Púrpura e assim aconteceu! Evoluímos muito nosso som nesse período. Naquele esquema devagar e sempre, fomos formatando o espaço, entendendo as potencialidades, as possibilidades e impossibilidades.

Muito do equipamento existente aqui no estúdio foi adquirido/comprado do ex-produtor Carlo Bartolini (guitarrista da formação original do Ultraje a Rigor e que posteriormente trabalhou como produtor junto a grandes nomes do rock nacional nos anos 90) um cara muito respeitado e referenciado, a Helena começou como assistente dele em um grande estúdio de São Paulo. Um longo processo que dura até hoje ainda com algumas necessidades estruturais, manutenções, reformas, melhorias e etc...encarando com um projeto pra vida mesmo, saca? Enquanto estivermos aqui, estaremos trabalhando em cima de evoluir as idéias e o espaço. Outro processo natural foram as "Sessões no Sótão", agora já no seu trigésimo quinto episódio. Uma necessidade latente em produzir material, gerar conteúdo, documentar nosso tempo na música, funciona legal também pra gente como um cartão de visita, onde a banda pode conhecer intimamente nossa estrutura, equipamentos e o melhor... a vibe do lugar!

https://www.youtube.com/watch?v=yUNM_A10Jnk

Como se dá o processo de gravação? Sei que você usa um equipamento que podemos chamar de "retro".

É tudo sobre uma predileção estética sonora que a banda/artista está afim de encarar, como ela quer que seu álbum ou sua música soe... um lance sobre o ouvido mesmo e suas referências musicais. Nós gostamos (e muito) de gravar nossos discos em plataforma analógica, seja em quatro canais no K7 (grosseiramente falando "lo-fi") ou no 16 canais que é o rolo com uma polegada de fita parrudona (grosseiramente falando "hi-fi") são máquinas de uma marca tradicional japonesa, a tal da Tascam, uma delas é a 424 MKII 4track e a outra é famigerada MS-16. Essa última a gente comprou do estúdio do Sérgio Dias, o fera anunciou no Mercado Livre por um valor muito abaixo do que normalmente se pedem na peça (tipo sorte, saca?) conseguimos dar o lance na hora certa e BINGO!! Estamos pirando muito e curtindo gravar nesse pique analógico HI-FI, batizamos carinhosamente a máquina de "saltoquântico" (sugestão do próprio Mutante).

Nosso novo álbum, Disco Demência, foi gravado inteiro nela, realizamos uma produção em parceria com o Jonas Morbach, responsável pelas gravinas de todos os álbuns dos Haxixins e várias outros registros incríveis de bandas garage/psych/punk/rock em fita, o cara é mestre no assunto e toca no Black Needles. Mas de boa, sou super-fã das gravações digitais, com todos esses brinquedos modernos (quero dizer, periféricos) valvulados pintando nos estúdios por ai, inclusive aqui no Mestre Felino também gravamos assim. Como falei no começo, é tudo sobre escolhas, caminhos e seu orçamento. Não basta ter os melhores equipos em mãos, diz ae? Tem que ter o tal do knowhow (e uma boa noção de acústica), aí tá feito o estrago!

https://www.youtube.com/watch?v=hefisA7gHFo

Ainda nesse tema, o som da sua banda, o modo de gravação dos discos e deste projeto, todos eles nos remetem a processos antigos. Tu se considera um ser nascido fora do seu tempo? Como surgiu essa fixação/gosto por tais métodos?

Penso que mais do que uma fixação é um estilo de vida, uma filosofia de trabalho. Quantos álbuns de bandas modernas estão pintando com essa sonoridade dita vintage!? São vários! Por isso, não me sinto nascido fora do meu tempo, na real me sinto mais contemporâneo do que nunca. É aquela boa volta ao básico, aos processos pontualmente minimalistas, que valorizam as texturas, a ambientação, a sonoridade seja ela qual for. O digital deu uma corrompida na cabeça dos produtores e dos músicos, facilitou muita coisa, todas aquelas tracks e plug-ins disponíveis... dezenas e dezenas (quiçá centenas) de takes para "preencher" os espaços nas gravações, descompromisso total com a essência da captação, elevando às alturas o tosco termo "fix it in the mix" (risos). Parem as máquinas, para tudo!

Por aqui a gente procura o envolvimento, o take emocional, a imersão concentrada, a relaxada fluidez, a sonoridade das salas, os timbres quentes e cremosos dos valvulados, mas é aquilo, de maneira nenhuma existe a possibilidade de deixar tudo (o som da sua banda) na conta dos equipamentos, isso é um erro infantil, uma falácia que muitos estúdios e seus respectivos produtores ainda sustentam nos dias de hoje. Não somos contra plataforma digital, de maneira nenhuma! Trabalhamos com ProTools e esse software possui plug-ins incríveis, já realizamos (e ainda realizaremos) muita coisa linda nesse esquema. O lance é usufruir e surfar no melhor dos dois mundos, sempre aplicando o conhecimento a nosso favor, com certa sutileza ou moderação. O legal que nos analógicos o mais divertido é não ser moderado, é por pra ferver, pra saturar, vem uns harmônicos muito doidos, parece que o som já vem pronto.

Como é o processo de seleção das atrações das Sessões no Sotão? Existe isso de seleção? Qual objetivo do projeto?

São processos razoavelmente aleatórios, randômicos até. Vários fatores influenciam na hora do convite, no momento de produzir uma nova sessão, desde acasos, indicações, trabalhos de gravação com orçamento, bandas em turnês ou só de passagem, indicações de amigos do meio ou fora do meio, envolvimentos orgânicos, bandas que pedem pra participar, bandas que a gente pede pra participar ou simplesmente porque as idéias se cruzaram no momento e no lugar certo. O objetivo é simples: documentar artistas e músicos da nossa época, do nosso rolê ou de outros, é gerar conteúdo audiovisual pra uma história específica e única de bandas contemporâneas que tocam o autoral alternativo. Com o tempo que passa mais valor se agrega pra essas peças que criamos aqui e sempre é muito divertido e recompensador. Quando a banda se escuta bem gravada na fita (muitas delas pela primeira vez) as reações são exclusivamente de surpresa positiva, um sentimento de realização lo-fi temperados com muitos pitch-bends. Algo único ao se ouvir soando como as bandas mais clássicas e cultuadas, aquelas que sempre fizeram nossas cabeças e que sempre gravaram em plataforma analógica, ou seja, na fita.

https://www.youtube.com/watch?v=SlD6oIq_5bA

Isto é parte de todo um trampo que você desenvolve aí no interiorzão de SP. Mas quem financia este trampo ou é feito na raça?

Sempre foi na raça, sem apoio ou patrocínio de nada ou de ninguém, a boa e velha atitude autônoma. Opção essa que sempre nos ofereceu uma boa liberdade moral, artística e intelectual. Hoje os "poderes" estão muito centralizados, nunca fez tanto sentido ser independente, seguimos na marginalidade punk do faça-você-mesmo.

O que a mídia pode fazer pelo Mestre Felino? E o que não pode?

Por enquanto apenas divulgação, mais nada. A gente nunca sabe quando a parada vai gerar interesse ou não e isso nunca nos impediu de continuar produzindo, já rendeu umas pautas boas! Te digo que essa (entrevista) sem dúvida é a melhor.

Então a existência do Mestre Felino consiste em um estúdio de gravação para a Hierofante e outras bandas realizarem a possibilidade de terem seus discos lançados. Mas como é o esquema pra banda conseguir fazer parte desses rituais?

Funcionamos tradicionalmente como um estúdio de gravação, o que se transforma e se busca aqui são algumas propostas estéticas e/ou imersivas. Oferecemos o clima da casa e do bairro e da cidade como cortesia, aí oferecemos mais, nossos serviços como produtores musicais, instrumentistas, técnicos e tudo o que mais se emprega nos valores de se realizar uma gravação: algo como o knowhow, salas bem tratadas (técnica e estúdio), bons microfones, periféricos valvulados, os gravadores de fita e etc. Nosso fluxo de trabalho não é o fluxo de um estúdio comercial, entender isso ajuda muito. Então é aquilo, existem os rituais (Sessões no Sótão) e existem aqueles trampos que a galera entra em contato com a gente (normalmente via fanpage do estúdio) marcamos a data ideal, combinados os valores é so dar o play-rec. Normalmente pro meio do ano a procura esquenta mais, a galera vai vendo o ano passando e pensa: "preciso gravar meu disco" (risos). Não funcionamos como selo, não lançamos diretamente os discos das bandas que já gravaram aqui, apesar disso ser uma ideia que possa vir um dia acontecer.

E falando mais das Sessões do Sótão, elas não tem uma temporalidade coesa, e você falou ser randômica, mas dá pra ter um belo registro do que se tem feito de novo na música brasileira. Como vocês vêem o interesse das bandas em querer fazer parte disso? 

Tem quem pense que sou apenas um sonhador inofensivo, por outro lado temos as bandas que continuam vindo aqui (e de instantâneo já entendem a importância, sempre um sentimento de gratidão mútua) assim cada vez mais o interesse é maior para conhecer o nosso espaço, participar das sessões, gravar um álbum ou um single ou um EP, que seja. No fim das contas, não é nada menos do que: "receber os amigos em casa na hora do chá". E normalmente é assim que rola, galera em tour, não precisa nem ser em dia livre, por vezes a sessão já está até no cartaz da tour, acho isso incrível.

E já são mais de trinta vídeos: tudo feito na raça, mas com muita qualidade. Você consegue fazer um top 5 preferido entre eles? Eu entendo que é difícil escolher entre os filhos, mas você deve ter preferências sonoras e também pode ter se surpreendido com as novidades.

na real eu AMO todas (porra tem a galera +mais+ sinistra nesse rolé: La Carne, Alarde, BloodyMary, InfraAudio, Kalouv, Maquiladora, BIKE, PosT, MudHill, The Baggios, Lava Divers, TopsyTurvy...) a minha idéia é sempre fazer da última sessão lançada melhor que a anterior, e sem falsa modéstia pelo menos no meu âmago eu sinto que, unn, me superei em cada uma (risos) mas vamos lá:

1.Medialunas

https://www.youtube.com/watch?v=ByBL0apZCe4

2. Mahmed

https://www.youtube.com/watch?v=ysoYgTpWxVc

3. Krias de Kafka

https://www.youtube.com/watch?v=-egfotYm-oE

4. Boogarins

https://www.youtube.com/watch?v=g6ml6ZPR5TA

5. Lê Almeida

https://www.youtube.com/watch?v=wEezRj1DilI



Existe alguém que vocês queriam fazer uma Sessão no Sotão? Tipo, aquelas perguntas idiotas: existe alguém com quem você queria ter tocado/tipo uma banda?

Divertido pensar nessa resposta! Tenho muita vontade de um dia conseguir gravar a Patife Band, tivemos um contato recente legal com o Paulo Barnabé. Ele participa cantando numa das faixas do Disco Demência, soltou o verbo em "Baratas", ai fiquei pilhando essa ideia nele, vamos ver. Quem sabe eu convenço o Sergio Dias a vir gravar com o Mutantes uma sessão, até porque uma das máquinas de fita (que hoje grava aqui no Mestre Felino) já foi dele né? Seria uma loucura total pra minha cachola, ah seria. Gostaria de gravar o Againe, o Hurtmold, bandas de pessoas que são nossos amigos de longa data, grandes bandas que nos referenciaram muito, mas que ainda não conseguimos realizar essa juntos, mas tenho certeza que um dia vai rolar.

Danilo, eu sempre penso no quantidade de influências que recebemos em nossa vida. Então eu preciso perguntar. Como se manter autêntico com a quantidade de bombardeio que vocês sofrem com o estúdio?

A gente veio de uma época que esse bombardeio praticamente inexistia, e já produzíamos ali, nos referenciávamos ali, a evolução acontecia. Penso então que é mais fácil não se deixar afogar em meio a tanta produção de conteúdo, porque na real: chega ser acachapante. A solução mesmo é transbordar, eu procuro acompanhar de perto a produção (atualmente falando) da galera que produz nesse meio da música alternativa, mas é difícil acompanhar o ritmo. Isso pode ser bom, isso pode ser ruim, mas existem certas referências que não te abandonam, que estão sempre te enriquecendo de alguma maneira. Nunca fez tanto sentido ser indie.



https://www.youtube.com/watch?v=AycT2nZdEw8

Existiria o Mestre Felino sem a Hierofante? Ou uma coisa tem nada a ver com a outra?

Uma coisa é totalmente conectada a outra e ao mesmo tempo totalmente independente/autônoma. A gente construiu esse espaço com o intuito de gravarmos nossos álbuns da melhor e mais (louca) espontânea maneira possível, e o gato foi tomando corpo, pessoas foram se interessando em gravar aqui também, e a tendência é que isso cresça mais com os trabalhos sendo lançados, atingindo mais ouvidos interessados.

E fita k7 bicho? Ainda é fetiche hype ou voltou mesmo? Ainda não parei pra procurar meu toca-fitas, não sei se fica ou se vai.

"não sei se fica ou se vai...só sei que vai pra frente ou pra trás" pronto! Fizemos um melô da fita k7, se pá Givly Simons anima, hein? (se essa moda pega..) olha só, divaguei aqui... mas saca: fiquei pirando que eu queria fazer uma versão de "Mato Preto" (nossa ode canábica gravada em k7 no Sutil Arte de Esculhambar...) com o Givly cantando comigo. Mas voltando a fita um pouco (rew). Cara, é tudo isso e mais um pouco, vivemos a era dos fetichismos, do hypenessness, é nessa que o bagulho volta com tudo. Gosto de pensar que é um ótimo souvenir que a pessoa pode levar pra casa após um show que ela ou ele pirou, se vai ouvir ou não, ai já é outra história, fica pra próxima entrevista! Obrigado a todos que chegaram até aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=kr-xoGQ7oHs

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