A pílula vermelha e branca

por - 15:00

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Se você está lendo este texto hoje, primeiramente você deve agradecer à especial capacidade do ser humano de se adaptar a situações e aos percalços evolucionários tecnológicos aos quais enfiamos goela abaixo todos os dias. Afinal de contas, há quarenta anos, muito provavelmente eu teria que usar papel e caneta e rezar para que um veículo de comunicação publicasse um punhado de palavras sem sentido de alguém que acha que sabe do que está falando.

Antropologismos  (ou a falta deles) a parte, somos bombardeados de informação todos os dias e lidar com o fluxo destas e ainda manter o pensamento crítico é uma tarefa muito difícil. Nos obrigam a ter opinião o tempo todo e não te-las é um contrassenso, já que ação e reação é uma lei não aplicável ao contexto, apesar de soar coerente a tal. E como lidar? Aos trancos e barrancos, claro.

Talvez por isso hoje em dia digam que nossa geração é imersa na superficialidade do digital. É como mostrar que há um monstro debaixo da cama de cada criança e observar todas elas tendo dificuldade para dormir. Ou de ter uma cama.

Eis que como uma bomba N2, Pokemon Go cai em nossas vidas. Talvez não tão literalmente, já que o lançamento do jogo era bem antecipado pelos fãs, mas ainda mostrando um impacto sobre aqueles que um dia sonharam em escravizar e fazer rinhas de animais fantasiosos que poderiam facilmente destruir o mundo que conhecemos. Olha só, até parece uma alusão à relação de dependência entre governo e povo, né? Japoneses são espertos. Mas voltando ao ponto, o lançamento oficial no Brasil me soou atraente, porque afinal de contas, eu cresci assistindo/jogando os jogos. E óbvio, eu fui jogar, mesmo que a versão para o meu celular não fosse boa o suficiente, dado ao número de crashes e bugs que vi acontecendo.

Talvez tente novamente quando tudo for corrigido em termos técnicos. Porque ideologicamente, a coisa não vai longe. Neste ponto, concordo plenamente que você erga uma sobrancelha sobre uma análise sócio-psicológica sobre um jogo como Pokémon. Porra, é só um jogo! Mas existem aspectos interessantes a serem observados.

matrix

A ideia de realidade aumentada me faz lembrar um filme, clássico em minha retardada opinião, Matrix. E onde aprisionar bichinhos em bolas e lutar kung fu inserindo disquetes no cérebro se conectam? Oras, o conceito de realidade em ambos é similar. Há quem diga que Pokémon Go faz com que seu jogador explore o universo em sua volta. Concordo. Ao custo de que este universo esteja restrito ao jogo. Ou você vai me dizer que as dezenas de pessoas que hoje passam pelos cartões postais de uma cidade estão lá para apreciar o objetivo principal de criação de tais. Recriar o propósito, reapropriar, adaptar o que antes era um monumento X para algo usado no jogo é uma ideia inteligente mas, de novo, restrita ao jogo. Sendo assim, criamos um segundo aspecto, a grande muralha criada entre aqueles que jogam e os que não jogam.

Não sei quanto aos outros países, mas o velho Braza não é o país mais equiparado sócio-economicamente do mundo. E ambos os aspectos dizem algo simples sobre a população: muitos de nós não tem condições de jogar e muitos de nós nem ao menos têm ideia do que diabos é isso. A criminalidade foi um ponto levantado por muitos e, inclusive, tive contato com dois casos de pessoas que foram assaltadas justamente por estarem jogando Pokemon Go. “Devemos deixar de jogar o jogo porque o Brasil é um país a mercê de marginais prontos para levar o que é meu?”, você deve estar se perguntando. Pergunta delicada e, olha só, não tenho uma resposta para ela. Mas curioso como em Matrix eles também não tinham esta resposta. Eles se dividiam entre continuar suas vidas, se adaptando cada vez mais à realidade fodida que tinham e contra-atacar quando viam possibilidades, ainda que muitos apenas queriam viver suas vidas da maneira que podiam.

O que fica evidente acaba sendo a discrepância nas condições de quem pode ou não jogar, além da resposta daqueles que o querem e de suas atitudes extremas, tendo em vista o jogo ou a simples condição de se inserir numa sociedade cujo celular se tornou um item tão importante quanto a carteira (ironia?), os documentos, as roupas. Veja bem, não aprovo tais atitudes, mas elas acontecem, não por falta de polícia, mas por excesso de ócio.

E este, por fim, é outro aspecto a ser observado. Entretenimento é algo necessário nas nossas vidas. Eu mesmo poderia jogar videogame por horas a fio e o tempo é meu, uso como quiser. Pokémon Go traz um caráter de entretenimento muito similar a qualquer outro jogo de videogame, com a grande diferença de utilizar o mundo real como uma grande simulação do jogo. Você não é o Mario, o Sonic, o MegaMan, ou o CJ de GTA enquanto está jogando videogame, mas você pode muito bem ser você enquanto joga Pokémon Go, afinal de contas, o mundo é uma fase. Agora, se pensarmos que o mundo é seu tabuleiro, o quanto de tempo é investido nisso, tal como os riscos que você pode correr são igualmente dignos de cuidado. Vidas temos uma só, o Mario se come o cogumelo tem mais uma.

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Observamos isso quando vemos os acidentes já notificados com relação ao jogo. Parece até exagero, mas a simulação nos permite acreditar que estes riscos não são necessariamente existentes. E tal aspecto vale realmente a pena, se pensarmos nos resultados? Novamente, boa pergunta.

Vejamos se finalmente vão consertar ou atualizar o jogo para o meu celular, já que hoje ele está uma merda e não dá pra jogar direito. Sem contar na velocidade em que tudo isso vem acontecendo, afinal, pode ser que outra coisa surja na mesma velocidade em que esta surgiu. E como lidar com isso? Aos trancos e barrancos, claro.

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1 comentários

  1. haha a imersão quando se esta jogando é realmente surreal, você entra no jogo e sai andando sem pensar realmente no que pode acontecer, se realmente vale a pena expor-se a tanto risco o famoso custo/recompensa;

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