Maria Bonita Fest realiza sua primeira edição

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Maria Bonita Fest

O Maria Bonita Fest realiza sua primeira edição neste sábado, 6 de agosto, na Casa Goiaba. O festival é todo idealizado e produzido por mulheres e a proposta é retomar um espaço para as mulheres artistas nas mais diversas áreas do underground. Para essa primeira edição, o evento foca na Visibilidade Lésbica, que é comemorada durante o mês de agosto.

A programação vem cheia de artista da hora. No som, Kolika, Sistah Chilli, Zero Absoluto, DJ Natacha Orestes, além de uma banda surpresa, ditam o ritmo do sábado. E claro, zines, um esquema de mini-flash tattoo, exposição, brechó, uma roda de conversa e venda de rango vegano também estão garantidos no evento.

Aproveitamos a oportunidade e conversamos com Cibele Vargas, que representando todo o MBF nos deu essa entrevista sensacional.

Essa é a primeira edição do Maria Bonita Fest. Conta pra gente como surgiu a ideia e quem está por trás do festival?

As mulheres sempre foram minoria nos roles ditos punk e de contra cultura, por vários motivos. Durante os shows, estamos sempre nos cantos, no fundo, longe do pogo e mais ainda do palco. Somos marginalizadas mesmo dentro de um espaço que em teoria é inclusivo, mas que na realidade sistematicamente oprime e relativiza a nossa presença. Percebemos que outras manas estavam cansadas disso, cansadas de aplaudir banda de homem, cansadas de não estarem representadas, cansadas de não estarem a vontade no rolê. Então pegamos esse cansaço e transformamos em ação. Nós somos mulheres feministas autônomas, do meio punk/hardcore e de outros espaços que resolveram reunir bandas incríveis, artistas talentosas, cozinheiras de mão cheia e promover a valorização do trabalho de minas que fazem o trampo com muita garra. Pra nós a Maria Bonita é um símbolo de mulher forte e guerreira que rompeu com diversos paradigmas. Nos inspiramos nessa força para construir o festival.

O Maria Bonita Fest reúne mulheres em várias áreas artísticas. Por que fazer um festival tão plural e qual a importância de dar visibilidade às mulheres na cena undergroud, que se prega tão igualitária?

Temos uma rede de contatos bem grande e todos os dias mais manas entram em contato elogiando a iniciativa, interessadas em participar e expor seus trabalhos no evento. Isso nos diz muito sobre como elas são invisibilizadas. Não é por falta de quem faça, mulheres fazendo coisas fantásticas é o que mais tem por aí. O que falta é espaço. Nós precisamos mostrar isso. Muitas vezes, nos eventos desse meio, agressores, assediadores e estupradores circulam livremente, se dizendo de esquerda, punks e revolucionários. É importante criarmos um ambiente seguro e que incentive as mulheres a tomar de volta os espaços que foram tirados delas. Uma forma de resistir e fincar nossa bandeira, é dar o protagonismo total à essas mulheres. Recentemente rodou pela internet uma lista colaborativa com contatos de bandas de mulheres ou com mulheres na composição, desse jeito não tem mais desculpa para não chamar para tocar.

Maria Bonita Fest

Vocês frisam bastante que as mulheres não estão apenas na linha de frente do festival, mas também na produção e idealização. Vocês acham que ainda há muita resistência à presença feminina nos bastidores? E como quebrar essa resistência?

Não existe nada que nós não possamos dar conta. Fazemos questão de que todas as demandas possam ser feitas por mulheres. Até mesmo a parte de regulagem de som e equipamentos que, muitas vezes ficam por conta dos caras, vai ser feita por manas que aprenderam e estão capacitando outras manas. A autonomia é algo que sempre temos em mente na vida e não seria diferente no Maria Bonita Fest. Toda vez que aparece um evento novo, são os mesmos caras héteros, brancos, promovendo as mesmas bandas dos amigos. A questão de gênero constantemente é algo menor aos olhos da esquerda. Acaba sendo mais do mesmo sempre, só que chamam de revolução. Existe sim muita resistência por parte dos homens nos bastidores, assim como em qualquer outro espaço que não seja dentro de casa, e ela se dá pela manutenção do patriarcado. Insurgir no underground é só mais uma das nossas lutas anti-patriarcais diárias, de resistência contra as violências misóginas reproduzidas no nosso meio.

Existe um estereótipo de que mulheres não conseguem trabalhar juntas, por criarem um sentimento de inimizade. Qual o papel do festival em quebrar esse estereótipo e fortalecer os laços entre as mulheres artistas e realizadoras?

Essa é uma ideia muito cruel, criada para nos enfraquecer e nos desmobilizar. A suposta rivalidade é um pensamento que precisa ser revisto a todo tempo. Quando as mulheres se unem, rapidamente se tornam muito fortes, é sintomático, inevitável e é o maior medo dos machistas. A esperança com o festival é que cada vez mais, outras mulheres se unam na reconstrução da cena underground e em qualquer outro espaço que sintam necessidade. Daqui pra frente não tem volta, não daremos um passo atrás. Se o mundo já não sabe, vamos mostrar que as mulheres não são rivais, elas são a real revolução.

Para encerrar, falem da importância de dar destaque à Visibilidade Lésbica mesmo em um festival marcadamente feminista.

Nosso tema pretende dar destaque para uma parcela muito importante da luta feminista. A luta lésbica é uma parte essencial do histórico da luta e resistência das mulheres que sistematicamente apagadas da sociedade. Acreditamos que somar nesse mês e dialogar com a proposta inicial do festival é uma maneira de marcar presença e enaltecer essa força contra a violação de direitos pela sociedade e pelo estado. Mexer com uma é mexer com todas.

Maria Bonita Fest #1 | Visibilidade Lésbica
Quando? Sábado, 06 de agosto - 16h
Onde? Casa Goiaba - Rua Marta, 115 - Barra Funda - São Paulo - SP
Quanto? Doação de itens de higiene e beleza, leite em pó ou fralda que serão doados para as mulheres do CATSO [manas 1 item | manos 2 itens]
Infos? Facebook

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