Não somos todos idiotas

por - 14:30

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“Não deixe que façam por você aquilo que você mesmo pode fazer”. Sempre confundo se o autor desta frase foi Malcolm X ou meu avô. Ao menos pra mim, ambos possuem seu argumento e por isso poderiam perfeitamente proferir de tais palavras. Mas meu avô tem um boteco no qual vende cachaça com animais dentro, então acho que referente à frase, ele tinha um ponto mais específico sendo trabalhado.

Sabemos o quanto um litro de cachaça pode ser útil para várias coisas, mas um litro com uma cobra, um lagarto, uma piranha e até mesmo um tatu são outra história. Não concordo com a prática, mas me pergunto até hoje como aquele velho faz isso.

Nos últimos anos, vimos acompanhando a politização da palavra em contextos gerais e focados. Todo mundo tem algo a dizer sobre o lugar em que pertence, ao grupo étnico, de gênero, de orientação sexual e política, de hábitos e até mesmo de crenças. E isso é legal de se observar. Não que ache que antes isso não existia, mas hoje se um cutuca o outro, dá se a fagulha que pode acender o barril de pólvora que temos em nós. E você achando que o oriente médio era assunto delicado.

Todos estes grupos citados, fora os que estupidamente não citei, buscam a visibilidade de causas que para uns, já é comum. Mas um grupo em específico permeia todos os outros, mas aparentemente é ignorado violentamente por questões que, por ora, digo que são desconhecidas: as pessoas com necessidades especiais.

Vale ressaltar, aqui peço perdão se o termo oficialmente decretado não for adequado na visão daqueles que são pertencentes à categoria, mas o usarei apenas por questões práticas.

Apesar das adversidades, que não são poucas, as pessoas com necessidades especiais vivem numa sociedade cheia de vozes que apontam suas diferenças e tentam se encaixar apesar dos pesares. As vezes me parece que existe uma certa arrogância frente a aqueles que não tem necessidades especiais, como se estes devessem apenas ser vistos com pena ou com uma compaixão de quem necessita de olhares piedosos. Digo isso pela ideia que a mídia passa em suas coberturas e reportagens abordando as situações envolvendo pessoas com necessidades especiais. Devíamos estar pensando em inclusão. Compreendo o quanto sensibilizar pode ser um passo, mas não saímos dele em muitas situações.

Campanhas de publicidade são as campeãs nessa sensibilização que sai barata. Eu culparia o capitalismo, mas vamos tentar olhar mais a fundo. Exemplo que não dá pra ignorar foi o caso Vogue Brasil, que usou atletas paraolímpicos, ou melhor, suas particularidades em termos de necessidades especiais em atores globais, como forma de sensibilizar e dar importância à paraolimpíada. Tudo parece bem errado, se olharmos o panorama geral. Mas mesmo no específico, tudo é realmente uma grande cagada.

Se precisamos realmente usar atores globais com necessidades especiais de outras pessoas para nos sensibilizarmos com uma ou mais causas, tem algo errado acontecendo. Dialeticamente, os atores já são comuns à população, conseguiriam ser mais facilmente aderentes a uma causa, certo? Quanto a isso, até conseguiria compreender o pouco de lógica existente, mas o objetivo disso talvez não tenha ficado claro. Deveríamos dar suporte aos para atletas assistindo aos jogos, compreender as necessidades especiais que milhares de pessoas tem em todo o Brasil, assistir novela da Globo?

Claro que campanhas publicitárias não possuem o tempo e nem a sensibilidade que realmente demandariam, por questões que honestamente desconheço. No entanto, é minimamente leviano não pensar que tais campanhas não gerarão impacto se pararmos pra pensar que o público vai lidar com elas de uma forma mercadológica ou num ponto de vista mais distante.

E como lidar com isso? De várias formas. Uns surtaram, uns acharam válido. Cada um com sua reação, mas o que me deixa esperançoso no futuro é perceber que pessoas reagiram a isso. Difícil não pensar que de todas as formas de exclusão possíveis dentro de campanhas publicitárias de nichos específicos, não havia alguém que não fosse um ator global que não pudesse ser minimamente representativo ao público alvo e ao alvo da campanha. Em minha ilusão, imaginava que muitos fatores nos fariam próximos, apesar da necessidade especial de cada atleta ou de cada pessoa no Brasil. Somos brasileiros, temos que lidar com golpe, a ascensão do BuzzFeed como jornalismo, ao preço do litrão subindo sempre e tantos outros problemas, que nos afligem. Mas por outro lado, ninguém melhor que nós mesmos para fazer o que nós mesmos sabemos, falando da representatividade que talvez tenha sido o alvo. Sábias palavras de meu avô. Ou de Malcolm X.

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