No Ar Coquetel Molotov e o Girl Power na música nacional

por - 10:24

Ventre

Acontecendo desde 2004, o No Ar Coquetel Molotov é um dos maiores festivais do Recife e um dos mais importantes do país. Nesses 12 anos, bandas como Beirute, CocoRosie, Teenage Fanclub, Marcelo Camelo, Moraes Moreira e Mombojó já passaram pelo evento. A edição de 2016, que irá se estender a Belo Horizonte, além do Recife e Belo Jardim, vem mostrar a força das mulheres na música brasileira. Além da já confirmada Céu, os grupos Ventre e Rakta estarão no festival.

Larissa Veloso é a baterista do power trio Ventre, que conduz ao lado dos amigos Hugo Noguchi (baixo) e Gabriel Ventura (guitarra e voz). Ela começou a tocar aos 13 anos e hoje, mais de uma década depois, ainda tem que enfrentar a descrença de roadies e técnicos quando vai gravar ou se apresentar. Canhota, ela já chegou a tocar várias vezes com a bateria para destro para não ser questionada sobre a inversão da montagem. Atualmente, Larissa toca o projeto Bateria Intuitiva para mulheres, uma oficina que trabalha com sensibilidade e improviso ao invés de regras e técnicas, fazendo com que mulheres fiquem mais a vontade para se expressar através do instrumento. A Ventre está em seu disco de estreia, homônimo, e vale a pena assistir aos clipes de Quente e Peso do Corpo, dois vídeos belíssimos.

A Rakta, por mais que soe clichê, tem uma sonoridade indefinível e é uma banda que precisa ser escutada, pois todas as descrições serão menores que as músicas. Formada por Paula, Carla, Nath, Laura, o grupo mistura influências de todas as suas componentes para criar um som orgânico e único. Com cinco discos disponíveis no Bandcamp, o último deles gravado em sua turnê internacional, a Rakta é um dos grupos mais fortes e instigantes do cenário alternativo brasileiro.

Conversei com Ana Garcia, a Aninha, umas das duas cabeças do Coquetel Molotov sobre o festival e a presença feminina na produção, no palco e no público de grandes eventos.

[caption id="attachment_28299" align="aligncenter" width="695"]rakta por Mateus Mondini[/caption]

O No Ar Coquetel Molotov está na 13ª edição e é um dos festivais mais importantes do país. Mas o Coquetel Molotov é bem mais que o festival. Conta mais pra gente da história dessa multiplataforma.

O Coquetel Molotov começou como um programa de rádio em 2001. Estávamos todos estudando jornalismo e decidimos criar um programa na Rádio Universitária AM. Poucos anos depois fizemos o site e começamos a bolar a ideia de fazer um festival de música. Os meus pais, que são músicos clássicos, já tinham o festival Virtuosi e achávamos que poderíamos fazer algo parecido para trazer as bandas que amávamos, mas ninguém estava trazendo. A primeira edição aconteceu em 2004 e não conseguimos parar desde então. Do começo até hoje, o programa de rádio passou por algumas rádios comunitárias até chegar na Rádio Universitária FM, 99.9, a sua casinha até hoje. Também rodamos algumas edições da Revista Coquetel Molotov que tinha um foco muito voltado para música, mas convidávamos diversos artistas para ilustrar. Era linda e até hoje as pessoas perguntam por ela. Queria ter a coragem e tempo para voltar com ela!

Este ano, além de Recife, o festival vai para Belo Horizonte. A ideia é expandir para mais estados? E por que começar por BH?

O festival já aconteceu duas vezes em Salvador e sempre rodamos com os gringos pelo Brasil e América do Sul, além de levar edições menores para cidades como João Pessoa e Fortaleza. Então, com certeza sempre tivemos essa vontade de expandir, mas não é fácil. Mas estados como Minas Gerais e Bahia têm lei de incentivo a cultura em formato de mecenato, o que significa que podemos captar, e isso tem facilitado a nossa ida para essas cidades diferentes. Este ano iremos para Belo Jardim, mais uma vez, Belo Horizonte e Salvador. Esperamos ir para mais cidades nos próximos anos. Cada cidade tem um formato, programação e público diferente e é muito bom ir conhecendo o Brasil desta forma.

A gente sabe que existe uma certa resistência às mulheres na cena musical, seja no palco, seja nos bastidores. Como é estar a frente de um festival desse porte?

E são poucas mulheres a frente dos festivais, mas, muitas vezes, tem mulheres como braço direito de quem realiza ou na equipe, mas é diferente de quem toma frente porque nem sempre é quem lida com a parte de captação, entre outras coisas. Mas eu cresci cercada por homens, tenho cinco irmãos, todos homens! Os meus primos são todos homens, só tenho uma única prima mulher, então, nunca me senti desconfortável e muito menos incapaz de lidar com esse mundo dominado por homens. Acho que até sempre fiz as coisas sem analisar direito se algo estava acontecendo porque era mulher. Mas claro que já rolaram diversas situações constrangedoras, desde empresário bater na minha bunda a discutir com produtores que acharam que iriam falar com algum homem acima de mim para reclamar de algo que eu não estava permitindo. As vezes eu fico com raiva de mim mesma porque em situações de estresse a minha vontade inicial é de chorar e já me peguei em meio de discussões tendo que desligar o telefone porque precisava chorar, botar para fora, e voltar a discutir. Mas eu sei que isso vai de mulher para mulher, mas imagino que temos hormônios que deve facilitar isso na gente em momentos assim.

A equipe de produção do Coquetel Molotov sempre foi em sua maioria formada por mulheres e gays, mas tenho tentado a envolver mais ainda mulheres na equipe. Sinto muita dificuldade em conseguir mudar a nossa equipe técnica, que cuida da parte dos palcos principalmente. E pensando bem… nos 12 anos de festival, só tivemos 3 mulheres técnicas acompanhando bandas para cuidar do som ou da luz. Nunca recebemos uma roadie mulher no palco.

ceu

Para esta edição, vocês já anunciaram a Céu, um estrela de primeira grandeza no indie nacional, agora Rakta, uma banda toda formada por garotas, e Ventre, que tem a Larissa Conforto na bateria, ambos grupos de destaque do underground nacional. Você acha importante reforçar essa presença feminina no palco de um evento tão relevante para a cena alternativa?

Eu acho essencial. Fico impressionada como diversos festivais não se preocupam em ter uma programação com mais mulheres. Lembro de uma discussão no ano passado sobre como a maioria dos festivais não tem nem 20% da sua programação feita por mulheres. Este ano até cheguei a cogitar a possibilidade com o meu sócio, Jarmeson de Lima, de fazer uma programação toda feminina… As vezes acho que precisa ser radical mesmo para mostrar um ponto. Já vi festival criando palco só com mulheres. Acho interessante, mas ao mesmo tempo acho que essa inserção deveria acontecer organicamente, inserida na programação como um todo e não ter que criar algo separado focado nisso, apesar de achar que já é um bom começo. É difícil exigir que uma programação seja baseada em mulheres, ela tem que ser baseada em música boa antes de tudo, mas em geral as pessoas já tem um preconceito ou naturalmente vão montando uma programação masculina. Então, precisamos realmente colocar isso em debate para ser mais natural ter mais mulheres na programação sem comprometer a qualidade musical. Imagino que a cena eletrônica sofra mais com isso, muitas vezes os festivais tem uma DJ mulher e só! Mas estamos vivendo um momento único de união e conscientização MUNDIALMENTE. E, no fim do ano, vamos discutir novamente essa porcentagem de mulheres nos festivais. Tenho certeza que terá aumentado.

Como produtora, o que você acha que é possível fazer para tornar grandes eventos ambientes mais confortáveis e seguros para as mulheres? E você acha que a presença de mulheres nos palcos e nos bastidores ajuda nesse processo?

Acho que a presença de mulheres no palco tocando e trabalhando na produção, nos bares, na equipe de segurança, etc com certeza ajuda a torna o ambiente mais seguro para mulheres e todos em geral. Fazemos questão de ter mulheres trabalhando em certos pontos do festival porque já sentimos na pele estranhezas em outros eventos, quando era cuidado por um homem, por exemplo. É muito importante conversar com toda a equipe do festival, desde limpeza a técnicos sobre a proposta e como deve proceder em caso de qualquer tipo de complicação. Mais ainda sobre o que é o festival e o propósito dele existir. Isso é um processo que fazemos diversas vezes antes e durante o festival com toda a equipe. Todos tem que ser respeitados da forma igual, seja artista no palco, equipe ou público.

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