O Little Monster assustou Belo Horizonte

por - 10:56

[caption id="attachment_28366" align="aligncenter" width="695"]LittleMonster_MariaCaram por Maria Caram[/caption]

Vindo de uma turnê cheia de recortes, o duo sino-brasileiro Little Monster desembarcou em Belo Horizonte em pleno Fest Curtas e foi a estrela máxima da festa de encerramento do festival de filmes. Chegaram aqui pelas mãos de Ana Moravi, cineasta e vocalista da banda Madame Rróse Sélavy, indicada ao Alê (a parte brasileira do duo) pelo consulado brasileiro na China. Na Gruta, uma casa que vem se tornando cada vez mais emblemática para a cena underground e criativa de BH, foram recebidos pelo grupo Pílula Radiotiva e dividiram o palco com o próprio Madame e com o Grupo Porco de Hardcore Interpretativo.

O show do Little Monster é catártico e bem construído. Divido em duas partes, uma mais experimental, outra mais rock, a banda não tem medo algum de entreter o público enquanto troca cordas de guitarra ou ajusta alguma coisa no som. F timidamente fala algumas coisas em chinês e solta um “Fora Temer” em um português razoável. Inglês, chinês e português se intercalam nas letras - inclusive um português sincopado para ter uma pronúncia chinesa.

A banda tem uma qualidade essencial para mim: eles realmente se divertem com o que fazem. Não tem nada blasé nessa apresentação, nada de estrelismo. O som da casa passa longe do ideal? Sem problemas. O público tá distante e encostadinho na parede? Problema deles. O que acontece no palco é digno de qualquer festival, em qualquer lugar do mundo.

Descrita como a misteriosa F, o lado chinês do duo é representado por uma incrível baterista, guitarrista, cantora e compositora que está mais para simpática e divertida do que para artista enigmática. Em uma rápida conversa no meio da rua, ela nos contou que 95% da música que toca nas rádios chineses é pop music - em sua maioria pop music asiática -  e de como Mariah Carey ou trilhas sonoras de filmes foram importantes para que ela conhecesse música de outros lugares. Quanto mais ela conhecia, mais se interessava e mais pesquisava.

[caption id="attachment_28367" align="aligncenter" width="695"]MadameRroseSelavy_MariaCaram por Maria Caram[/caption]

A internet era precária e computadores só podiam ser acessados na escola, momento usado para pesquisar toda a informação que ela tinha acessado ao longo dos últimos dias. O download de músicas era extremamente bem protegido e as canções eram escutadas em formatos 30 segundos - um trial listening -  permitidos por lei. Um mercado negro de discos, com pilhas e pilhas de CDs piratas que custavam em torno de R$ 5 e eram disputados a tapa, era a maior fonte informação musical rara. Ao contrário dos dias atuais, ter um disco, conhecer uma música e passar isso para os amigos era algo quase impossível de se fazer.

Na faculdade, ela começou um programa de rádio para dividir as músicas que gostava com outras pessoas e sua companheira de programa também tocava guitarra. Ela quis aprender, comprou sua primeira guitarra semi acústica e foi criando uma rede quase espontânea, sendo indicada de uma banda para outra até chegar ao Little Monster. Nossa conversa acabou nesse ponto, porque o Grupo Porco ia começar seu set e depois desse momento foi uma catarse atrás da outra.

Disso tudo, podemos tirar algumas lições: a primeira é que a música pop e mainstream também tem um papel fundamental em levar curiosidade e interesse em lugares onde a música experimental e alternativa não consegue chegar tão fácil. A segunda é que, apesar das rádios serem dominadas por um esquema comercial brutal, é possível ultrapassar essas barreiras, como ouvinte ou como artista, e criar/escutar uma música mais interessante e instigante do que a oferecida pela mídia de massa. Por fim, como já foi dito nesse texto aqui, fica a lição pro nosso undergroud: o Brasil é grande, mas mais perto que a China. Tem mundos inteiros para a gente descobrir dentro e fora daqui. O backline é ruim, a estrada é pesada, mas um pouco de organização e auto investimento podem levar a gente longe. Até o outro lado do mundo.

Você também pode gostar

0 comentários