Revisite o UDIGRUDI com a coleta "No Abismo da Alma"

por - 14:49

Capa por Julio Mattoso

Saiu nesta segunda-feira (22) a coletânea No Abismo da Alma, uma homenagem ao movimento de contra cultura UDIGRUDI.  Iniciado nos anos 1970, no Recife, o movimento foi multicultural, incluindo elementos do universo underground e marginalizado da cidade, como o teatro, a poesia, o cinema e a música.

A música estava intimamente ligada a psicodelia que tinha surgido nos anos anteriores e se espalhado pelo mundo. É sabido também que a escrita beatnik foi grande influenciadora de algumas das principais cabeças da cena. Mesmo tendo sido um movimentação localizada e disseminada rapidamente na cidade de Recife, diversos nomes do nordeste apareceram como nomes importantes da brincadeira.

Alguns totens da música brasileira também tiveram seus primeiros acordes e canções entoadas durante este breve período de efervescência multicultural que tomou conta da capital pernambucana. Entre eles, nomes como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho. Este último, o paraibano Zé Ramalho junto com o Lula Côrtes foram responsáveis pela dita masterpiece musical do movimento, o disco “Paêbirú”, lançado em 1974 e dito o álbum em vinil mais raro da história da música brasileira. Isto por que cerca de mil copias do vinil foram-se na grande enchente que acometeu o Recife no ano posterior. Sobraram então algumas poucas centenas.

Entre os nomes que nunca aferiram a alcunha de artistas da alta patente nacional, porém nem por isso menos importante, Lula Côrtes, na minha modesta, é o integrante musicalmente mais interessante da trupe do UDIGRUDI. Além do Paêbirú, Lula lançou junto com Laílson, um dos melhores discos instrumentais do período psicodélico brasileiro, o Satwa (Revisitamos ele aqui). Além dele, a banda Ave Sangria, primeira banda nordestina de rock a ser gravada em vinil no Rio de Janeiro, também foi um nome bastante importante e que voltou à ativa e continua fazendo shows até hoje.

Entre os diversos registros, um dos discos mais obscuro e bonitos do movimento foi o de Flaviola & o Bando do Sol, disco homônimo lançado em 1974. Pra muito pernambucano que cresceu ouvindo este disco, Flaviola era dado como morto, após ter sumido em uma história recheada de lendas. Eis que em 2015, o mesmo reaparece sob a alcunha de Flavio Lira e junto com Zé da Flauta e Paulo Rafael (nomes originais do Bando do Sol) se misturou a novos nomes da cena pernambucana como Juvenil Silva e fez um dos shows mais bonitos da história do Festival Abril Pro Rock.

https://www.youtube.com/watch?v=O79sxZF_8tA

Eis que mais de quarenta anos depois destes e de diversos outros discos terem sido lançados, um tributo a alguns dos nomes e alguns dos hinos sonoros do movimento é lançado. Com produção de Leonardo Paladino e projeto gráfico de Julio Mattoso, o projeto conta com 19 faixas regravadas por nomes como Graxa, Meneio, Bratislava, Bike, Vitor Brauer e Supercordas.

A tal da nova cena psicodélica brasileira reverencia os mestres e mitos, que mesmo em um período conturbado e ditatorial, conseguiram se expressar e atravessar a barreira temporal, com mensagens quem se mantem vivas e atuais.

Dentre as 19 faixas escolhidas, destaque para a versão de Graxa para "Georgia, a Carniceira", hino do primeiro disco do Ave Sangria, a releitura interessantíssimas da Meneio para "Allegro Piradíssimo", uma das minhas faixas preferidas do Satwa, a versão melancólica do BIKE para a tocante "Não Existe Molhado Igual ao Pranto", de Lula e Zé e originalmente lançada no Paêbirú e a apropriação sonora da Supercordas em uma versão incrível de "Nas Paredes da Pedra Encantada", uma das melhores músicas que já ouvi.

Eis um belo registro para quem não conhece a tal movimentação ter acesso a alguns nomes e canções. Aconselho todos a ouvirem no soundcloud e irem atrás das obras originais, algumas delas, dos melhores registros da musica brasileira.

https://soundcloud.com/no_abismo_da_alma/sets/no-abismo-da-alma

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