E sobre a violência

por - 15:24

[caption id="attachment_28440" align="aligncenter" width="695"]Charge do Bruno. Não há mais nada, não tente se omitir e nem aponte o dedo pra fingir não ser você. Charge do Bruno.
Não há mais nada, não tente se omitir
e nem aponte o dedo pra fingir não ser você.[/caption]

Ontem aconteceu mais um caso desses ligados a cultura de violência na qual vivemos. Um jovem, integrante da Inferno Coral (torcida organizada do Santa Cruz), foi agredido com extrema violência e de maneira covarde por vários torcedores do Sport (não lembro de nenhuma camiseta da Torcida Jovem no vídeo). Isto tudo aconteceu antes da partida entre Santa Cruz e Sport pelo campeonato brasileiro da Série A. Como hoje em dia todo mundo tem um celular e está conectado, o vídeo da agressão foi gravado e replicado em redes sociais, apps de compartilhamento no celular e veiculado em vários dos canais ditos de notícia da cidade.

Como não vivemos de clique, não iremos postar o vídeo aqui. Também não iremos, porque tal replicação irresponsável em busca de cliques e views, só ajuda no aumento da cultura de violência em que vivemos. Cultura de violência vista na TV diariamente em programas como o do Datenão e todos os outros que copiando o formato, acham engraçado tratar da violência como algo banalizado e sempre pelo foco mais equivocado da questão. Porque quando você expõe o vídeo e põe a culpa no agredido ou no agressor, sem saber realmente o que aconteceu, você toma partido e inicia um discurso de ódio e preconceito. No caso de ontem, a culpa foi cair mais uma vez nas organizadas, mas será que é isso mesmo? A violência no futebol é culpa das torcidas organizadas?

Eu sou torcedor do Santa Cruz Futebol Clube desde que me entendo por gente. Ao andar e falar, sempre me vi atrelado as cores do tricolor pernambucano. Cresci literalmente frequentando o estádio José do Rego Maciel, popularmente chamado de Arruda. Foi lá que tive meu primeiro contato com a cultura de violência, por volta dos 7 ou 8 anos de idade. Lembro de uma garrafa de vidro quebrando na cabeça de uma pessoa, outras tantas voando de um lado para o outro, na saída de um clássico entre Santa e Sport. Meu pai me pegou no braço e correu de volta pra sede do Santa Cruz.

[caption id="attachment_28441" align="aligncenter" width="695"]Foto do Arruda no Wikipedia. Foto do Arruda no Wikipedia.[/caption]

Isto aconteceu a cerca de 25 anos atrás, quando ninguém falava em iInferno Coral e Torcida Jovem, a única torcida organizada que existia era a Fanáutico, do Clube Náutico Capibaribe, que não fazia parte daquele jogo. A Torcida Jovem foi criada anos depois daquele dia, assim como a Inferno Coral, ambas com pouco mais de 20 anos. Se as torcidas não existiam e garrafas eram quebradas, a violência precede as organizadas. Digo isso porque é muito fácil reproduzir e pôr a culpa nas torcidas, sei porque já fiz muito isso. Esta ação ajuda muito o poder do estado, que pouco é questionado quanto sua inoperância. Marginalizar jovens torcedores é bem mais fácil do que se perguntar sobre as ações da polícia e do legislativo, que mesmo com imagens claras dos agressores, não os enquadra nas leis existentes.

Eu sou branco de classe média e sempre estudei em escola particular e tradicional no Recife, com preços exorbitantes e pessoas com carros importados antes mesmo das marcas serem popularizadas. Meu pai pagava o preço de querer que eu tivesse o mesmo ensino e oportunidades que ele, mesmo sem ter condição para bancar tal custo. Nunca tive casa própria e me mudei muito ao longo da minha vida. Nunca morei em comunidade, mas por diversas vezes morei ao redor de algumas. Lembro que quando as Torcidas Organizadas começaram a se desenvolver, na segunda metade dos anos 1990, eu tinha saído de Boa Viagem e ido morar no Arruda, numa rua que terminava na favela do Fundão e bem próximo a Bomba do Hemetério. Vivi dos 13 aos 16 anos por ali, era adolescente, curioso e vivia na rua. Jogava bola descalço na rua com os vizinhos, com os moradores da favela, com o líder das gangues e envolvidos com o tráfico. Frequentava os arredores da Gigante do Samba, escola multicampeã do carnaval pernambucano, subia e descia morro ouvindo rap e hip hop e empinando pipas.

Por diversas vezes, ao andar de bicicleta com os vizinhos, em sua maioria negros, como a maioria do Brasil, a polícia parava os carros e descia com arma em punho para averiguação dos mesmos. Pelo visto, andar de bicicleta na rua, era uma atitude bastante barra pesada. Por vezes, eu ficava de lado, acompanhando o tal do baculejo truculento da polícia de Jarbas Vasconcelos, pelo visto eu não tinha uma cara de mau como os demais. Depois de várias, comecei a questionar qual acusação para aquela atitude e vez por outra entrava no baculejo da polícia apenas por falar. Nunca falei isso pra minha família, por que eu nunca fui o alvo.

[caption id="attachment_28442" align="aligncenter" width="695"]Charge do Bruno. Pra amenizar e acenturar Charge do Bruno.
Pra amenizar e acenturar[/caption]

Então, quando as organizadas apareceram, parecia a maneira mais segura de um jovem de comunidade ir e voltar as partidas de seu time de coração sem ser importunado pela polícia, e sem ser visto como marginal pela sociedade. Ou seja, as organizadas vieram como salvação para jovens, outrora sem grupos e que era questionados o tempo todo de maneira opressora.  Boa parte deles, sozinhos na vida. Os pais trabalhavam o dia todo, davam duro e nem sempre tinham tempo de lazer para jogos de futebol, isso quando eram presentes.

Eu nunca fiz parte de organizada, porque sempre fui para os jogos de futebol com meu pai e familiares. Assisti a maioria dos jogos nas cadeiras cativas do arruda, quase sempre fui e voltei de carro para as partidas quando morava distante, nunca tive problemas em frequentar qualquer estádio dos três grandes da capital e nem no interior.

Após cerca de 3 ou 4 anos, mais uma mudança era previsível, depois dos 10 anos, o máximo que consegui foram 5 anos no mesmo lugar. Sai de lá e fui para as Graças, das Graças para o Parnamirim e voltei para as Graças, bairro próximo ao estádio dos aflitos, sede do Náutico, dito bairro nobre.

Ouvia frequentemente quão perigoso era sair de casa em dias de jogos do Náutico nos Aflitos, a cultura de violência seguia se propagando através do medo. Frequentemente saia para casa de amigos, shows e também jogos de futebol, inclusive os clássicos do Santa Cruz contra o Náutico nos Aflitos. Sempre íamos a pé. Não digo que a violência não existia, frequentemente ouvia histórias de assaltos a estudantes, torcedores e moradores da região, acho que tive sorte de nunca ter visto nenhum.

[caption id="attachment_28443" align="aligncenter" width="695"]Charge do Esdras sobre violência na TV Charge do Esdras sobre violência na TV[/caption]

Os discursos de violência aumentavam, o apontar de dedos tentando culpar as organizadas também. Era nítido pra mim, como eram mais divertidos os jogos com as organizadas presentes, por mais que não me lembre perfeitamente dos jogos na minha infância, apenas flashes. Porém, era cada vez mais claro que torcedores de organizadas, não eram apenas apaixonados pelos seus times. Tinha algo mais, que segundo a mídia, nunca era positivo. E assim como todo mundo, comecei a pregar o fim das organizadas.

Hoje, depois de casado, diversas mudanças, passando por sustos dentro e mais frequentemente fora dos estádios, vidros de ônibus quebrado, confrontos fechando vias. Eu aprendi que a violência é parte de nossa cultura e não das organizadas.

Após casar voltei a morar no bairro da Boa Vista. Por aqui existem sedes de todas as organizadas da capital. Morando em um prédio onde uma delas tinha sede, ao descer para receber as correspondências, fiquei sabendo que duas organizadas se enfrentavam na Avenida Conde da Boa Vista ao sol do meio-dia. Ao esperar o elevador para voltar pra casa, jovens da organizada do prédio subiam e desciam correndo, quando um pacote de maconha escapou de baixo da camiseta de um deles. O mesmo pegou o saco, olhou assustado para o porteiro e eu e saiu em disparada.

Ontem, após ver as cenas brutais e o renascimento dos discursos de ódio as organizadas e do medo de ir aos jogos, lembrei de como colocamos sempre a culpa nos outros, nunca em nós mesmos. Vivemos uma cultura de violência que perpassa pelo racismo, machismo, outros ismos e religiões. E mesmo assim, sempre apontamos o dedo culpando os outros.

Pôr a culpa nas organizadas é eximir o estado de sua inoperância. Tal inoperância, que existe por que seguimos matando jovens negros e pobres de comunidade e o pacto é pela vida de quem está no poder e não a margem da sociedade. Ter medo de ir aos estádios, é enriquecer ainda mais os esquemas de paperviews, a CBF corrupta e ficar preso a horários de jogos escrotos, por comando da televisão.

Não estou aqui dizendo que as organizadas são corretas, não mesmo. Reconheço problemas, mas não generalizo. Pelo contrário, vejo as organizadas como uma forma do poder judiciário, conseguir alcançar todos os problemas de infração com as ditas leis e quem sabe deixar de ser inoperante.

[caption id="attachment_28444" align="aligncenter" width="695"]Arte de um pintor Holandês que viveu em Olinda. Homenagem ao Santa Cruz, fita azul pelo fairplay. Arte de um pintor Holandês que viveu em Olinda.
Homenagem ao Santa Cruz, fita azul pelo fairplay.[/caption]

No Born To Zine #02 (quem comprou produtos na lojinha do Hominis, recebeu em casa o zine), tem um texto escrito pelo Eduardo Felipe, advogado, vocalista das bandas Anti-Porcos e Derrube o Muro e integrante da organizada os Imbatíveis, do Vitória da Bahia. Por lá, ele fala sobre um movimento contra o futebol moderno na Europa e que ganha força no Brasil pós-copa. A higienização social cada vez mais vistas nas ditas arenas, com o exorbitante preço dos ingressos e a proibição de bandeiras, afastando o torcedor comum dos jogos, entre outras coisas. Onde o torcedor é visto como cliente e apenas isso. No texto, ele fala como as organizadas estão tentando impedir que o futebol seja apenas para ricos e sem graça.

Termino este texto com o último parágrafo do texto dele, que me contempla muito: "Futebol não é mera diversão! Nas arquibancadas você aprende (ou aprendia) a respeitar as diversidades, pois existem torcedores negros, mulheres, gays, ricos e pobres e na hora do gol, você abraça todos eles sem distinção, você beija quem sequer conhece. Nas arquibancadas, e no dia a dia, você aprende a ter um pensamento mais contestador, politizado e, sobretudo, é nas arquibancadas que você vibra e faz parte da partida, não apenas a observa. Quem ainda acha que o futebol é mera diversão, deveria passar ao menos um dia de clássico acompanhando uma organizada, que veria e aprenderia muito sobre o futebol de verdade".

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