Recife, show, rock e público

por - 13:07

[caption id="attachment_28429" align="aligncenter" width="695"]foto por Raul Cintra no Life's Too Short foto por Raul Cintra no Life's Too Short[/caption]

No último final de semana rolaram pelo menos três eventos diferentes envolvendo artistas locais e de fora do Recife por aqui. O primeiro aconteceu na sexta, com apresentações "gratuitas" (no modelo pague o quanto quiser), no Texas. Pela característica e tamanho do espaço, além do formato do evento, os shows dos integrantes da Geração Perdia Mneira foram feitos no formato pocket.

Recife estava num clima meio estranho na sexta, com chuvas de tempos em tempos e, diferente de São Paulo, o pessoal aqui é meio de açúcar e não sai muito na chuva. Existiam outros eventos rolando também e talvez o tempo e os outros eventos, somado a falta de uma atração local (integrantes da cidade, chamam os amigos da cidade), o público foi bem mais ou menos no Texas. Ainda mais pra quem chegou no último evento organizado pela Trama por lá, com apresentações de Kalouv e do duo chinês Little Monster e Texas cheio dentro e na rua.

No Texas também rolou vários papos legais sobre política, a cena mineira, entre outras coisas, com Cícero Marra, batera da Lupe de Lupe (parece que tem tour vindo pra 2016 hein? – podia contar?) e um papo com GGabriel, o GG, que tava meio decepcionado e achando miado o público do espaço, que não é grande, mas que cedo, parecia esvaziado. E por lá, falei/falamos sobre o desinteresse do público do Recife com ir ver shows de artistas independentes da cidade e de fora dela.

Em meio ao converse, chegamos num linerar meio de que é aquela onda, por aqui as festas dançantes com DJs (normalmente pen-drives) estão bombando! Não existe uma ciência exata nisso, mas além do desinteresse por sacar os shows, outro ponto importante é a mística do evento. Seria uma mistura de um local agradável, com espaço pra dançar, beber, perceber o clima de paquera, essas coisas. Mais importante do que ter um show, o que está cada vez mais relevante é a tal da vibe.

Digo isso porque no sábado, pude renovar minhas esperanças nos shows de bandas independentes e perceber melhor a importância da vibe na segunda edição do Life’s Too Short, que rolou no Capibar. O clima contribuiu um pouco mais, mesmo que tenha rolado garoas, mas o importante é que lá tinha a tal da vibe. Cerca de 200 pessoas chegaram no Capibar pra curtir as apresentações da banda local Inner Kings, dos potiguares da Talude e do grupo paulistano BIKE. Além dos shows, geral dançou e entrou na onda da discotecagem do Pop Briseiro e conferiu os produtos expostos no rolê.

[caption id="attachment_28432" align="aligncenter" width="695"]foto por Raul Cintra no Life's Too Short foto por Raul Cintra no Life's Too Short[/caption]

Por mais que eu ache ruim e longe de chegar no Capibar, as pessoas compareceram. O mesmo não se pode dizer da prévia do Desbunde Elétrico, um tanto esvaziado, pelo que me informaram. Porém, lá os shows tiveram início por volta das 16h e eu acredito que no Recife, as pessoas não são de sair muito com o sol, se não for pra praia ou carnaval em Olinda. É um lance cultural realmente, tanto que vários bons shows tem acontecido as 17h do sábado no Museu do Estado de Pernambuco no Ouvindo e Fazendo Música e várias das vezes que eu fui, o público decepcionou.

Outro fator relevante, no evento do Desbunde na CiBrew foi o preço do ingresso, R$ 20 é um tanto salgado pro independente no momento. Sem contar que por lá, os shows foram apenas com nomes locais, entre eles o mais famoso era o Graxa. Além dele,  tocaram Pântano e Júlio Ferraz, projetos que ainda estão formando um público e uma banda nova chamada Shanti. Se na sexta, as atrações foram todas externas a cidade e o rolê foi de graça e o público decepcionou, o mesmo pode ser dito de um show com atrações apenas locais.

Sendo assim, talvez a ideia seja exatamente no meio do caminho. A mistura entre um lugar legal, com atrações diferentes e também locais que interagem. Pra ter uma ideia, o rolê do Life´s Too Short, a entrada era R$15, e por lá, duas atrações que nunca tinham tocado por aqui, entre elas, a BIKE, uma das bandas mais hypadas no indie nacional atual. Eu não consigo pôr a culpa apenas no rock nacional, já que no fim das contas, a maioria dos eventos citados aqui, privilegiam nuances do tal do rock, mas será que o mesmo está desgastado?

Nunca conseguiremos chegar a um consenso, porque não se trata de uma ciência exata. Mas acredito que tais questionamentos ajudam na ideia de como chegar a um linear ou fator comum que reúna a vibe, o bom preço pro público, o bom público pras bandas e um ótimo evento pra todo mundo, incluindo os produtores.

SOBRE OS SHOWS


Geração Perdida no Texas


Para não dizer que não falei de música e dos shows que vi, posso falar que é incrível como a atual cena mineira, que já é um tanto melancólica, soa ainda mais tristonha no formato pocket show, mas não se pode negar que existe uma certa beleza naquilo tudo. Fernando Motta mostrou resquícios do tal sadcore, um lance meio gritado feito emo e com guitarras meio shoegaze, nem lá nem cá. Já no show do Jonathan Tadeu, ficou mais evidente toda poesia que suas canções apresentam e também toda a calma, numa vibe meio folk.

O Texas encerra cedo, mas ainda deu tempo de uma palhinha do João Carvalho, o Sentidor, mandar "João e o Mar", da El Toro Fuerte, banda da qual faz parte, que contou com um backing vocal bacana do Fernando Motta. O interessante dessa tour da Geração Perdida é a cumplicidade entre todos seus integrantes, que acabam intervindo e cantando junto as músicas uns dos outros. A galera ainda passa por Campina Grande e João Pessoa, vale a pena colar nos roles!

[caption id="attachment_28430" align="aligncenter" width="695"]foto por Raul Cintra no Life's Too Short foto por Raul Cintra no Life's Too Short[/caption]

Life's Too Short no Capibar


Voltando para o Capibar, por mais que ainda soe meio verde, o show da Inner Kings só evolui. O clima roqueiro com pegadas stoner mata a pau pra quem curte guitarras altas e gritos. Da até um orgulhinho besta, porque acho que a tour que eles fizeram com o Hominis ajudou nessa evolução.  Tocar com outras pessoas, pra outros públicos, tudo isso faz com que a banda construa o seu caminho. E público, o show do Capibar deixou claro que eles tem. Além das canções do primeiro disco HIGH, o grupo apresentou algumas canções novas, inclusive faixas em português. E, como tudo é aprendizado, aqui vai a minha crítica, porém sem entrar no mérito da discussão de que o rock é melhor na língua A ou B. Se a ideia é cantar em português, terá que rolar uma readaptação na ideia de cantar e dos vocais da banda, assim como o instrumental que segue toda uma lógica do rock gringo. As músicas em português soavam como várias bandas do rock nacional, mas não parecia a Inner Kings.

Foi quando teve início o show da banda potiguar Talude.  E aqui o reconhecimento na escalação e na ordem das bandas da organização do evento. O som da Talude, parece uma ponte entre o rock energético da Inner Kings e a brisa psicodélica da BIKE. A apresentação foi baseada quase todo no primeiro disco do grupo, Sorry The Trouble, com algumas canções novas que vão em caminhos parecidos e também com letras em português, e apesar dos problemas técnicos, isso não comprometeu a qualidade do som do grupo.

[caption id="attachment_28431" align="aligncenter" width="695"]foto por Raul Cintra no Life's Too Short foto por Raul Cintra no Life's Too Short[/caption]

Ao fim do show da Talude, o xará Diego Xavier já demonstrava toda ansiedade de quem queria estar tocando o mais rápido possível e foi bem rápida a troca de palco realmente.  Começava o show que fecharia a noite. Os mantras alucinantes, hora entoados por Julito, horas ecoados por três dos quatro integrantes da banda, elevaram a vibe do espaço. Toda psicodelia lisérgica apresentada pelo primeiro trabalho 1943, realmente se repete ao vivo. As canções novas, vinda de todas as cabeças do grupo, só cresceram na vibe mantra que ecoa no som do BIKE. É interessante perceber como a ideia inicial do projeto do Julito evoluiu para uma banda bastante coesa e de alto nível ao vivo.

No fim das contas, ficou claro quão importante é mesclar os mundos e as vibes num evento. Tem que ter espaço pra dançar, clima de paquera, e shows de alto nível. E nisso o Life's Too Short acertou muito. Porém, fica a crítica para um público cada vez mais acostumado a receber o que é dado, seja por sites de streamings, blogs como o Hominis ou pela mídia nacional, e que não parece mais ter interesse ou discernimento de utilizar a internet para descobrir coisas novas.

Você também pode gostar

0 comentários