Impressões: Coquetel Molotov 2016

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[caption id="attachment_28537" align="aligncenter" width="2048"]coquetel2016 foto por Beto Figueiroa[/caption]

No último sábado (22) rolou a 13º edição do No Ar Festival Coquetel Molotov. A Coudelaria Souza Leão foi mais uma vez o cenário para as mais de 12 horas de shows, que levaram cerca de sete mil pessoas ao local. O festival conquista assim o protagonismo no cenário musical de Pernambuco e tem o seu maior público até então, não só em quantidade, mas em vontade de curtir tudo que ali rolava. Foi bonito de ver e estar. Real!

A curadoria do festival selecionou na instiga os nomes que fariam parte do line-up deste ano. Teve galera de todo canto do Brasil e desse mundão, que ali se alternavam entre os três palcos: Aeso, Sonic e Velvet. Além do ponto congruente entre os pólos principais, aquele palco não-oficial, por assim dizer, sem nome e qualquer iluminação, mas com uma sinergia que fez acontecer! Lá rolou uma jam session pesadíssima com uma galera da cena local. Pense na vibe! Destaque para Mateus Alves, compositor de “As Duas Estações Nordestinas”, Quinteto de Madeira e Quarteto de Metais, acompanhado pelo tecladista Diego Grão.

Só que teve bad? Teve sim. O contingente estrutural que atendeu bem ao público nas edições anteriores se mostrou insuficiente para a demanda desta. Era fila pra tudo! Pra beber, pra ter acesso aos banheiros e pra transporte. O Coquetel Molotov não conseguiu manter a qualidade do espetáculo também em seu lado operacional. Só quem sabe como é as ladeiras de Olinda em época de carnaval consegue entender o que foi entrar e sair do Palco Velvet já lá pras 21h e tantas. Não foi fácil, migos. Não foi.

Fiquei de cara por ter perdido metade do show de Boogarins (Goiás) por não conseguir segurar as pontas por muito mais e precisar tirar umas águas do joelho – o que me custou, acredite, meia hora na fila do banheiro. Uó! Mas ao final, o esforcinho valeu a pena, né? Vi/vivi muita coisa massa. E se você pensar, o Molotov é ainda um pré-adolescente de 13 anos, passível a erros (sempre mais acertos que erros, admitamos) e que peca por sua ousadia e fuga de tudo aquilo que é mainstream. Normal que role esses tropeços... desde que sejam revistos numa próxima. E nessa próxima, diga-se de passagem, estarei lá de novo. Claramente.

[caption id="attachment_28539" align="aligncenter" width="960"]Moodoïd por Marcela Maia Moodoïd por Marcela Maia[/caption]

Mas então falemos das atrações que mais foram especiais para mim. Moodoïd (França) me deixou inerte, tamanho transe. Não conseguia descrever para aqueles que me acompanhavam o que era aquela alegoria de atmosfera imersiva e ritualística! Só saía “Que foda, vei! Que foda!” Foi pesado. Eles trazem influências de vários gêneros, como o kraut, o folk e até o bom e velho pop. Psicodelia genuína, da mais natural! E o que falar da formação? Só mulheres, seguríssimas do seu poder, guiadas por uma figura afeminada, andrógina e m a r a v i l h o s a que é esse tal de Pablo Padovani. E sabe o que mais? A Moodoïd lançou EP homônimo no final de 2013 e teve as faixas mixadas por Kevin Parker, do Tame Impala. Seria meu sonho? (faça o download assim que terminar esse texto).

Aí depois de uma lapada, vem outra. Porque o Coquetel é desses, não é mesmo? Eis que chega Boogarins (Goiás), com todas aquelas transgressões melódicas, tropicalismo e a pegada psicodélica da guitarra. Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos (2015), último álbum da banda, foi o carro chefe do show, que deixou todo mundo de boas ao som da vozinha mais gostosa de se ouvir deste país - Fernando “Dinho” Almeida conduziu um público extasiado, como esperado. Vi só a metade do show (ainda nem superei), mas valeu cada segundinho na frente do palco tietando esses menino.

[caption id="attachment_28538" align="aligncenter" width="960"]Boogarins por Marcela Maia Boogarins por Marcela Maia[/caption]

Na sequência, Céu (SP), afinada, com seu Tropix na boca de todo mundo ali. Show massa, com arranjos flertando com o rock. Não sobrou espaço dentro do Velvet. Não deu pra quem quis! Ao fim da performance, a paulista foi aplaudida por ininterruptos cinco minutos, naquele que por muitos foi eleito o melhor show da noite.

Lá fora o Som da Rural fazia a discotecagem daqueles que procuravam o eletrônico para se mexer um pouco mais e respirar ar puro. O pequeno espaço também recebeu o rapper PKR (PE), de Belo Jardim. O moço iniciou carreira em 2012, mas já promete muito na nova cena do rap no estado, que tem nomes interessantíssimos como o Sem Peneira pra Suco Sujo e o Chave Mestra.

Destaco também o lançamento de Miocárdio, álbum solo de Barro (PE). O show teve participação especial de Juçara Marçal, vocal do Metá Metá, além da presença de Russo Passapusso, do BaianaSystem, com quem improvisou uns raps. A banda pernambucana traz inúmeros tons e arranjos numa trip massa, seja em português, inglês, espanhol, francês ou italiano. Foi massa ver a galera dançar agarradinha em canções que emulam o forró tradicional, pé de serra,  com batidas eletrônicas.

Tagore (PE), na vibe udigrudi pernambucano dos anos 70 com pitadas de The Doors e Ave Sangria, lançou o álbum Pineal na véspera do festival. As canções carregam uma textura mais forte, onde o virtuosismo ganha vez nas camadas de vozes e na manipulação dos pedais da guitar. Ao vivo, rolou a participação de Benke Ferraz, guitarrista do Boogarins, nos singles "Mudo" e "Pineal" - um dos pontos altos da apresentação dos pernambucanos.

Desde o start ainda às 15h, o No Ar Coquetel Molotov mostrou a que veio. Mesmo com os percalços, o festival, que versa sobre valorização e circulação da arte autoral acima de qualquer esfera, realizou um espetáculo como poucos realizados a nível nacional. Foram mais de 30 atrações, dentre elas, 12 pernambucanas. O Coquetel assume, assim, o posto de um dos mais influentes expositores, hoje, da música independente do país. Dá um orgulho danado do que é nosso e do que a gente passa a conhecer. Agora é esperar o próximo ano (ansiosamente).

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1 comentários

  1. Moodoïd vale muuito apena, autêntico demais, artistas fantásticos. O Molotov foi real difusor do cenário musical riquíssimo do nosso Estado atualmente. E que venha o próximo!!!!

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