O Coquetel Molotov continua sendo o melhor festival de música do Recife

por - 12:24

[caption id="attachment_28530" align="aligncenter" width="695"]coquetel-molotov-2016-93 foto por Luana Tayze[/caption]

Eram 3:40 da manhã quando sentei em frente a um food truck com dois cachorros quentes, uma Pepsi e comecei, entre os cochilos e as zapeadas no evento oficial do festival no facebook para sacar as reclamações, a refletir o que estava acontecendo ali na Coudelaria Souza Leão.

Parece até uma comparação esdrúxula, porém a única metáfora que me vinha à mente era a de estar preso no Cais Santa Rita, numa segunda-feira de carnaval, após os shows de Nação Zumbi e O Rappa. A diferença era evidente. Ao contrário dos shows repetitivos e caricatos do carnaval do Recife, o Coquetel Molotov tinha mais uma vez se superado e se firmado como o melhor festival do Recife.

[caption id="attachment_28529" align="aligncenter" width="695"]coquetel-molotov-2016-72-rakta RAKTA por Luana Tayze[/caption]

Tive a infelicidade de assistir apenas as duas últimas músicas da apresentação incrível da RAKTA. Cheguei atrasadíssimo por causa do trânsito na Av. Caxangá, uma pena. Carregada de distorção, reverbs e delays, o trio encarava o público com o vigor de uma “grande banda”, demonstrando confiança. A música aparentava ser feita ali no momento, como se rolasse uma entrega completa da banda a proposta do evento.

[caption id="attachment_28535" align="alignnone" width="463"]Barro por Vito Sormany Barro por Vito Sormany[/caption]

Pausa pra tomar uma cerveja e ir ao banheiro. Barro, o pernambucano que mais vem se destacando, desde o lançamento do seu primeiro disco solo, fez seu show parecer uma gravação de DVD. O público sabia a letra e dançava as músicas. Do alto do palco o músico se demonstrou entusiasmado e contou com a participação especial de músicos como Juçara Marçal - ponto alto do show, diga-se de passagem - e Russo Passapusso. Uma pena as músicas não colaborarem com sua performance. Seria um ótimo show para teatro.

[caption id="attachment_28531" align="aligncenter" width="695"]Boogarins por Luana Tayze Boogarins por Luana Tayze[/caption]

Já o Boogarins parecia se sentir em casa, afinal já são sete shows na cidade, num período de três anos. O destaque deste show estava na disposição dos músicos no palco. Tal qual Pink Floyd nos shows do Dark Side of The Moon, eles tocaram em uma linha horizontal e se deram bem com o reverb causado pela acústica do espaço. Cabe o investimento num setlist que fuja um pouco mais dos álbuns. Está no “improviso” dos músicos a grande qualidade da banda. A plateia ficou vidrada. Voltei para a área externa e foi ali, ao receber a informação de que os Ingressos haviam esgotados, que tive noção do quanto o festival tinha crescido. Isso já estava ligeiramente expresso na ocupação dos espaços.

[caption id="attachment_28532" align="aligncenter" width="695"]Jaloo por Luana Tayze Jaloo por Luana Tayze[/caption]

Chegando no palco Velvet puder acompanhar mais um show. Literalmente entregue à plateia, com uma animação de causar inveja, Jaloo, provou originalidade e exacerbou carisma em sua segunda participação no festival. Com um dos públicos mais fiéis - e mais eufóricos, diga-se de passagem - da 13ª edição do Coquetel Molotov, o paraense de Castanhal reverberava sua expressividade na plateia sem deixar escapar a competência com a execução da música.

[caption id="attachment_28533" align="aligncenter" width="695"]Céu por Luana Tayze Céu por Luana Tayze[/caption]

A essa altura, começavam então os headliners e também a minha fome. Acompanhada de uma banda pequena em matéria, gigante em alma, o show de Céu pareceu surpreender até mesmo a própria cantora que parecia não acreditar no acolhimento dos fãs. Tropix, seu disco mais recente, que no fone parece opaco, estava ensaiado com a platéia, que entregou toda sua energia. Da grade que balançava entre o aperto das pessoas, a entrada da área onde o show foi realizado, cada um dos presentes sentiu o poder da voz intangível de Céu. Após a execução de “Varanda Suspensa” a artista foi ovacionada. O show ainda contou com músicas dos álbuns anteriores: “Retrovisor”, “Cangote” e “Malemolência” também tiveram seu espaço.

[caption id="attachment_28534" align="aligncenter" width="695"]Karol Conká por Luana Tayze Karol Conká por Luana Tayze[/caption]

Não sei se já deu pra sacar, mas a correria para assistir os shows era um personagem presente. Não se tinha uma pausa para um respiro. Se em um palco tava morgado, no outro tava rolando algo interessante. Karol Conká, por exemplo, só animou o público em momentos específicos, sob esforços. Palavras de ordem, gritos de guerra, a participação do coletivo Vaca Profana e os hits radiofônicos foram necessários para tirar atenção do som mais negligenciado do festival e do DJ que apenas oscilava o volume do pendrive.

[caption id="attachment_28540" align="aligncenter" width="1200"]Baiana System por Tiago Calazans Baiana System por Tiago Calazans[/caption]

Neste momento o público já começava a se dispersar e ficar preocupado quanto a volta pra casa. Entretanto, em meio aos problemas de logística na evacuação, o show da Baiana System superou qualquer expectativa. A plateia que já demonstrava cansaço, tomou uma dose generosa de adrenalina já na primeira música e, mais uma vez estávamos no carnaval de recife. A Coudelaria pareceu pequena para a catarse generalizada. Difícil era encontrar a origem da explosão. Partia da implosão do público ou do coquetel molotov que é o Russo Passapusso? A última vez que o festival encarou um nível de interação ao menos parecido, foi no show da Racionais MCs, em 2011 (cabendo aqui a ressalva de que nenhum show sobrepõe o momento único que foi Racionais MCs no Coquetel Molotov em 2011).

[caption id="attachment_28541" align="aligncenter" width="1200"]Phalanx Formation por Beto Figueiroa Phalanx Formation por Beto Figueiroa[/caption]

Pronto. Minha pressão tava caindo. Seria inevitável enfrentar a fila e assim o fiz. Até que não demorou tanto. Quando me dei por conta, percebi que por trás do cachorro quente, os agudos estourados que partiam do palco vinham da última apresentação da noite. A Phalanx Formation foi extremamente prejudicada pelo som e pelo horário, mas parecia competente no que se propunha a fazer.

Ademais, não vou citar aqui os problemas que todo mundo já deve saber. Inclusive, a página oficial do evento emitiu uma nota assumindo responsabilidade e prometendo melhorias. A falha na logística demonstra que o Coquetel continua sendo feito por pessoas e a preocupação maior do festival provavelmente estava mais centrada em conciliar as exigências dos patrocinadores, com a curadoria da produção artística e a necessidade de se pagar. O que deveria ser uma obrigação de todo grande festival.

[caption id="attachment_28542" align="aligncenter" width="1200"]Coquetel Molotov 2016 por Tiago Calazans[/caption]

Talvez seja este o momento da produção começar a repensar o retorno do segundo dia de festival, balanceando a quantidade de atrações e investindo na experiência do local. Ah, por favor, não se pode esquecer de ampliar a área de alimentação e renovar o contrato com a maravilhosa barraquinha de cachorro quentes, que é barato e gostoso!

Por último, gostaria de dizer que fiquei triste por não ter assistido o tão comentado show da Deerhoof. Todo mundo elogiou bastante. Aliás, que grande momento aquela jam session no palco secreto, ao amanhecer! Que isso se repita! Informalidade é uma virtude!

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