O que eu leio e o que eu faço - Bonifrate

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[caption id="attachment_28607" align="aligncenter" width="700"]Bonifrate por Rodrigo Sommer Bonifrate por Rodrigo Sommer[/caption]

Tenho isso de ir para os festivais sem ouvir banda nenhuma antes, mesmo que vá para cobrir. As que eu já conheço, tudo bem, mas as das quais nunca ouvi falar eu prefiro ter uma primeira impressão vendo ao vivo. Uma das boas surpresas foi o Supercordas. Vi essa banda estranha tocar no Coquetel Molotov de 2007 e fiquei com a melhor impressão possível. Ouvi muito o disco lançado em 2006, Seres Verdes ao Redor e meio que parei de acompanhar. Foi assistindo TV que pude conhecer a carreira solo de um dos membros da banda, o Pedro Bonifrate. Tão bom quanto a banda. Em um loop ouvi todos os discos solo do cara e, impressionado com as letras e a sonoridade, decidi fazer o próximo “OQLOQF” com ele.

Desde sempre muito solícito, Pedro topou e começamos a trocar e-mails. Entre o primeiro contato e o e-mail que eu achei que encerrava a “entrevista” foram uns três meses, em que Bonifrate respondia o que eu perguntava e ia além. Falamos sobre questões criativas, sobre diferenças entre produzir, “apenas tocar guitarra”, compor, cantar, escrever, sobre a fase ruradélica do Supercordas, que, ele faz questão de frisar, “já passou há muito tempo” e as diferentes referências em sua prolífica produção. Aproveitem.

Como se deu sua aproximação com os sons mais psicodélicos, qual a primeira banda que você lembra de ter chamado tua atenção nesse sentido?

É um pouco difícil localizar as origens dessa história, até porque eu vejo a psicodelia como um conceito um bocado solto, que mais abrange perspectivas sobre o mundo do que uma guitarra ao contrário ou algum elemento estético específico desse tipo. Então vou citar brevemente alguns momentos de descoberta sonora: eu era uma criança muito beatlemaníaca, não pirava em muita coisa além desses caras até uns 13 ou 14 anos. Já tinha assistido Yellow Submarine bem na primeira infância mesmo, e acho que com uns 12 eu ouvi o Sgt. Pepper, que nessa época me fascinou tanto quanto me perturbou. Nesse ponto eu passei a ir atrás de outros sons, coisa bem óbvia pra um pré-adolescente roqueiro de interior, veio ali um Led Zeppelin, um The Doors, um Pink Floyd, e foi quando eu ouvi o Piper At The Gates Of Dawn pela primeira vez que essa grande matriz estética me pegou de vez, no sentido de me emprestar o impulso inicial pra escrever canções. Ou seja, se eu fosse mesmo escrever canções como estava começando a fazer, seriam canções daquele tipo - "The Gnome", "Flaming", "Bike", "Lucifer Sam". Isso foi no tempo em que eu tomei um chá de cogumelo pela primeira vez, e essa experiência com psilocibina me influenciou de forma muito significativa, não só musicalmente, mas cosmogonicamente. Não é que eu tenha virado um chapeleiro louco tomando chá todos os dias, sabe? Mas talvez quem ouve meus primeiros projetos, tipo os Psylocibian Devils, tenha essa impressão. A música psicodélica contemporânea lá dos anos 90 foi a outra grande força pra que nosso som fosse se moldando, tanto Bonifrate quanto Supercordas. Nessa época eu comecei a perceber que bandas como Olivia Tremor Control ou Flaming Lips não ficavam atrás dos grandes clássicos do final dos anos 60, e que na verdade levavam aquela perspectiva musical a outros patamares.

Você acha que o fato de ter crescido em Paraty ajudou a criar essa aura de rock rural, tanto do Supercordas, quanto do Bonifrate?

Essa ambientação não só ajudou, eu diria que determinou essa fase "ruradélica" dos Supercordas. Havia essa necessidade artística na minha cabeça, de concatenar toda a nossa celebração da vida em meio à natureza, e também da saudade que sentíamos disso depois, em um grande disco conceitual, que traria elementos já trabalhados em discos anteriores, tanto do meu projeto de fita Psylocibian Devils quanto do primeiro do Bonifrate e das primeiras gravações do Valentino. Nunca foi uma proposta que fosse além desse disco. Claro que elementos dessa ruralidade sonora podem estar presentes aqui e ali, hoje eu estou morando em Paraty de novo, e mais no meio do mato que nunca, mas desde que lançamos Seres Verdes ao Redor já dizíamos que esse eixo temático se havia se esgotado naquela obra, e que iríamos adiante nos próximos trabalhos. Mas por diversos motivos, acho que ainda somos lembrados por esse "rock rural" de 2006.

https://www.youtube.com/watch?v=a2EZhXgLX7c

Você mantém, atualmente, tanto a banda quanto seu projeto solo. Qual a diferença quando você compõe para banda ou para o trabalho solo, tanto no trabalho de instrumentação quanto no de criação de letras?

Na escrita das letras não tem diferença nenhuma. É comum haver algo que contingencie os versos, pode ser o disco e o conjunto de canções em questão, ou algo que está acontecendo no mundo hoje, mas nunca foi relevante estar escrevendo como Bonifrate ou como Supercordas, não para o processo de escrita. Já musicalmente é bem diferente, a criação dos arranjos, a gravação e a mixagem são processos quase sempre coletivos nos Supercordas, e frequentemente nós buscamos uma gravação com mais qualidade em termos de equipamento, estúdio, etc. Como Bonifrate, 99% de todos esses processos envolve só eu mesmo, com um computador e algumas bugigangas analógicas. Eu gosto do equilíbrio tenso entre essas duas formas de fazer música.

Você compõe e arranja em seu quarto. Existe uma melhor hora para esse trabalho, dia ou noite?

Houve o tempo em que eu conseguia tirar umas boas horas para me concentrar em escrever, mas isso sempre foi uma parte posterior do processo de composição e sempre partia de ideias já desenvolvidas ao longo dos dias, do trânsito entre um e outro ponto da rotina, no ônibus, caminhando, na fila do banco, uns minutos antes de cair no sono, tanto faz se dia ou noite. Ultimamente, com trabalho, bebê e tudo mais, é nesses momentos mesmo que eu componho, quase sempre. Depois consigo dedicar mais tempo e concentração aos arranjos e gravações, aí sim no "quarto" (agora eu tenho um quarto só para isso, então pode-se chamar de estúdio), mas a escrita sempre foi uma operação contemplativa e sedimentar.

Esse aspecto artesanal, que você afirma usar nas gravações do trampo solo, tocando, gravando, mixando, te dão maior controle sobre o processo? Criativamente te deixa mais, digamos, "livre"?

Sim, livre por esse lado, mas também preso ao meu próprio julgamento e senso estético, o que nem sempre pode ser o melhor caminho. Por isso gosto de mostrar o que faço às pessoas com boas opiniões, porque daí surgem ideias que posso aproveitar. Mas sim, são processos bem diferentes, e eu gosto de trabalhar com ambos.

Os títulos das canções, tanto do Bonifrate quanto do Supercordas são bastante inusitados. Colocar título nas canções é mesmo um exercício, ou algo que naturalmente segue o fluxo?

Talvez seja um exercício de seguir o fluxo. Claro que, às vezes, um título pode ser óbvio como algo que se diz na letra e soa bem como um título e está num verso de destaque na canção e tudo mais, mas às vezes pode ser também um enigma a ser decifrado. Quando você escuta aquela canção de cabo a rabo e não encontra palavras sonoras que representem alguma totalidade ali, então o lance é fugir da representação e procurar um ponto analógico que empreste um sentido diferente àquela música. Às vezes isso cria uma referência tão forte que acaba entrando diretamente em versos que faltavam da canção. Acho que é o caso por exemplo de uma canção chamada "Horizonte Mudo", do projeto solo; de "Sobre o Calor" e de "Terceira Terra", homônima do disco mais recente dos Supercordas. O Filipe Giraknob costuma dar títulos muito referenciais e poderosos pras canções dele nos Supercordas, tipo "Espectralismo ou Barbárie?" e "À Minha Estrela Bailarina".

[caption id="attachment_28608" align="aligncenter" width="695"]Supercordas por Beatriz Ribeiro Sena Supercordas por Beatriz Ribeiro Sena[/caption]

Qual evolução você considera mais significativa para o Supercordas desde o lançamento do disco A Pior das Alergias, lançado pela Midsummer Madness, em 2003, e o disco mais recente, Terceira Terra lançado pela Balaclava Records, em 2015?

Acho que todas as evoluções foram significativas. Talvez este salto inicial, em que passamos daquele lo-fi inconsequente dos primeiros EPs, gravados na fita, sem recursos e sem muito cuidado, para o Seres Verdes ao Redor em 2006, tenha sido muito importante em termos de sonoridade e em termos de processo de gravação. De repente tínhamos canais gravados num estúdio foda e muito mais conhecimento técnico para editar e mixar as faixas em casa num computador, principalmente por causa da formação técnica que o Valentino seguiu na época. Passamos a ter uma formação muito mais completa também, com o Giraknob injetando um elemento indispensável ao nosso som e com uma bateria de verdade. Do ponto de vista da composição, e principalmente das letras, eu diria que o maior salto se deu em paralelo à discografia dos Supercordas, quando escrevi as canções do meu disco solo de 2011, Um Futuro Inteiro. Nem estou me referindo aqui a nenhum procedimento técnico ou formal de escrita, e sim da abrangência de empatia que aquele disco trouxe. Acho que muita gente se viu naqueles versos e isso foi um clímax em certos aspectos, até porque cantar aquelas músicas ao vivo me deixou mais seguro e preciso nas apresentações. Foi um salto bem grande e até hoje as consequências são visíveis.

Vocês tocaram em festivais grandes, como o Coquetel Molotov, e fizeram shows em lugares mais intimistas, como a Casa do Mancha, qual o barato de cada tocada?

O barato dos festivais é a troca de experiências e a zoeira que um bando de artistas dividindo um espaço pode proporcionar. Nós, que não somos pessoas que podem se dar ao luxo de viajar muito a passeio, conhecemos grande parte do Brasil tocando festivais por aí. Espaços intimistas são muito legais de se tocar, a Casa do Mancha nem se fala, porque é como se estivéssemos em casa mesmo, e ali não importa se tem 15 pessoas assistindo (como quando tocamos na noite do último capítulo de uma novela famosa) ou se tem 100 (a lotação da casa), sempre tocamos como se fosse a última vez, no melhor dos sentidos.

Te incomoda quando comparam o som que você faz com o de outras bandas? Sei lá, quando eu vi o show de vocês no Coquetel Molotov eu até comentei com alguns amigos, que era uma parada meio Wilco, meio Sá, Rodrix e Guarabyra, o que para mim é algo muito bom... Deve ter muita gente que chega para vocês dizendo o som de vocês lembra bandas que vocês nem gostam, de repente.

Engraçado você citar esses dois exemplos nessa pergunta, porque são justamente artistas aos quais fomos comparados em diferentes ocasiões, e que não conhecíamos tanto assim. Muita gente comparou o Seres Verdes com Sá, Rodrix e Guarabyra, e apesar de eu sempre ter ouvido falar e conhecer coisa ou outra, eu nunca tinha ouvido os discos com atenção, fui ouvir por causa das comparações. O Wilco eu até já conhecia, muitos amigos curtiam e eu gostava do Summer Teeth e do Yankee Hotel Foxtrot, mas não era das minhas favoritas, sempre fui mais de Super Furry Animals, Flaming Lips, Spiritualized... e daí muita gente começou a falar em como Um Futuro Inteiro tinha uma atmosfera Wilco, e depois disso eu passei a ouvir mais, e até a concordar com as comparações e escutar tudo dos caras. Ao ponto de se tornar uma referência direta nos discos mais recentes. Então, mesmo quando comparam algum trabalho a algo que não estava diretamente referenciado ali, pode ser interessante. Não me lembro de comparações totalmente descabidas.

Nos conta um pouco sobre sua participação no projeto Digital Ameríndio, como é "apenas tocar guitarra"?

Adoro "apenas tocar guitarra", é muito mais solto e tranquilo do que ter de levar suas canções cantando, tocando guitarra, fazendo solos e partes diferentes na mesma música. Com Supercordas e Bonifrate, as apresentações sempre botam um baita peso nos meus ombros, uma responsabilidade muito maior. No Digital Ameríndio e no Simplício Neto & Os Nefelibatas essa responsa é do Sandro e do Simplício, então eu admito que me divirto muito mais, ou ao menos é uma curtição mais leve, e eu fico muito menos nervoso antes de tocar. No momento, o Digital Ameríndio está em hiato porque o Sandro se mudou pro Maranhão, e com Os Nefelibatas eu não tenho tido tempo de tocar, infelizmente, até porque estamos em cidades diferentes, mas eles estão gravando canções novas e eu devo dar uma força com umas guitarras em algum momento.

[caption id="attachment_28609" align="aligncenter" width="695"]Supercordas por Beatriz Ribeiro Sena Supercordas por Beatriz Ribeiro Sena[/caption]

Como foi produzir o disco do Simplício Neto & Os Nefelibatas?

Foi incrível pra mim, porque eu sempre fui um fã descabelado das canções do Simplício, desde que ficamos amigos lá pra 2005 quando ele ainda tocava na banda Filme. Ter ali um punhado delas pra trabalhar em cima foi um grande deleite pra mim, e a recepção dele da minha visão de produtor foi muito entusiasmada. Eu acabei trabalhando praticamente como trabalho no projeto solo - mixei e gravei a maioria dos canais em casa e toquei a maioria dos instrumentos, salvo uns teclados do Gabriel Ares, umas baterias do Felipe Rodrigues e, claro, a voz do Simplício. Uma pena esse EP, Fuscas & Dirigíveis, e o outro produzido pelo Sidney, Terror & Vaudeville, não terem ganhado a atenção que mereciam. O Simplício segue sendo um cineasta consagrado e um compositor não muito reconhecido, mas eu realmente acredito que ele seja um dos melhores da nossa geração.

Apesar da letra não ter sido escrita por você, “Aldebaran”, do EP Toca do Cosmos viaja por mitologia, astrologia, figuras religiosas e até Geografia, isso é algo que faz tua cabeça, que você procura ler sobre?

Não é à toa que eu curto as letras do Simplício, como essa. Acho que dialogo muito bem com elas porque tem a ver com o tipo de referência que eu procuro quando escrevo minhas canções. Eu tenho graduação e mestrado em História, e minha área de pesquisa sempre esteve ligada à filosofia da ciência, à astrologia/astronomia da época do Renascimento e à filosofia humanista daqueles tempos em suas diversas vertentes. Isso certamente aparece nas canções, assim como literatura brasileira, ficção científica e o que mais vier. O importante pra mim é que as canções sejam livres de temas formais da música pop como o amor ou a boemia, e que abordem esses temas com uma perspectiva diferente, que se utilizem da literatura e da, digamos, produção de conhecimento, seja qual for a idade dessa produção. Se há algum sentido honesto em pensar a psicodelia no nosso som, acho que ele caminha pra esse lado - o deslocamento da percepção daquele ponto de vista que seria o mais consensual. Adotando perspectivas pouco consensuais, você exercita e aprofunda o entendimento da visão do outro, o que é um dos grandes desafios contemporâneos, e a experiência psicodélica tem um papel importante nesse deslocamento.

Você já se aventurou por outros gêneros literários, como poesia e narrativas?  

Eu já rabisquei uns contos por aí. Tem um publicado numa coleção chamada Sete, que é uma ficção científica maluca chamada Lete e o Sono, e pode ser lido aqui. Tem também um conto bem pequeno, eu diria fantástico, que não chegou a ser editado, mas que eu botei na internet há tempos. Inclusive achei que ninguém tinha lido isso, mas agora encontrei esse blog que o publicou na íntegra. Esse conto, O Corpo Hermético, acabou se transformando na canção "Asclépius", do segundo disco dos Supercordas. Algumas frases do conto estão inteiras na canção. Considerando que o relato de parto pode ser também um gênero literário, eu escrevi pro Brasil Post esse texto intitulado "Duas luas dançam jazz sobre o planeta mentira: um relato de parto e gestação". Fiquei muito feliz com a repercussão que isso teve, embora pequena. Uma moça aqui de Paraty, que por coincidência tem o mesmo nome da minha filha, me disse que foi procurar saber sobre parto humanizado depois de ler esse texto, e que o filho dela nasceu em casa e foi tudo lindo, e pra mim isso já valeu todo o trabalho que deu escrever. Fora isso, só fragmentos, trechos inacabados. Muita coisa que eu comecei como prosa acabou virando canção, por exemplo "Antena a Mirar o Coração de Júpiter", do meu disco solo Um Futuro Inteiro.

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