O que eu vi na IX Janela

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O cartaz do festival prometeu uma abdução de tudo aquilo que é rotineiro e caótico: o citadino dá lugar à viagem aos sentidos. O homem estampado é performático, assim como o cinema. Levado por uma força sobre humana. Elevado. E as janelas e cortinas se abrem.

A IX Janela Internacional de Cinema do Recife é esse evento metafísico e sobrenatural, ainda que com ares de cine clube no quintal à tardinha. À beira do Capibaribe tive a alegria de ver acontecer mais uma edição dessa coisa bonita danada. Mesmo não tão somente o Cine São Luiz fizera parte do espetáculo, o Cine do Museu do Homem do Nordeste também deu aquele help amigo nas projeções. E foi massa!

Esse ano os filmes exibidos tiveram como mote a desobediência, que não por acaso rima com resistência (Fora, Temer!). Há! Grande parte das obras tiveram esse quê de rebeldia. Força. Algo de circense, por assim dizer.

Nos clássicos, Eles Vivem, hipérbole-constatação de um mundo de poderosos que vieram para dominar o planeta; feita para vibrarmos juntos como subversivos. Em Hair, alegoria popular musicada celebradora da transgressão. Em Sedução e Vingança, a cruzada da retaliação incontida em responder às violências contra o corpo e sujeito feminino. Já em Dia de Cão, a quebra do sistema e do status quo; o (anti) herói por uma tarde.

[caption id="attachment_28615" align="aligncenter" width="960"]janela-2-por-marcela foto por Marcela Maia[/caption]

No alemão O Tambor, o capricho do menino que se nega a crescer para não vivenciar o horror da guerra. No moralista Pinóquio, uma fábula sobre persistência e a mentira daquele que sabe o que quer, ainda que tentado a caminhos tortuosos. E em Apocalypse Now, o épico apoteótico que narra a viagem de um soldado para corrigir um coronel desobediente que virou Deus.

Mas não só de clássicos vive o Janela. Além desses, rolaram as competições de longas e curtas, as sessões especiais de estreias e também os filmes dos programas convidados: Abracine, Cachaça Cinema Clube, Toca o Terror, Rabbit Hole, Sofilm Summercamp - e destaque para o programa Ocupe Cine Olinda, depois de mais de 50 anos trancado, agora ocupado, resistindo e exibindo filmes, com o mote de que o cinema é construído coletivamente e horizontalmente para refletir os anseios e desejos das pessoas.

No âmbito nacional faço menção honrosa específica a Martírio, de Vicent Carelli. Esse documentário reúne e dá sentido a arquivos preciosos da luta indígena brasileira, com imagens indigestas dos últimos anos. Quase um livro de história, convertido à arte imagética, é um trabalho sublime de pesquisa e militância comprometido, urgente e fundamental. Um toque de lirismo híbrido mexeu com os ânimos de todos durante a projeção desse filme feito para memória e para ação. Assista.

O programa Shakespeare merece igual destaque já que a compilação reuniu clássicos e raridades do acervo do British Film Institute: Macbeth, de Polanski; Henrique V, de Laurence Oliver; King Lear, de Peter Brook, e outros. Para a última sessão do festival, o programa reservou os primeiros registros cinematográficos de obras do dramaturgo, feitos em 1899! O público do Janela conferiu essas pérolas numa projeção incrível e com trilha executada ao vivo pelo músico Mateus Alves e a banda Rumor.

[caption id="attachment_28616" align="aligncenter" width="960"]janela-3-por-marcela por Marcela Maia[/caption]

Ao esperar a última sessão ter início, à beira do rio, contemplando o letreiro - já em despedida - estampando um afável “Janela loves u”, sou interrompida por uma voz de um passante que indaga interessado: “Tá rolando o que aí, vei? Shakespeare, é? Porra, gente pra carai!”; caio no riso ao despertar e compartilhar daquela mesma indagação. O Janela tem disso, né? 20h de um domingo, calmaria do centro interrompida, fila dando volta em torno do Cinema São Luiz para assistir a sessões como aquela, sessões que só se vê no Janela. Esse feito é anormal, num sentindo célebre. Só sei que numa outra vida quero nascer um filme (desobediente) pra ser exibido ali. Ou além!

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