Os cinco melhores filmes que vi em 2016

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melhores filmes de 2016

Num ano em que películas adaptações de super (e anti) heróis se tornaram hegemônicas e, sem grande apuro no domínio estético da linguagem cinematográfica, apenas uma espécie de transposição dos quadrinhos às telas, pra não dizer cópias digitalizadas, tivemos: Doutor Estranho, Esquadrão Suicida, Deadpool, Capitão América 3: Guerra Civil, Batman vs. Superman, X-Men: Apocalipse, e por aí vai... 2016 foi cenário, aliás, para a mão errada de alguns realizadores como Tarantino em seu Os Oito Odiados, e Tim Burton em O Lar das Crianças Peculiares. Teve também a bobinha sequência de Procurando Nemo, Procurando Dory, a continuação caricata e sem força de Invocação do Mal e alguns outros deslizes como Animais Fantásticos. A verdade é que esse não foi um ano fácil para os cinéfilos. Mas vamo falar de filme bão, né não? Segue um top cinco bonito e sincero pra vocês.

5º. Rogue One, de Gareth Edwards


Esse chegou no finalzinho do ano e muito me surpreendeu, mesmo como assumidamente não-fã da saga Star Wars – ainda que reconhecendo tamanha importância da obra para o cinema de gênero. O filme, para começar, assim como foi o Guerra nas Estrelas original, tem narrativa com começo, meio e fim, apresentada por um grupo de personagens empáticos, que é liquidado completamente, sem dó. Esse grupo improvável se reúne em prol do bem comum e morre um a um na missão, algo completamente inédito, hiper real, nessa escala, em toda a franquia. (Muitos pontos a favor!) Para a trilha sonora, temos Michael Giacchino, compositor responsável pelas trilhas de Up – Altas Aventuras, Ratatouille, os três filmes do reboot de Star Trek e Divertidamente. A trilha de Giacchino, aqui, ousa. Uma nova música tema não se faz necessária quando a obra quer cativar através da memória afetiva do espectador. Neste caso, Giacchino constrói em cima dos conceitos musicais de John Williams. E negligenciar um hino é só ponto contra, né? Ainda assim, o filme tem equilíbrio em sua totalidade e é dono de sequências de guerra intensas e muito bem rodadas. Mas, acima de tudo, Rogue One é sobre desobediência e esperança. Estamos precisando de umas doses disso, não? Vão ver!

4º. Mogli, de Jon Favreau


Nessa versão live action, o roteirista Justin Marks mantém, em boa parte, a estrutura feita por Walt Disney no filme de 1967. Um novo filme para novos tempos que clamam por ação, porém mantendo a essência da história com algumas alterações. É elaborado um estudo de personagem mais aprofundado para Mogli que nunca foi desenvolvido com muito peso dramático em outras obras cinematográficas do estúdio. Bebendo muito da fonte vinda do filme original, o enredo consegue criar elementos interessantes, investir no local onde era preciso mais dedicação e elaborar releituras de personagens - que aqui se tornaram mais sensíveis e delicados. Já a proposta de Jon Favreau, o diretor, foi audaciosa: adaptar uma fábula repleta de animais fantásticos em live action. Porém, esse sonho torna-se realidade graças ao monstruoso poder da computação gráfica que diversas companhias apresentaram em comunhão com a Disney. Em técnica, o filme é estupendo. Eu fiquei bem de cara.

3º. A Bruxa, de Robert Eggers


Finalizado em 2015, mas em cartaz somente em 2016, A Bruxa é uma obra prima do terror moderno, principalmente por lembrar daqueles que fizeram escola no gênero: O Bebê de Rosemary, O Homem de Palha e De Olhos Bem Fechados. O longa é histórico, cultural e retira da raiz cristã o propulsor de seu medo durante os 93 minutos de projeção. Este é um filme de angústia psicológica, ausente de sustos, que explora o oculto sem perder as rédeas do real. Algo que muito remete ao cinema de Polanski. Coisa de qualidade, que não víamos desde muito tempo. Tudo muito bem trabalhado, as cores do longa em escala de cinza, cenários verossímeis, trilha sonora extradiegética com função diegética, figurino contemplador. Absolutamente em extrema harmonia, todos esses elementos se configuram para que Robert Eggers realize a primeira obra da sua carreira beirando o surreal ainda que vanguardista.

2º. Martírio, de Vincent Carelli


Esse documentário me desmontou por completo. Pense numa lapada! Sabe por quê? Porque ele quebra um silenciamento de décadas e reúne e dá sentido a arquivos preciosos da luta indígena brasileira, com imagens indigestas dos últimos anos. Quase um livro de história, convertido à arte imagética, é um trabalho sublime de pesquisa e militância comprometido, urgente e fundamental. Um toque de lirismo híbrido mexeu com meus ânimos durante a projeção desse filme feito para memória e para ação. Martírio é o segundo filme da trilogia ainda em andamento de Vincent Carelli, indigenista, documentarista, criador do projeto Vídeo nas Aldeias. O primeiro filme foi Corumbiara, o segundo, Martírio, e o final será Adeus, Capitão.

1º. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho


Esse é meu xodó. Kléber Mendonça Filho acerta outra vez e traz aqui um domínio monstruoso da arte cinematográfica. Aquarius é, acima de tudo, um tratado acerca da luta. Resistência às empreiteiras, ao projeto Novo Recife, ao governo vigente e ao golpe. Clara, personagem de Sônia Braga, mergulha no mar da praia de Boa Viagem como quem parece não temer os tubarões. Temer jamais. Kléber trouxe, assim como no anterior O Som ao Redor, um microcosmo muito particular de uma realidade sociopolítica não só inerente à cidade do Recife, por isso se configura universal. Além da carga subjetiva, o filme é tecnicamente um deleite. Os flashbacks do Recife de antigamente são primorosamente realizados. A trilha sonora diegética, por vezes até verbalizada, trata acerca da força do som e das memórias. Já tem em DVD e Blu-ray: se tu é intenso, compre (risos).

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