Os melhores discos de 2016 por Paulo Marcondes

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melhores discos de 2016 por paulo marcondes
2016, o ano em que tudo mudou. Foi bem bosta, teve golpe, mas teve o Cunha sendo preso. Teve aquele PPT lá do Lula que ninguém entendeu a lógica do cara até hoje: se eu bati o dedinho na quina da cama, logo, Lula é o chefe de todo o esquema de corrupção. Teve também eleições pra prefeito e aqui em São Paulo o Riquinho Rico João Dória levou no primeiro turno. SP vai deixar de ser a Vila Madalena pra voltar a ser aquela divisão de vila vila e espaço de boy. A gente tá voltando pros anos 90 mesmo né? Tudo caro pra caramba, pobre não podendo comprar nada, desemprego lá no alto e voltou aquela moda do carro de não sei o que passar na sua rua vendendo. Aqui tem do nhoque, da cândida, do ovo, do pão. Todo mundo que não tem um carro novo e não pode ser Uber tá vendendo alguma coisa na traseira do Uninho 98. Ainda nessa de economia, também voltou a ter um monte de gente vendendo comida na rua pra fazer um cifrão. Esses tempos uma senhora me ofereceu brigadeiro sábado a noite na Paulista, enquanto eu esperava o meu busão lenda. Ela me abordou toda delicada, sem jeito, tímida. Era uma senhora que lembrou minha mãe, minha tia, enfim, gente da gente (pelo menos da minha gente, não sei se você que tá lendo foi ou é boy né).

E aí o que tudo isso tem a ver com música né? Não sei. Mas em tempos de crise econômica e política, o campo artístico floresce. Minas Gerais chegou de vez no mapa da música com o que se convencionou a chamar de rock triste. O rap tá passando por uma fase meio que o emo franjinha em 2005-2008, quando todo moleque tentava imitar o grupo que tava lá em cima e aí o game não ganha em nada né? Sorte que o Chinaski lançou uma pá de som, que o Baco apareceu pro mundão, que o Don L gravou com a Lay, que a Lay debutou com seu EP. Mas vocês gostam de rap? Não sei, acho que não. Mas eu gosto. Então vou falar de rap no abre e na lista.

A última coisa, e aí foi um fator bem ruim de 2016 na minha visão: a música deixou de ser importante pra galera. O Diego já tinha soltado o papo aqui que o som, as bandas em si, não estavam chamando a galera pros shows, mas sim o hype, a paquera, o lugar. E eu adiciono um elemento a isso: o rolê, enquanto participação de um grupo de pessoas que partilham da mesma vestimenta, do modo de pensar e que escute exatamente as mesmas bandas que você. Talvez por isso não tenha dado tanta gente nos Uivos em São Paulo, porque aparentemente, a galera não quer conhecer novos sons, ter um choque com outros estilos musicais. A música é só o plano de fundo para você reunir a sua roda de amigos, tirar selfies e gravar o show pra colocar no Youtube e ficar se gabando dentro de grupo fechado de um determinado estilo musical, dizendo que subiu no palco ou tomou uma cerveja com tal integrante da banda. Não sei, música pra mim sempre foi terapia. E música independente sempre teve outro significado: nunca foi status, sempre foi som e sinceridade. Por outro lado, o ser humano é um bicho de grupo e sim, sempre teve grupo e tal, mas antigamente a música era mais importante que o status no grupo ou as piadas na internet.

Se em 2015 eu pedi que tirassem as baratas dos ônibus, o que rolou mais ou menos, eu só queria que em 2017 as pessoas da música independente em si voltassem a valorizar a música. E isso em termos mais de público do que de banda. Poxa, colem em shows, saiam do computador ou do smartphone, conheçam coisas novas, se permitam a uma apresentação de um pessoal que você não conhece. Enfim, saiam, apoiem e façam algo de bom por algo que vocês gostam. Porque quando a maioria das bandas acabar ou termos uma legião de grupos que são exatamente iguais a galera antiga, não reclamem que a minha lista de melhores discos do ano só tem rap e música experimental.

15º. Theuzitz - Peso das Coisas


Existe uma coisa chamada sinceridade e é provável que seja o que mais valorizo neste mundo e o que me fez entrar de cabeça na música independente quando eu era mais jovem. O Theuzitz foi uma dessas surpresas sinceras e boas ao longo do ano, sabe? Experimentando e lidando com a escassez de equipamento ele faz o que define como “um comentário em primeira pessoa a respeito da nossa multiplicidade enquanto seres sensíveis em vários de seus aspectos, ideológicos, físicos, espirituais, sentimentais, e em como ela se manifesta e pode ser maleável”. O músico está entre o Vitor Brauer, o Lupe de Lupe, milhares de bandas de rock triste e um pouco do Yoñlu. E acho que não tem como isso dar errado, quando feito com personalidade, inovação e novamente aquela palavra mágica, sinceridade.

14º. Fernando Motta - Andando Sem Olhar Pra Frente


A estreia solo do Fernando Motta, ex-integrante da Young Lights, é mais um disco que consolida Minas Gerais como o berço do tal rock triste. Com produção do João Carvalho (Sentidor, Rio Sem Nome e El Toro Fuerte), Andando Sem Olhar Pra Frente é um disco sobre relacionamentos, mais precisamente a respeito do término deles e do que vem com isso: a perda de chão, a tentativa de se encontrar, como o próprio João escreveu sobre o disco. “Perder às vezes é se encontrar, e o dom maior pode ser justamente aceitar que não sabemos para onde ir”. E isso fica claro em “Silêncio”: “E se eu tiver que me deixar mudo? / E se eu sempre te enxergar em tudo?”. Com Andando Sem Olhar Pra Frente, Fernando Motta parece mostrar uma busca para retornar a vida normal, para conseguir seguir adiante sem que tudo o que aconteceu o faça de fato se perder, passando por sentimentos comuns dessas ocasiões, como a raiva, a tristeza e o desejo de não dizer nada.

13º. Rakta – III


Apesar do nome, esse é o quinto lançamento do Rakta, se levarmos em conta tudo o que está no Bandcamp das minas. Uma explosão de baixo, teclas e bateria numa onda meio post-punk, meio música experimental, principalmente se notarmos como a voz é usada não apenas para o canto, mas como uma extensão dos instrumentos tocados por Carla, Nathalia e Paula. É importante dizer que nesse lançamento não há mais guitarras e esse novo formato de banda é dos pontos mais interessantes do álbum, já que existe uma quebra com o trabalho anterior, como a Paula explicou em uma entrevista ao NadaPop. “É importante a gente buscar romper nossas zonas de conforto, assim podemos nos descobrir e desafiar mais musicalmente – o que acarreta também em nos desafiar e descobrir interiormente”. III não é apenas uma evolução e uma ruptura com o que vinha sendo feito antes pelo Rakta, mas também um respiro e uma forma de mostrar que para ser punk você não precisa viver repetindo fórmulas. Ainda existe espaço para a inovação e para o experimento.

12º. Rio Sem Nome - Rio Sem Nome


O Rio Sem Nome é um projeto assinado pelo João Carvalho, do Sentidor e da El Toro Fuerte e talvez por isso as canções soem como uma junção do que acontece de melhor em ambos os grupos: as camadas sonoras, eletrônicas e experimentais do Sentidor com as letras e o modo de cantar meio Amarante do João na El Toro. Criado a partir da tour “Bons Amigos, Maus Hábitos”, que passou por várias cidades do nordeste, João Carvalho consegue unir duas claras influências: o experimentalismo mais eletrônico e post-rockeiro do Sigur Rós ao rock triste e os grupos emos e indies por trás de sua banda. Apesar de seus inúmeros projetos, em Rio Sem Nome o músico consegue escrever seu nome entre um dos mais importantes da música experimental nacional. Se com Memoro Fantomo_Rio Preto, ele dá vazão ao período de depressão que passou, Rio Sem Nome é a maturidade e a cabeça no lugar. É o resultado de toda aquela experiência, é o acordar e ver o dia de outro jeito. É ver que tudo aquilo passou e no final das contas, a partir de agora, João Carvalho é Jónsi Carvalho.

11º. Cadu Tenório - Rimming Compilation


O Cadu Tenório continua com a sua mente insana e seu ritmo de produção a todo o vapor. Em Rimming Compilation ele explora texturas e elementos novos em seus sons: uma fixação pela boca (daí o nome do álbum) e muito anime. Como este é um álbum duplo, a gente tem que dividir esse texto em duas pequenas partes. Em Liquid Sky tudo é mais tranquilo. É como uma volta a pureza, a infância e a todas as coisas boas, um retorno a uma fase de descobertas e novidades. Phantom Pain, como o nome sugere, é outra coisa. É o amadurecimento e tudo de ruim que vem com ele. Aqui o Cadu é mais noise, mais denso e mais intenso, em termos de ruídos. Apesar de já ter lançado uns 900 discos, Rimming Compilation é a grande obra-prima do músico carioca, pois além de fazer uma retrospectiva de sua carreira, utilizando elementos desde o Sobre a Máquina e VICTIM! a coisas menos conhecidas dele, como o Santa Rosa's Family Tree, muda um pouco o rumo da carreira dele, incluindo o vídeo como uma extensão do disco, e só confirma o ditado, de que quem fica parado é poste.

10º. Sabotage - Sabotage


Rapaz, o Maurinho ia fazer estrago se estivesse vivo hoje, hein? Eu ignorei algumas participações que não bateram, umas guitarrinhas que não me animaram, mas eu fiquei prestando muita atenção nas linhas e no flow do Sabota e Deus sabe como eu achei muito irônico quando estava tomando uma cerveja no bar e rolou um assalto do lado. Uns caras armados fugiram por cima do telhado do lugar que eu tava, os coxas fecharam toda a avenida, gambé correndo de sub-metralhadora na mão e falando “sai sai sai sai sai” pra qualquer um que estivesse em sua frente. Enquanto isso o Sabotage cantava “País da Fome (Homens Animais)” e na sequência “Maloca e Maré”. Talvez isso não seja um review, mas é o clima do disco: a realidade, o crime e o dia a dia das quebradas.

9º. Xóõ - Xóõ


“A humanidade nasceu da morte, todos nasceremos também”. Quando Vitor Brauer canta esse verso assim que o disco abre, a gente fica meio em choque não só pela frase em si, mas pelo o que vem depois. Em quase quatro minutos ele conta, literalmente, a história da humanidade sobre um instrumental muito bem executado por um baita time formado por Gabriel Ventura (Ventre), Hugo Noguchi (Ventre e SLVDR), Larissa Conforto (Ventre), Bruno Schulz, Cairê Rego (Baleia), Felipe Pacheco Ventura (Baleia) e Gabriel Barbosa (SLVDR). Gravado em apenas sete dias, Xóõ explora e se aprofunda sobre questões básicas da sociedade contemporânea, como a velocidade em que as coisas acontecem, o amor, o cansaço do dia a dia, a questão do ego em tempos de internet e Facebook e claro, a fatídica frase “é tudo uma questão de opinião”. O Xóõ, com esse nome que soa meio futurista e meio ancestral, parece captar a maioria dos dramas de uma sociedade confusa, esquisita e mergulhada em laços efêmeros e colocá-los pra fora.

8º. Orchestra Binária - EP#02


2016 foi um ano bem bosta pra Cidade de Deus, né? Mas a gente tem sorte que a Orchestra Binária vem de lá e esse trio suburbano faz desde seu primeiro EP o que uma galera descobriu tem pouco tempo: juntar eletrônica, rock, samba, música experimental e misturar. Misturar bem pra que não soe aquele lance pretensioso de gente branca pra pegar edital, gravar um disco e jogar a migué de que “estamos fundindo a realidade brasileira com influências da Europa moderna, olha como somos bons”. Vocês, dos editais, quase nunca são bons. Mas a Orchestra Binária é bem boa e prova disso é que um EP que demorou quatro anos pra ser lançado e tem apenas cinco faixas, não tem uma música pra destaque. O disco é uma obra coesa. Da sua capa que representa o trabalho e a construção, criada pela artista plástica Carolina Ochotorena, ao último som, “Decodificando”, tudo parece se unir e fazer parte de uma única peça. Coesão é a melhor palavra pra descrever o retorno da Orchestra Binária, que se Deus quiser, e a cidade dele deixar, deve chegar com o primeiro álbum em breve.

7º. Paola Rodrigues - <3 Wifi


A Paola Rodrigues, assim como muitos de nós, é uma filha da internet. Uma mente inquieta e insana que resolveu fazer um EP dedicado a rede mundial de computadores. <3 Wifi é completamente diferente da estreia da artista baiana e isso se dá muito pela produção. Em Perdida, Vitor Brauer assumiu as bases e fez aquele lance quebrado, experimental, esquisito e sufocante, que combina perfeitamente com a atmosfera do disco. Já neste EP quem assina a produção é o André Pádua, que investe numa onda mais pop, o que de longe, não deixa o disco ruim. A Paola continua lá, firme e forte no spoken word, com letras extremamente pessoais e tocantes, num exercício de vomitar sentimentos, como rola já na primeira faixa “N0v0 An0”: “E eu queria fazer uma carta pra / A única coisa que une todas essas pessoas perdidas / Em todos os cantos do mundo / Por tudo em que decidimos acreditar / A internet é a minha religião / Eu acredito nela como / Como em deus, acredita um cristão / E não é que eu me sinta exatamente aliviada /Mas há alguma esperança de / Dar um efeito a vida, um motivo / Mesma que seja viver brincando de contar história / E eu só quero poder falar e seria legal se alguém quisesse ouvir / Esse é o objetivo da minha existência de hoje / Até o dia da minha morte”. Em <3 Wifi Paola dá um passo importante em sua carreira musical, já que se mostra mais versátil em termos artísticos, de cantar sobre bases mais "tranquilas", de conseguir escrever de um modo coeso, mesmo em um exercício de throw up.

6º. Nego E. - Oceano


Em seu segundo álbum, Nego E. chega como? Pesado! Aqui o racismo é o norte para praticamente todas as canções, incluindo o hit “Lua Negra”, em que várias vozes cantam “Vidas Negras Importam”, em uma clara alusão ao movimento estadunidense Black Lives Matter. Na mesma canção, a caneta de Nego E. não escorrega, vai firme e direta: “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada (açoite) / O perfume das ruas cheira Brasil Colônia”. Mas além dos versos do Nego E. e da ótima produção do álbum, o que é interessante de notar é que em Oceano o cantor parece expandir a faixa “The Blacker The Berry” do Kendrick Lamar. A maioria das canções parece tocar em um ponto da música, como se o disco fosse uma lupa e tentasse se aprofundar em todas as fitas citadas pelo rapper norte-americano. A influência do Kendrick fica clara também em “Lua Negra”, quando o som vira e antes das vozes chegarem cantando “Vidas Negras Importam”, o beat muda e uma parada mais seca, remetendo a tambores chega. Na hora a gente lembra daquela apresentação do Kendrick no Grammy, na passagem de “The Blacker The Berry” pra “Alright”. Além disso, o verso “Você me odeia né? / Como eu me visto, como eu falo, como ando, como ajo e / reafirmo meu crespo sim / Você me odeia né?”, é uma clara influência dos trechos em que Kendrick questiona “You hate me don't you?”. E se isso é algo ruim? Claro que não. Nego E. mostra que está evoluindo e tendo ideias dentro de um gênero que em 2016 acabou sendo pouco inventivo no país.

5º. Jonathan Tadeu - Queda Livre


Se em 2016 o rock triste foi o termo que mais irritou um pessoal, Queda Livre é o maior representante desse gênero. O segundo álbum do Jonathan Tadeu tem um ar de tristeza com as guitarras e as letras, caso de “Quase”, que abre o disco, “Eu juro por deus / Que eu me esforço / Mas não posso deixar você / Esperando a saudade nascer em mim”. mas também tem aquela parada meio otimista ao mesmo tempo, caso da última canção, “O mundo é um lugar bonito e eu não tenho mais medo de morrer”. Afinal de contas, Queda Livre é sobre amor, e de acordo com o próprio Jonathan em entrevista ao Noisey, “é aquela linha tênue entre o que as pessoas consideram honesto e comovente e o que é cafona”. Longe de ser cafona, o álbum é a síntese perfeita do amor, das decepções, das reflexões, das esperanças e dos momentos felizes, caso de “Amour”: “Mesmo que eu nunca acorde desse sonho ruim / Eu te amo até o fim / E eu nunca vou desistir”. Com Queda Livre Jonathan se mostra o maior nome dessa geração do “rock triste” em termos de composição, seja ela instrumental ou de letra.

4º. Mano Brown - Boogie Naipe


Em um churrasco há uns 8 anos, eu tava conversando com um truta, enquanto a gente já tinha virado uma pá de Itaipava. Eu achava que o Brown tinha dado uma derrapada e pá. Ele tinha comentado que tava num rolê e tocou “Mulher Elétrica”, que ele nunca imaginou dançar um som do Brown. E isso passou, a gente cresceu, evoluímos e hoje temos um disco com mais de 20 músicas do Brown pra dançarmos, tomarmos um barato ouvindo, dando ideia em alguém. Boogie Naipe é bem 70’s e 80’s, é bem Cassiano, Marvin Gaye, Leon Ware (que inclusive participa da música “Felizes/Heart to Heart”), é o lado romântico do Mano Brown que todo mundo só conhecia nas entrevistas e em “Eu Te Proponho”, do Cores e Valores. Às vezes triste, como “Nova Jerusalém”, “O campo aberto, um tempo bom / Eu vejo gente que eu perdi / Vejo palmar e um casarão”, mas é bem transante em certos momentos, vide “Louis Lane”: “Quero ser seu Super Man / Venha ser minha Lois Lane / (Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado / Quero você)”. Em Boogie Naipe, Brown se mostra versátil e corajoso, deixando claro para todos que ele é um dos grandes nomes da música brasileira, independente se cantando rap, funk ou soul. Eu espero estar vivo quando colocarem o nome dele ao lado de gente tipo Caetano Veloso e Gilberto Gil.

3º. Lay - EP 129129


Esse ano o rap foi bem mais ou menos. Teve muito lançamento, muita estreia, mas quase todas bem abaixo da média. A Lay é esse ponto fora da curva. O primeiro EP da artista de Osasco é aquela enxurrada de versos feministas, bem bucepower. É o lance de empoderar a mina negra da periferia, mas de um jeito diferente. Não é o papo de dentro da academia, naquele looping eterno de palavras difíceis que não bate muito em quem estudou em escola pública a vida inteira. É direto, reto e isso vem muito do fato da Lay escrever poesias feministas antes de cantar rap. É só pegar o verso de “Ressalva” que tudo fica mais claro. “Mas o meu número é sete, queimaram as Joanas porque pagamos boquete / Falei que pau era igual chiclete, depois que perde o gosto, esquece / Depois que perde o gosto, esquece”. A produção ficou a cargo do Leo Grijó e tem de tudo no disco: ragga, funk, trap… Lembra daquela frase da Emma Goldman? Então, 129129 é dançante, mas é político. Se a Lay não puder dançar, não vai ter revolução.

2º. Arthur Verocai - No Voo do Urubu


Arthur Verocai é um compositor e arranjador famoso. O problema é que ele é muito mais famoso lá fora do que no Brasil. Seu primeiro disco, Arthur Verocai, de 1972, ficou no limbo durante uns 20 anos, mas quando foi descoberto, foi sampleado por muitos produtores gringos. Se você fizer o exercício de jogar no whosampled o nome do cara, vai ver que Ludacris, SchoolBoyQ, Metal Fingers e mais uma pá de gente usou a música de Verocai como base. Depois de alguns anos, o artista está de volta com No Voo do Urubu, um disco que se destaca tanto pelos arranjos, quanto pelas participações de Mano Brown, Criolo, Seu Jorge, Lu Oliveira, Vinícius Cantuária e Danilo Caymmi. É claro que pode soar como covardia comparar Verocai com qualquer outro artista que ouvi recentemente, mas acredito que durante toda a minha vida, No Voo do Urubu é um dos discos mais bem arranjados que já escutei. Contemporâneo, sem amarras, olhando pra trás e pra frente ao mesmo tempo.

1º. Chave Mestra - Coração no Gelo


Antes de “Sulicídio”, Pernambuco já tava chegando pesado em 2016. O Chave Mestra tinha lançado o EP Coração no Gelo, que é aquele turbilhão de coisas que o nordeste tem feito esse ano: trap, autotune e uma visita as influências que o Costa a Costa deixou por ali no meio da década passada. Coração no Gelo é a visita ao coração do guerreiro. A frieza necessária pra levar a vida (Coração no gelo, coração no gelo / Se não o seu sonho, vira pesadelo), a forma como os amigos se tornam tudo o que você tem (Que eu morro pelos meus irmãos / Eu mato pelos meus irmãos), as poucas escolhas pra quem é negro e/ou pobre em uma pegada “Nego Drama” (Peço a deus que o jogo vire / Pois é a musica ou o crime), e o modo como a mina mexe com o cara, numa pegada bem rap de Brasília (Doce alucinação, felina, é trap, é brega funk / Ela é louca e topou uma noite quente pra ferver meu sangue). Apenas um ano depois do álbum Novo Egito, Coração no Gelo chega para colocar o grupo pernambucano como um dos grandes nomes do rap brasileiro e não apenas nordestino.

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