365 Girs in a Band – Review #30

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siouxsie

2017 começou disposto a desafiar meu resto de otimismo e positividade. Me lembrou que pior do que viver qualquer tipo de violência urbana é enfrentar os procedimentos seguintes: a negligência da polícia, a falta de empatia das pessoas, os “cidadãos de bem”, a neurose das empresas de segurança. Jogou na cara um monte de disputas de poder que acabo por ignorar no cotidiano. Mas continuo caindo de pé e dessa vez vou fazer uma lista bem riot girl para ajudar nessa energia combativa que anda rolando por aqui.

Bratmobile

http://www.youtube.com/watch?v=u0-2lTKNtSk

Da primeira geração de riot girrrls, a Bratmobile é uma das integrantes icônicas da cena de Olympia. Allison Wolfe e Molly Neuman tinham um zine feminista, o Girl Germs. Compuseram algumas letras de música, mas não sabiam tocar instrumentos e se apresentavam à capela. No dia de São Valentim, dia dos namorados nos Estados Unidos, elas foram convidadas para se apresentar junto com o Bikini Kill e Some Velvet Sidewalk. Com a ajuda de Robert Christie, elas conseguiram um local e instrumentos para ensaiar e receberam um conselho para ouvir Ramones como inspiração. Ignoraram completamente o conselho, pensando que isso era o que as bandas de garotos faziam, e se apresentaram com cinco canções, alternando entre os três instrumentos. No verão do mesmo ano, foram para Washington assistir a um show do Beat Happening e acrescentaram Erin Smith a formação da banda. A Bratmobile gravou o disco Pottymouth e o EP The Real Janelle pelo selo clássico Kill Rock Stars e registrou uma Peel Session antes de se separarem em 1994. Em 1999, a banda voltou a se reunir para uma turnê com o Sleater-Kinney. Desse reencontro, surgiram os discos Ladies, Women and Girls (2000) e Girls get Busy (2002). Apesar de não ter um final oficial declarado, desde 2004 o grupo não se reúne e as integrantes estão envolvidas em outros projetos artísticos e musicais.

Para saber mais: Wikipedia, Bandcamp, Kill Rock Stars

Crass

http://www.youtube.com/watch?v=O3adXwLVIaY

Mais do que uma banda (ou antes de ser uma), o Crass é uma ação de guerrilha, com ocupações de prédios abandonados em Londres, intervenções artísticas (e outras nem tanto) e uma série de atividades subversivas e anarquistas. Os primeiros discos do Crass já incluíam mulheres, mas são basicamente comandados pelos caras do coletivo. É com Penis Envy, terceiro álbum do deles, que as moças tomam à frente do movimento musical do Crass. O disco marca algumas outras mudanças, saindo de um estilo mais hardcore para arranjos musicais e vocais mais elaborados, com os vocais femininos valorizando as letras. Super atual, tanto em temática (infelizmente, porque 37 anos se passaram desde o lançamento) quanto em estilo, eu considero Penis Envy o melhor disco do Crass. Eve Libertine e Joy de Vivre assumem o comando da banda, enquanto o vocalista tradicional, Steve Ignorant, é creditado como “not on this record”. Para o lançamento, o Crass entrou em contato com a revista adolescente Loving, convencendo-os a encartar o single “Our Wedding”, uma paródia de uma tradicional canção romântica, como brinde para seus leitores. Na edição, a revista oferecia o single como um toque especial para o seu casamento. Após uma longa polêmica, o coletivo se livrou de qualquer acusação, por não ter quebrado nenhuma lei. Vale a pena ouvir e conhecer detalhes da história do Crass, resistência não exatamente pacífica e muito irônico.

Para saber mais: Wikipedia, Bandcamp, The Guardian (sobre a história do Crass e seu papel hoje)

Siouxsie and The Banshees

http://www.youtube.com/watch?v=amR6-neQBPE

Apesar dos Banshees terem mudado várias vezes ao longo da carreira da banda, Siouxsie é sempre Siouxsie e é maravilhosa. Considerada uma das personalidades mais influentes do rock pelo site Allmusic, Siouxsie é cantora, compositora, musicista e produtora, e além do Siouxsie and The Banshees também esteve à frente do The Creatures. Influenciada por Sex Pistols, David Bowie e The Stooges, Siouxsie tinha também uma imaginação fértil, criando seu próprio universo imaginário. É dentro desse universo que, junto ao amigo Steven Severin, ela decide montar uma banda, na esteira do faça você mesmo. Sua primeira apresentação contou com uma versão de 20 minutos da canção “Lord’s Prayer”, com improvisação livre e a cantora recitando a letra no vocal.

Autêntica, a inglesa tem uma postura de palco que foi influente para outros nomes do punk, como Viv Albertine, guitarrista do Slits (e com interessante carreira solo atualmente), além de uma voz única, marcante. Seu estilo e postura a colocaram na capa do tabloide Daily Mirror, com o título Siouxsie’s a punk shocker. Com vários hits no Top of the Pops, Siouxsie tem uma carreira reconhecida em suas bandas. Desde 2004, ela segue em carreira solo e arranca elogios da crítica especializada em suas apresentações. Uma artista para seguir e admirar.

Para saber mais: All Music, Please Kill Me (sim, o site do livro!)

The Raincoats

http://www.youtube.com/watch?v=41J3IGWDs0o

Uma das bandas favoritas de Kurt Cobain – que chegou a convencê-las de uma reunião para acompanhar o Nirvana na tour que fariam em 1994 – a Raincoats foi formada pelas estudantes Ana da Silva e Gina Birch, que não sabiam nada sobre música. Com um primeiro disco de letras fortes e som quase naïfy, as meninas se tornaram as madrinhas do grunge, influenciando uma série de grandes nomes, como Kim Gordon e Beth Ditto. Em uma formação posterior, as Raincoats tiveram Palmolive e Vicky Aspinal, formando uma all girl band poderosa. O jornalista Grail Marcus declarou que elas derrubaram todos os estereótipos de mulheres no rock’n’roll por terra. O grupo se manteve unido entre 1977 e 1984, quando se desfez após o cansaço de tours e o desgaste de mudanças constantes de estilo. Em 1992, Cobain encontrou um disco delas e as trouxe de volta aos holofotes ao declarar ser uma de suas bandas favoritas. Em 1994, elas se reuniram a pedido de cantor para a turnê que nunca aconteceria, e retomaram a carreira da banda. Apesar de não lançarem nenhum álbum novo desde 1996, Ana e Gina continuam excursionando e fazendo aparições em eventos especias até hoje. Paralelamente, as duas tem carreiras em outras áreas da música, como na execução de trilhas sonoras para dança contemporânea. Com mais de 60 anos, ambas consideram que ainda tem muita estrada pela frente.

Para saber mais: The Guardian, Site Oficial, Kill Rock Stars

Sara Não Tem Nome

http://www.youtube.com/watch?v=PtEXbFhvG28

Para não fechar essa lista sem um nome brasileiro, chamo a Sara Não Tem Nome. Natural de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, a Sara representa para mim, nesse momento, essa parte da cidade que ninguém quer olhar. Numa música bem conhecida dos belo-horizontinos, o MC Papo diz que Contagem é o motherfucking Texas e é essa sensação de isolamento e decadência que marcam o primeiro disco de Sara – vídeo-artista, além de cantora e compositora.

Admito que não fui capturada de cara por Ômega III, disco de estreia dessa mineira, mas que fiquei genuinamente encantada por uma apresentação de Sara no Baixo Centro Cultural, ponto icônico da cena mineira, na qual ela estava acompanhada de Vanessa de Michelis, Vitor Galvão e Jiulian Gonçalves. O peso que a formação deu ao disco torna as letras melancólicas pesadas e incômodas. Esse trabalho tem me tocado particularmente nesse momento por trazer à tona a distância que há entre o centro-sul da capital e suas cidades fronteiriças, entre o núcleo de BH e sua periferia e no eterno conflito de uma luta por igualdade – social e também cultural – que pouco ou nada se descentraliza, cegando para uma série de questões que me parecem sem solução nesse árido começo de ano. Para além desse lado pessoal, vale a pena acompanhar todo o trabalho da Sara: seus clipes são bem bonitos e trazem uma boa cama para as canções e o trabalho de audiovisual da moça é criativo e interessante, dando uma mostra pequena da nova geração de vídeo arte de Minas.

Para saber mais: Site Oficial, Facebook, Canal do Youtube

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