A esperança do João Carvalho em Rio Sem Nome

por - 11:00

joão carvalho

O João Carvalho é meio louco em termos de produção musical. Além de tocar na El Toro Fuerte, banda que talvez seja um dos maiores expoentes do famigerado rock triste, ele tem um projeto sozinho de música experimental chamado Sentidor e não bastasse isso, resolveu dar vida a outro trampo, o Rio Sem Nome, que querendo ou não, dialoga um pouco com suas outras investidas musicais.

Criado durante a turnê "Bons Amigos, Maus Hábitos", que passou por várias cidades do país, o Rio Sem Nome é um salto para outro tipo de produção vindo do João, apesar de podermos enxergar um pouco de cada grupo seu. É uma forma de respiro dentro dos dilemas escritos na El Toro Fuerte e as texturas densas do Sentidor, principalmente do disco Memoro Fantomo_Rio Preto.

Tentando entender melhor como funciona a cabeça do João, o processo de criação do Rio Sem Nome e claro, uma possível continuidade do projeto, conversamos com o músico.



Eu comentei com você que o Rio Sem Nome soava como uma junção do Sentidor e do El Toro. Acho que tem um pouco da sua banda no sentido das letras, a forma de cantar e tal, do Sentidor nesse aspecto mais post-rock experimental. Você acha que esse projeto é de fato essa união de influências?

Acho que é dificil definir essas coisas, até porque o processo de composição é uma parada muito inconsciente. Acho que esse projeto é talvez o meu maior exemplo disso até hoje. As canções desse disco surgiram sem que eu precisasse fazer muita coisa a respeito, sabe? Diferente da El Toro, e até do Sentidor, o Rio Sem Nome foi um projeto que eu não planejei. Eu literalmente acordei um dia e me dei conta de que tinha um disco inteiro - de uma coisa que não era nem El Toro nem Sentidor - composto e gravado. Por isso eu acho que as influências parecem tão misturadas. Eu sinto que o Sentidor e a El Toro funcionavam muito como aspectos diferentes da minha personalidade. Extremos, em alguma medida, saca? O Rio Sem Nome é uma espécie de síntese. E também, resultado de algumas redescobertas musicais que eu tive, influências que não apareciam tanto antes disso, tipo os trabalhos do pessoal todo do Clube da Esquina.

O Rio Sem Nome foi produzido durante a turnê “Bons Amigos, Maus Hábitos”, que aconteceu pouco tempo depois daquele período de crises que serve como base para o Memoro Fantomo_Rio Preto, do Sentidor. O Rio Sem Nome foi uma forma de você tentar mostrar pra você mesmo que as coisas estavam diferentes? Digo isso porque vejo um tom esperançoso nas faixas.

Acho que é uma consequência, mano. Com certeza as composições tiveram uma importância pra chegar as conclusões que eu acabei chegando, psicologicamente mesmo. Eu sinto muito isso, de que eu sempre fiz música como parte do meu processo de terapia e auto conhecimento. Acho que por isso eu trato a música e essas questões todas envolvidas no último disco como sendo um assunto de cura, de tratamento mesmo. Tem sido a minha relação com a maioria das coisas atualmente na real (risos). Pensar que o mundo se divide entre coisas que estão doentes e coisas que tão saudáveis. O Rio Sem Nome foi escrito durante o meu processo de melhora. Essa turnê foi basicamente o motivo de eu ter ficado saudável de novo... Então tá tudo muito misturado. É esperançoso pra caralho, acho que eu nunca tive tão positivo antes (risos).

O disco é dedicado para a Teca e tem uma canção com esse mesmo nome. Quem é Teca?

Teca é o nome da poodle com quem eu vivi desde os meus 8,9 anos de idade. Ela faleceu alguns dias depois que eu voltei da turnê no nordeste... A gente é muito próximo e eu aprendi e pensei muita coisa do que fala esse disco por conta dela, então me pareceu um agradecimento adequado. É engraçado porque essa música foi escrita num outro contexto e tinha outro nome. Mas quando eu ouvi ela de novo antes de lançar o disco, eu percebi que, de alguma forma, era sobre ela. Foi aí que eu coloquei o nome. Criação é inconsciente né, acho que foi um jeito de deixar as coisas mais bonitas.

Nas letras do Rio Sem Nome, quase sempre a gente tem perguntas, um lance meio que você tentando encontrar respostas, pedindo essa ajuda aos outros. Tem alguma relação com o Memoro Fantomo_Rio Preto, do Sentidor?

Acho que o Memoro Fantomo é um disco solitário, saca? Sou eu falando comigo mesmo, tretando comigo mesmo, o tempo todo. O Rio Sem Nome é um disco que tem uma coisa de coletivo, sabe? As temáticas e os gatilhos pras músicas do Rio Sem Nome são pessoas, relações, diálogos. Enquanto o Memoro Fantomo é um esquema de dentro da minha cabeça mesmo.

[caption id="attachment_28725" align="aligncenter" width="960"]joão carvalho - rafael santos "Oi, [email protected]" por Rafael Santos[/caption]

Você tem planos de continuar com o Rio Sem Nome ou ele foi um projeto pra nascer e morrer com só um disco mesmo?

Vou te falar que nem eu sei (risos). Eu tenho pensado muito que esse negócio de ficar inventando projeto novo o tempo todo pode começar a cansar a galera!! Daí tô considerando a possibilidade de lançar tudo que eu fizer de música com letra pelo Rio Sem Nome mesmo. Mas tem nada certo não (risos). O que eu posso garantir é que eu tô focadão em montar e apresentar um show com banda completa do Rio Sem Nome, esse ano ainda. Vamo ver se rola (risos)

Eu vejo o Rio Sem Nome como uma compilação das ideias do “rock triste”, mesmo que sonoramente seja completamente diferente. Ele foi feito em meio a uma tour em que o termo estava sendo bastante discutido e comentado. Existe alguma relação com o projeto/som e o movimento/termo discutido? Nem que seja soar diferente para se destacar do grupo?

Sonoramente também acho que não, mas esse é o primeiro disco que foi escrito comigo no meio da galerinha que poderia ser chamada de "do rock triste"! É um disco resultado de meses de convivência tipo de família mesmo com o pessoal mais amigo desse grupo que tem o Diego, o Jonathan, o Fábio, Fernando, Paola. Acho que influenciou o meu jeito de pensar mesmo.

Como funciona o Rio Sem Nome ao vivo? Voce gravou tudo, mas existe uma ideia de banda? É um projeto para o palco/shows?

Gravei tudo sozinho por conta de praticidade mesmo, sabe? Era um negócio que tava quase todo resolvido na minha cabeça e eu queria registrar o mais rápido possível pra não esquecer mesmo hahaha. A maioria das coisas que eu gravo sozinho é muito por praticidade e fominhagem mesmo (risos). Acho que até quis deixar essa sensação de "rascunho" no disco de alguma forma. Existe a ideia da banda, existe uma lista de membros já, e existem até umas conversas acontecendo de primeiro show. Só que a gente precisa encontrar um jeito de conciliar as rotinas de todo mundo pra juntar todo mundo, sentar a bunda e preparar o show.

Tanto no Rio Sem Nome quanto no Sentidor você faz e pensa tudo. O João é um cara solitário mesmo ou é dificil criar em conjunto pra voce?

EITA! (isos). Acho que sou um pouco um cara solitário sim. Eu sempre precisei de uma quantidade meio grande de tempo sozinho. Mas ao mesmo tempo, eu amo gente. Se você me chamar pra tomar uma cerveja eu vou sem nem pensar. Acho que a questão é que esses projetos de música são eu tentando falar e entender umas paradas que às vezes eu compartilho com quase ninguém. Acaba que pensar sobre essas coisas vira uma coisa solitária mesmo, e as músicas que vem disso seguem o mesmo esquema. O caso do Rio Sem Nome é diferente porque, de novo é um disco sobre contato humano, feito no meio do contato humano (risos). Mas eu gosto de criar em conjunto, mesmo. Tô envolvido em um monte de banda e tô querendo gravar participação com muita gente esse ano, até pra eu não virar tipo um andarilho ranzinza.

O nome Rio Sem Nome é por ser um lugar real, mas também dá a sensação o entendimento de falta de identidade e também de mistura, por ser um rio que deságua. Você pensou em alguns desses conceitos na escolha do nome ou criação do trabalho?

Acho que sim, de alguma forma. Tem a história mais imediata que eu já devo ter contado por aí... Eu, Cícero, Hannah, Jonathan e Nando estávamos na estrada durante a turnê e em algum momento a gente viu uma imagem muito bonita na beira da estrada. Era o rio da capa do disco, e a gente ficou meio extasiado, porque achamos muito bonito, e não era um ponto turístico nem nada. Era uma paisagem de beira da estrada que tocou a gente por algum motivo específico. Alguém comentou que parecia um rio sem nome. Acontece que pela placa na estrada, o nome do lugar realmente era Riacho sem Nome. O processo todo gira em torno da metáfora do rio mesmo. Porque eu acho que o processo de crescimento mental tem muito a ver com isso... Aquela história toda de Destino, encontrar o caminho, acho que é uma grande verdade que a gente não entendeu muito bem. Acho que o disco já fala um pouco de uma parada que eu tô vivendo muito forte agora, que é essa coisa de, nas palavras do mestre, deixar a vida me levar (risos). Acho que é desprendimento da identidade mesmo. A gente fica brincando muito com o pós modernismo e com a modernidade líquida, mas eu tenho botado muita fé no desprendimento - não na forma de frieza, de ausência de afeto, como eu acho que se pratica às vezes -  mas como uma forma de nomadismo mesmo. Às vezes nomadismo espacial mesmo, de viajar, passar temporadas com gente muito diferente, se desacostumar um pouco das coisas que cê dava por certas e tal. Pra mim isso tudo se resume na imagem do rio, sabe? Todas as características.

João, você já pensou em escrever um livro? Acho toda sua sonoridade bastante escrita ou literada, além das letras e textos. Existe esta pretensão?

Cê já deve ter sacado que eu gosto muito de escrever (risos). E realmente, eu sempre fui muito chegado em livro. Meio nerdão mesmo. Daí teve uma época, uns anos atrás em que eu comecei um projetozinho de poesia. Pra falar a verdade, eu cheguei a escrever três romances que devo ter mostrado pra três pessoas e duas delas realmente leram (risos). Mas eu sempre fui influenciado por literatura. Quer dizer, rap é basicamente isso né? Mas é isso, eu acho que tenho me aproximado da literatura de novo, tenho adicionado cada vez mais conteúdo escrito aos discos, e inclusive o trampo que tá pra sair em breve do Sentidor tem possibilidades de vir junto com um conto. Não vou mentir não, eu gostaria muito de lançar um livro um dia, mas não sei se tenho material bom o bastante ainda. Acho que preciso de mais opiniões e um pouco de escrita. Quem sabe? (risos)

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