Os melhores discos de 2016 por Diego Albuquerque

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Os Melhores Discos de 2016

A verdade é que o ano só acaba quando a gente quer. Mesmo esta frase sendo uma desculpa, sempre achei meio estranho soltar a lista de melhores do ano antes de ele acabar. Nos EUA, os rappers costumam lançar discos no natal e na última semana do ano, imaginem quantas listas eles devem estragar? No Brasil ainda não chegamos nesse ponto (apesar de ter saído um monte de rap no fim do ano, como o ode aos mcs do Rincon Sapiência), mas com certeza estamos cada vez mais usando o ano quase todo para lançamentos musicais. O mês de janeiro agora é um mês vivo em lançamentos, o caminho natural é dezembro também se tornar mais vivo e atuante, ou não. Mas vou continuar achando estranho os sites, jornais e a ~critica cultural~ finalizar um ano antes do calendário fazer o mesmo.

Foi um ano bem standby o de 2016 na minha vida. Pelo termo, dá pra perceber que foi parado em um monte de coisa. A ação mais importante que cumpri neste ano foi a de ser pai. Foi o meu primeiro ano completo como pai e isso foi incrível. Mesmo que não tenha passado o ano todo com o Téo, mesmo assim foi bem legal ver como um ser evolui em um ano, até quando o ano é parado. Muitas discussões ou impressões vazias em redes sociais, pouca ação para uma mudança que queremos. Uma coisa boa do ano foi o Hominis ter sido convidado a se retirar do Facebook, vocês não sabem o tempo que vocês perdem nesse site bosta. Eu percebi e acho bem difícil voltar por lá se não for a negócio$.

Musicalmente falando foi um ano legal pro Hominis. Mesmo com a crise, fizemos vários roles bacanas com bandas que curtimos e acreditamos que merecem fazer mais shows, ter mais atenção do público, etc. Fizemos uma tour pelo Nordeste, realizamos eventos em parceria em vários estados. Levando bandas onde nunca antes tinham ido e isso foi bem bacana. Esse ano já antecipo que deve rolar pelo menos um HC Apresenta com os mineiros Vitor Brauer e Jonathan Tadeu (que entrou na lista de melhores discos do Paulo) em Teresina. Uma cidade que nenhum dos dois nunca pisou e acredito que vai ser demais! Também estamos pensando num HC Tour bem especial pelo nordeste, vamos ver como as coisas desenrolam, mas tem tudo pra dar certo.

A minha lista provavelmente tem algumas certezas do ano de 2016. Se até a Sandy falou do Baiana, é meio obvio o novo trabalho dos caras aparecer por aqui. Foi um ano de reafirmação, mesmo que em novos caminhos sonoros, para alguns artistas e bandas brasileiros. E esta mudança sonora foi positiva, no caso de Negro Leo, Macaco Bong, Vitor Araújo e Labirinto. A Carne Doce finalmente fez um disco como banda e agora sim é destaque do ano com louvor. Finalmente o Síntese lançou um disco, e que disco! Algumas novidades também mandaram bem, como o Phalanx Formation e o primeiro álbum da cantora Bruna Mendez. Alguns trabalhos foram melhores que os antecessores de algumas bandas/projetos e essas melhoras merecem menções por serem muito boas. É o caso de Nvblado, maquinas, Marcela Lucatelli, Paulo Dandrea e Rumbo Reverso. E pra encerrar, o Metá Metá é uma das bandas mais importantes do Brasil na atualidade e o MM3 deixa isso bem claro.

Odeio ordenar, mas ordens são ordens! Então segue:

15º máquinas - Lado Turvo, Lugares Inquietos


O segundo trabalho da banda cearense maquinas finalmente reúne a qualidade sonora do grupo com as boas ideias. O tal do shoegaze finalmente se fez representado de uma maneira mais próximo do ideal no Brasil. Toda a introspeção necessária em letras que te rasgam de dentro pra fora, falando sobre o sentimento de deslocamento, cada vez mais comum no mundo, os sussurros poéticos sobre relacionamento, sobre o convívio com o meio do qual você faz parte, o pensar diferente dos demais, sobre o ambiente que habita, isso tudo é contemplado nas falas e repassado com angustia pela sonoridade do trabalho. Ao vivo o que era bonito, bem feito e triste, se transforma num experimento sonoro. Como me disseram alguns dos integrantes na apresentação que pude ver deles em 2016: “nenhum show da banda é igual ao outro”. E não se engane, todas as músicas do disco estão lá, em algum momento, vestidas do ambiente no qual a banda se encontra realizando seu show. E isto só deixa ainda mais interessante este belo disco do grupo. Falei mais sobre toda a onda de sentimentos que o disco me trouxe, neste texto aqui no altnewspaper.

14º Nvblado – Água Rosa


A sonoridade sem pressa e bem trabalhada em contraponto com o vocal angustiante geram uma mistura de sentimentos absurdos em mim. Este é o principal motivo do segundo disco da banda catarinense Nvblado não ter saído do player desde seu lançamento. Por mais que, em alguns momentos, a angústia das letras existencialistas e do vocal gritado pelo Renan tenham me feito querer pular alguma das faixas vez por outra. Isto porque nem tudo pode ser cinza em um ano, até quando o ano é ruim como foi o de 2016. O ponto alto da união sonora com a angústia literária está em “Apolo”, que pensava ser duas canções em uma. Mas em um faixa a faixa feito por aqui com o Renan ele justificou: “o processo de criação desse disco foi mais lento e fragmentado, então as músicas foram moldadas ao longo do tempo”. Essa lentidão é outro trunfo, a maturação sonoro deixa claro um salto entre os discos do grupo. Em cinco faixas, a banda conseguiu se colocar no hall dessas grandes bandas independentes do cenário experimental nacional.

13º Phalanx Formation - How To Destroy A Phalanx Formation


Uma das gratas surpresas do ano pra mim, ainda mais por serem de Recife, minha cidade natal, que não é nenhum bom exemplo na música eletrônica dançante na minha modesta opinião. Digo isso porque no Recife, quando tentam fazer música eletrônica, acabam misturando com ritmos regionais e isso me incomoda um bocado. Ouvir o debut do Phalanx Formation me levou a referências musicais bem distantes da capital de Pernambuco, e este é o primeiro triunfo da dupla, poderiam estar e ser de qualquer lugar do mundo. Outra característica interessante do trabalho, é não tentar esconder as referências, sejam elas novas ou antigas. A música eletrônica e seus artistas tendem a soar meio modernosos demais e negar um pouco suas referências, não parece ser o objetivo da dupla, eles não estão tentando inventar a roda. Aphex Twin, Animal Colletctive, vocais dobrados e repetidos, melodias em batidas tradicionais e dançantes, tudo isso pode ser encontrado no disco. O duo formado por Helder Bezerra e Enio Damasceno já deixava claro este deslocamento do Recife em suas bandas pregressas. Principalmente Enio, que cansei de ver ao vivo com a Mellotrons e trocar ideia sobre música, as referências sempre foram o mundo e está tudo ai. A acidez das letras é outro ponto bastante positivo do trabalho, a ironia se faz presente em temáticas leves. Mete o disco no player e sai dançando na rua, a ideia é essa.

12º Carne Doce – Princesa


Este disco está aqui porque o grito da Salma enquanto compositora feminina e feminista é alto demais para não ser ouvido. O protagonismo da cantora ficou evidente ainda antes do lançamento do disco, no single/clipe de “Artemisia”, tendo a vocal como personagem. Outro ponto extremamente relevante deste segundo disco do Carne Doce, é que finalmente foi um trabalho gravado em conjunto, como uma banda. O enriquecimento sonoro deste passo realmente alça a banda ao patamar de possível unanimidade nas listas. Além da sonoridade e das letras da Salma, toda a força do vozeirão vocal da moça também merece tal patamar, mesmo eu tendo achado exagerado o número de efeitos vocais em Princesa. A união sonora com a potência vocal e verborragia da cantora se abraçam, se embebem e se misturam com grande maestria em “Falo”, desde já o refrão é um hino feminista da mais clara expressão. É, acho que esse são motivos por demais pro disco não ficar de fora da nossa lista. Da próxima vez, grava o vocal ao vivo Salma, que eu coloco ainda mais em cima! (risos)

11º Negro Leo - Água Batizada


Leo é um dos artistas mais versáteis desta geração. Basta prestar um pouco de atenção na discografia do camarada pra perceber isso. Água Batizada, seu sexto trabalho solo, tem esse nome por conta do processo de composição do disco. Todos os envolvidos em sua gravação estavam sobre efeito da água tipo aquela que Maradona passou pro Branco na Copa do Mundo de 1990. Se nos últimos trabalhos, Negro Leo soava moderno seja em suas letras quanto na sonoridade dos discos, talvez pelo uso da Chinese Cookie Poets como “banda de apoio”. O estudo da canção fez com que Negro Leo fosse de encontro a uma sonoridade dita ultrapassada, um disco meio bossa-nova, meio tropicália, totalmente dentro da MPB e com participação de nomes como Domenico Lancelotti e Marcelo Callado, este último integrante da banda da Ava Rocha, que também participa do registro. Por falar na Ava, Leo fez uso de três canções da companheira de vida neste trabalho. Na real, quase metade do disco não foi composto por ele, o que já dá uma ideia de “novidade” pra quem acompanha a carreira do promissor músico e compositor. Neste trabalho, o mérito do Leo é ousar em novos caminhos na carreira, o que o torna um artista ainda mais plural.

10º Rumbo Reverso - Rumbo Reverso II


O segundo disco da banda paulistana Rumbo Reverso demonstra a constante evolução pela qual a banda segue passando. Se no primeiro trabalho de 2013, a ideia era demonstrar uma constante experimentação sonora, neste segundo disco, o projeto aprofundou ainda mais nas influências mais diretas do primeiro trabalho. O jazz é o norte para um instrumental bastante afiado em peças compostas como se fossem para uma trilha sonora de teatro/cinema. Rumbo Reverso II demonstra a maturidade de um projeto no qual experimentar é o principal objetivo. A bateria está em pleno destaque, quase soando como dueto em alguns momentos do disco, seja com o sax ou com a guitarra. O processo de composição do Rumbo Reverso sempre foi importante, pois é o local em que está toda a ideia de experimentação do projeto. Desta vez os integrantes da banda conseguiram aliar a mesma qualidade tanto no processo de composição, quanto no processo de gravação/captação das oito faixas do disco e sem perder aquele clima lo-fi, faixas estas que se ligam como uma só ao longo dos 31 minutos de extensão da lombra sonora.

9º Paulo Dandrea – Campo Estático


O terceiro trabalho da carreira do músico e produtor Paulo Dandrea é um meticuloso estudo sonoro da estática em loops eletrônicos que se ligam e se relacionam de maneira incrível. Aliado aos apetrechos e estilos eletrônicos, todo aquele conceito de eletroacústica no mais alto nível de estudo. O EP ainda conta com a participação da Marcela Lucatelli usando e distorcendo a voz na primeira faixa “Puppet Plant Percussive Stomach”. A sobreposição de loops e a pós-produção são os trunfos principais de Campo Estático. O conceito físico é explorado nos nomes espaciais e especiais das quatro faixas do EP. Também na repetição sonora, a ideia de estar parado, estático em uma sobreposição de loops. Em alguns momentos de forma acelerada como em “High Hatching”. Em outras de maneira mais calma, como em “Static Music Field”, o vocal se alheia aos loops nas repetições, tal qual um mantra com batidas de sino no fundo. O tom irônico de “One Man Wrecked Spaceship”, se colocando na função do homem que destruiu a nave espacial sonora, ou arranhou o disco, leva o trabalho para um fim experimental, mas sem sair do conceito da estática e dos loops. Ouvir o trabalho a viagem está garantida, isso sem precisa sair da cadeira.

8º Macaco Bong - Macaco Bong


Uma ótima surpresa pra mim foi a volta do trio instrumental, outrora de Cuiabá, hoje residindo em São Paulo. O quarto trabalho da banda é homônimo ao projeto, tem oito faixas do mais afiado rock instrumental. Lembra o primeiro trabalho da banda, o Artista igual a pedreiro, só que é bem mais completo. O tom rústico, até mesmo tosco do primeiro trabalho ficou pra trás. Agora as gravações e timbres estão em perfeita conexão. Bruno Kayapy é o único remanescente do grupo desde seu início mais de 10 anos atrás. O tempo e os trabalhos anteriores provavelmente fizeram muito bem ao Bruno. É o melhor momento dele enquanto artista ou pedreiro, vai saber. Os outros dois integrantes que completam a banda, Daniel Hortides (baixo) e Daniel Fumegaladrão (bateria), seguem o compasso das guitarras com maestria. Como eu adoro os filmes do Balboa, acho massa quando o protagonista apanha e dá a volta por cima. Então nada mais justo do que colocar essa ascensão sonora do Macaco nesta lista.

7º Bruna Mendez - O Mesmo Mar Que Nega a Terra Cede a Sua Calma


A cantora goiana Bruna Mendez foi outra grata surpresa do ano de 2016 na minha modesta opinião. Não que eu não a conhecesse, mas a participação no disco do Tonto (projeto de Beto Cupertino, do Violins) para o seu primeiro álbum foi um salto enorme. Uma linda voz, completamente equilibrada dentro do disco, sem precisar de muitos gritos, diferente de outros nomes femininos da tal MPB. Além da voz, o trabalho de compositora também é bastante interessante. Letras bem construídas, que demonstram todo o lirismo quando cantadas de maneira calma como ela o faz durante todo o disco (ouça “Vento Bom”). Interessante perceber também o mar como referência em uma cantora/trabalho feito no cerrado, a quilômetros do mar. Bruna explicou o uso metafórico do mar na Noisey "Goiânia é quase o total oposto do disco, mas esse mar sobre o qual eu falo é mais sobre um estado de espírito desse movimento da onda de ir e vir - ou negar e ceder". Para além da temática cotidiana, de relacionamentos e todos os problemas que podemos viver em nossa vida e em cidades como Goiânia (sim, ela está no disco, apesar do mar), a junção lírica com a sonoridade do disco é o trunfo do trabalho. Com produção do ex-CSS Adriano Cintra, em meio a toda calma mpbistica do trabalho, aqui e ali aparecem umas sujeirinhas, como na vinheta “Neguinha”. Um disco redondo, que ascende Bruna a uma potente voz da nova geração.

6º Labirinto – Gehenna


É meio senso comum a galera que curte música instrumental no Brasil colocar a Hurtmold como referência. Mas se a Hurtmold é a melhor banda instrumental brasileira, a Labirinto é a melhor banda instrumental brasileira no mundo. Longe de mim tentar levantar polêmicas aonde não existe. As duas bandas tem bastante qualidade e uma bela carreira comprovada em belos discos (Mestro, eu te amo!). Porém, a evolução da Labirinto é assustadora desde o EP precedente ao Anátema até chegar em Gehenna, trabalho mais recente do grupo paulistano. Em Gehenna, a banda larga mão um pouco do tal do post-rock e envereda por um post-metal violento, carregando a enorme carga política vivida no Brasil nos últimos anos, com menções e lembranças ao AI-5 ditatorial vivido por nossos pais (ouça “Qumran”). O inferno sonoro retratado pelo grupo passa por baterias dobradas, guitarras nervosas, toda uma orquestração de barulhos bem pensados e pesados. Diferente dos trabalhos anteriores, as canções são mais curtas e urgentes, com exceção da música que dá nome ao disco. Trata-se de uma bela trilha sonora para algum momento apocalíptico, vide o perverso ano de 2016 e que provavelmente ainda irá ecoar ao longo deste ano de 2017.

5º Marcela Lucatelli - Phew! The Last Guide for a Western Obituary


Se rolasse aquelas ideias de prêmio revelação do ano por aqui, minha indicação seria Marcela Lucatelli. O histórico só deixa a sonoridade do novo trabalho dela mais interessante. Marcela foi aos 16 anos para Dinamarca se tornar cantora lírica na Academia Nacional de Música do país. Tendo isso em mente, ouvir Phew! faz toda a ideia de lirismo ficar ainda mais interessante. Gravado em um único dia por ela, o guitarrista carioca Marcos Campello (Chinese Cookie Poets et al.) que ela conheceu no dia da gravação e o baterista paulistano Márcio Gibson, com quem Marcela já tinha feito apresentações em dueto. Sem um ponto de partida inicial, o encontro do trio redefiniu alguns conceitos sobre experimentação e Marcela sobre o uso do lirismo com a voz, indo bem além da canção na pós-produção do trabalho. O uso de elementos eletrônicos, barulhos quebrados do dia a dia em samples diversos só enriqueceram o trabalho do estúdio. Para além da sonoridade, os nomes das canções relevam todo um humor sátira que vai bem para dar um pouco de leveza a todo o contraponto experimental do trabalho da Marcela neste belo registro. Por mais mulheres como Marcela nesse mundinho masculino do experimental brasileiro, por favor.

4º Síntese - Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: “AMEM”


O Neto é um dos nomes mais importantes do rap brasileiro atualmente. Basta ver aqui na barra de mais acessados uma entrevista nossa com o Síntese quando ainda era uma dupla e apresentava o “rap do interior” na época do Sem Cortesia (2012). E no ano mais “Emo Franjinha” do rap nacional, o Neto deixou de lado essa briguinha de regiões e meteu uma trilha sonora para quem vive na ilusão. Os tempos de gravações de sonoridade lo-fi, mas sem qualidade de gravação, como “4:20” ficaram pra trás. A base também não é apenas o rap, por mais que samples com clássicos do Racionais e Black Alien apareçam, também é possível ver alguma base sonora no dub, jazz e de MPB. O uso de sons orgânicos veio com a co-produção do Ganjaman, em 2015, quando o Neto resolveu que estava na hora de colocar pra fora uma mistura de versos que foram feitos entre 2008 e 2015. No meio do caminho, o Síntese fez trampo com o Nave, Thiago França, Kiko Dinucci, subiu no mesmo palco de nomes ditos estabelecidos no rap brasileiro atual, como o próprio Black Alien. Chegou a hora de lançar um trabalho que alheia à qualidade do som com as dos versos ácidos e diretos do Neto. E isto pra mim já faz nascer um clássico.

3º BaianaSystem – Duas Cidades


Baiana já é uma banda que podemos dizer está consolidada no cenário soteropolitano. Digo isso porque não é fácil uma banda subir em um trio elétrico e arrastar uma multidão em um carnaval elitizado como o de Salvador e sem tocar axé! A foto da capa do segundo disco do grupo Duas Cidades, já revela um certo orgulho deste feito por parte da banda. O novo disco alçou o grupo ao cenário nacional, e isto é outro feito relevante, quando se pensa nos últimos artistas alçados no estado da Bahia. O mérito do Baiana está em não negar tais influências tão características a sua cidade como o axé/samba/pop/arrocha para o Brasil e mundo, mas se apropriar delas e misturar com influências como o afrobeat catapulta do Fela Kuti em Kalakuta, sem duvidar do “samba/dub/reggae”, o rock e também exaltando e colocando em seu devido lugar de destaque, toda influência da música afro, berço do seu estado e cada vez menos exaltado de maneira real (o último nome que lembro a realmente fazer isso foi o Timbalada). Além de toda carga sonora, a mensagem política de Duas Cidades, deixa claro o incomodo da banda com a enorme desigualdade de uma Salvador turística e outra que parece não poder mais descer o morro. Em “Lucro: Descomprimido”, uma característica cada vez mais frequente nas grandes cidades litorâneas do nordeste. Prédios altos a beira-mar, resorts privatizando as praias, privilegiando elites e empurrando para mais longe os moradores originais das regiões. É provavelmente um dos discos mais dançantes desta lista, e ai está outro trunfo da banda. Conseguir fazer um som pra cima, mesmo falando de assuntos sérios e sempre exaltando a cultura africana. O punho cerrado é a imagem forte que representa toda uma classe normalmente não representada.

2º Vitor Araújo – Levaguiã Terê


Vitor é um desses geniozinhos musicais. O piano é o instrumento que ele escolheu para experimentar. E Levaguiã Terê ascende o Vitor muito além dos tênis pisando o piano. Isto porque em mais um disco duplo, o músico conseguiu reunir em sua música influências afro-indígenas, bossa-nova, Villa-lobos, a MPB e o eruditismo trazido da Europa para o Brasil, sem esquecer-se do Radiohead. O disco é praticamente uma viagem pelo descobrimento musical do Brasil atual, que não se esquece do passado (negro e indígena), que bebe do presente mundo pop e não sei se pensa no futuro, mas quer deixar sua marca no mundo. Pode parecer meio impossível, mas não menos do que o que Vitor vem fazendo desde sua adolescência de menino prodígio do piano. Na real, o trabalho é exatamente o Vitor enquanto artista. Um menino que adolescente se prende a um instrumento antigo como o piano, estuda composição erudita e quer reger orquestra, mas que vive no mundo pop de Chico Buarque, Radiohead e no Recife da Nação Zumbi. Então, o disco duplo é um resgate de nomes esquecidos, lendas não catalogadas, mas que não perde a roupagem dos dias atuais (o popular). E isso é foda, principalmente quando você consegue acertar. E Vitor acertou.

1º Metá Metá – MM3


O disco mais difícil do projeto de três cabeças Metá Metá e também o mais difícil desta lista. Fecha a primeira trinca da banda que segue em constante evolução e cada vez mais afinada. Este também é o disco mais feito a seis mãos do projeto. Quando Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França se misturam é onde está o trunfo do Metá. MM3 levou Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França para um mês de tour na Europa, em que o grupo conseguiu o feito fugir do tal World Music e fincar raízes sonoras como jazz. E no âmago do trabalho, é exatamente isso que ele é. MM3 é um disco de jazz, com enorme presença do sax envenenado do Thiago. Porém quando se fala em três das mais conceituadas da música brasileira atual, difícil ficar apenas em um estilo. Na real, é difícil rotular um projeto como o Metá Metá. O peso de letras como a de “Imagem do Amor”, não é realmente pra qualquer um. Em se tratando das letras, o Metá se aprofunda ainda mais na cultura afro de origem religiosa, muito pela presença do Kiko Dinucci, que assina autoria seja sozinho, seja com os parceiros de banda e/ou de vida musical, oito das nove faixas do disco, entre elas “Osanyin”. Lógico que isso é parte do conceito que linka os três nomes principais da banda. Tanto que culmina no atrevimento de realizar uma versão jazzística incrível de um hino clássico do Candomblé como “Oba Koso”, que fecha brilhantemente o disco.

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