Zona Lamm: a potência do trabalho artístico feminino reunida em Belo Horizonte

por - 07:40

[caption id="attachment_28735" align="aligncenter" width="2048"]ZonaLammPalco_Mirela por Mirela Persichini[/caption]

Belas


Quem vê aquelas meninas no palco, na produção, na técnica, na mesa de som, talvez não consiga imaginar o caminho percorrido até ali. Durante duas semanas, entre outubro e novembro de 2016, a Zona Lamm – Laboratório de Artes Musicais Para Mulheres reuniu 7 artistas latino-americanas – Diana Restrepo, Naiara Armendáriz, Orito Cantora, Jenn Del Tambó, Cláudia Manzo, Nath Rodrigues e Nívea Sabino, além de uma equipe técnica e de produção 100% feminina.

Uma parcela bem pequena da representativa cena de mulheres na música e nas artes, a residência aconteceu em um momento no qual a valorização das mulheres na música vem crescendo, no Brasil e no mundo. Para citar algumas iniciativas, além do meu 365 Girls in a Band, temos: Sonora, PWR Records, Dissonantes, Quase Todo Dia uma Banda de Mina Diferente, Coletivo Mulheres Criando, Saffron Records.

O grupo que se reuniu ali, seja na residência, seja nas atividades externas, mostra uma força tenaz e crescente que vem da descoberta que se unir a outras mulheres é um ato de resistência, mas também um caminho poderoso para quebrar barreiras sociais e psicológicas.

No último dia, encerramento com festa para o lançamento do EP produzido coletivamente pelas residentes, vemos uma série de mulheres radiantes, entrando e saindo do palco, passeando pela plateia, posando para fotos, filmando, produzindo, garantindo o melhor som. É puro empoderamento. O sentimento geral de que juntas fazemos mais e melhor, podemos atingir qualquer objetivo.

[caption id="attachment_28734" align="aligncenter" width="667"]ZonaLAMMCasa_FabianaLeite por Fabiana Leite[/caption]

Recatadas


Uma terça-feira a noite eu ganho autorização para entrar um pouco na rotina das meninas que estão habitando a casa-galeria Mama/Cadela. São minhas vizinhas temporárias, a casa mais bonita da rua. Estamos em Minas e é na cozinha que a conversa acontece. 4 das 3 residentes estão em volta da mesa comigo: Diana, colombiana, trabalha com música experimental e performance; Naiara, argentina, investiga e transmite músicas e danças étnicas e folclóricas da América Latina e África.; Orito Cantora, que pesquisa a música tradicional colombiana e, junto com Jenn Del Tambó,  é responsável pela Fundación Red de Tamboreras de Colombia.

A conversa flui bem, as meninas começaram a gravar o ep no dia anterior, estão cansadas, o processo é intenso e o tempo, curto. Falamos sobre o erro: Vanessa de Michelis, diretora musical do projeto, disse a todas, no primeiro dia, que ali elas podiam errar. Esse momento parece ter marcado todas as meninas e a residência virou espaço de (re)conhecimento, aprendizado e troca. Falamos sobre esse enfrentamento cotidiano para mostrar que somos tão capazes quantos os homens, em diversas áreas. Sobre os pequenos machismos, aqueles que se escondem na poeira da casa e em frases subentendidas. Do desgaste de se manter sempre em guarda e da felicidade que é quebrar todos os estereótipos e mostrar (provar!) que mulheres podem viver e trabalhar juntas, que a união faz a força também – e mais além – no universo feminino.

Corta para alguns dias antes. Representantes da cena hip hop feminina em Belo Horizonte, Polly Honorato, Paige Willians, Zi Reis, Pat Manoese e Letícia Perera contam um pouco sobre as dores e a delícia de uma cultura que desconheço quase completamente. Tem tantos detalhes ali que eu não tinha percebido nunca, a conversa é um tapa na cara e daria um artigo por ela mesma. É Letícia quem diz a frase que martela na minha cabeça enquanto escrevo: “Porque ir pra rua é uma coisa muito complicada pra mulher”. O papo acaba em uma roda de freestyle,com a presença também de Bárbara Sweet, e a contribuição das residentes, misturando as rimas com os tambores e outras técnicas vocais.

[caption id="attachment_28733" align="aligncenter" width="852"]ZonaLAMM_FabianaLeite por Fabiana Leite[/caption]

Do Lar


Foi nesse mesmo quintal que, uma semana antes, sob o comando de Flora Guerra, me reuni com outras meninas para aprender alguma coisa sobre montagem de palco e técnica de som. Me inscrevi nessa oficina num impulso e por um necessidade urgente de retomar um projeto-sonho de ter uma rádio. A maioria das meninas é musicista, mas todas temos em comum precisar do conhecimento para nos colocar (mais uma vez, provar!) diante de roadies e técnicos de som. Pela primeira vez, uma série de dúvidas que eu sempre tive (e sempre temi perguntar) foram colocadas na mesa e resolvidas sem risos abafados ou suspiros de impaciência. Ali, na varanda de casa, com outras mulheres, em uma roda de trocas, aprendizado e fortalecimento mútuo.

Se ir para a rua é sempre uma coisa muito complicada para a mulher  - realmente é, como também pudemos ver nos filmes exibidos naquela mesma varanda em uma outra noite pela Coletiva Malva -  há algo de muito forte em reunir diferentes mulheres dentro de casa e subverter o significado que se dá a esse espaço. É na própria construção da casa, no limite entre dentro e fora, no espaço caseiro e no das visitas, na intimidade que é preservada, que se parece ter construído os alicerces do que essas semanas acabaram se tornando. O lar aqui não é limite, é ponto de partida.

Você também pode gostar

0 comentários