'A revolução virá pelo ventre': Sonora - Ciclo Internacional de Compositoras

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Deh Mussulini por Henrique Bocelli

Em um ano em que as hashtags mostraram a força e o incômodo de muitas mulheres no Brasil, Deh Mussulini chamou as compositoras a publicarem vídeos de suas músicas com a tag #mulherescriando. O movimento criou uma enorme rede de musicistas, que ultrapassou as fronteiras nacionais e levou a criação do Sonora - Ciclo Internacional de Compositoras. Depois de um primeiro ano muito frutífero, o Sonora se prepara para os novos desafios pela frente e se mantém firme como uma vitrine e um espaço de discussão para as mulheres música no mundo. É a própria Deh quem nos conta essa história na entrevista abaixo.

O Sonora surge do alcance da hashtag #mulherescriando e da rede de compositoras que se apresentou em torno desse projeto. Você tinha noção da necessidade que as mulheres compositoras tinham de mostrarem a cara e dialogarem ou a resposta foi uma surpresa?

Eu tinha noção pela caminhada que já trilho há dez anos buscando romper esse imaginário de que a mulher é menos competente na música do que os homens! Inclusive idealizei o Coletivo ANA em 2011 nesse intuito, e fomos o primeiro coletivo de compositoras do Brasil e foi justamente nessa luta de tentar entrar nos espaços musicais ocupados majoritariamente por homens que percebia as desculpas esfarrapadas que usavam para não colocarem mais mulheres nos festivais e mostras de músicas autorais. Por isso lancei a hashtag, porque nos disseram, no Coletivo ANA, que não se via vídeo de mulheres tocando suas próprias canções e isso era pré requisito nas seleções...e foi uma tempestade belíssima de mulheres criadoras!

O alcance do Sonora também foi enorme e ultrapassou barreiras regionais e nacionais. Como lidar com as diferenças em um projeto que se tornou tão grande?

Pois então, é muito bonito e feliz pensar que construímos, juntas, compositoras e produtoras, um festival autogestionado, horizontal e colaborativo, em que forças e ideias eram sempre somadas e as particularidades culturais regionais sempre respeitadas. É maravilhoso, de tão lindo parece utópico, mas é real!



Para o seu trabalho enquanto artista, qual foi o impacto do Sonora? E como você vê o alcance do projeto para além do universo musical?

Bem, com certeza me ajudou na minha carreira solo, aliás de nós todas juntas que produzimos o Sonora, pois fomos fomentadoras de uma cena de musicistas ao criarmos o maior festival de compositoras do mundo! Por ser um projeto de empoderamento mas também de divulgação das milhares de mulheres criadoras que estão na ativa e apenas não possuem o reconhecimento e espaço. Foi um trabalho intenso de cura da relação da mulher com a música, em que as próprias testemunhavam e compartilhavam fatos e dores que passaram em relação ao machismo na cena musical. Isso foi algo que aconteceu em todas as regiões, impressionante!

Ao contrário de outros projetos e coletivos, o Sonora não reúne artistas por afinidade de estilos. Isso mostrou a diversidade das mulheres musicistas no país. Essa diversidade em diálogo pode ajudar na criação de uma cena artística mais sólida?

Com certeza! A ideia não é hierarquizar a música por estilo, como é o modelo vigente no mundo atualmente, mas sim colocar uma cena que as mulheres são as protagonistas e criadoras de sua própria arte, independente de estilo. O legal é justamente mostrar ao mundo a diversidade de gêneros musicais criados por mulheres que existem, pois somos diversas!



Se é que dá para falar em objetivos específicos em um projeto tão diveros, quais os objetivos do Sonora daqui para frente?

Queremos ser uma referência para as pessoas, no sentido de apresentar e empoderar compositoras. Estamos nos estabelecendo como cena também, uma cena de mulheres autoras, e queremos que isso se torne rentável, para que realmente possamos estar gerindo e fomentando de forma mais efetiva. Ano passado foi nosso primeiro ano e foi sensacional, fizemos tudo as próprias custas, mas agora buscamos formas de nos sustentarmos financeiramente, pois isso é um serviço e para que ele cresça e se estabeleça precisamos de patrocínio ou que o público vá em peso mesmo (risos).

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